terça-feira, 9 de Fevereiro de 2010

Fetiche #11

Fetiche
Nome masculino > 1. Objecto a que se presta culto por se lhe atribuir poder mágico ou sobrenatural > 2. figurado. aquilo a que se dedica um interesse obssessivo ou irracional > psicologia. objecto gerador de atracção ou excitação sexual compulsiva.

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“I've developed a new philosophy... I only dread one day at a time.”- Charlie Brown
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[Charlie Brown]
1. Nome de rapaz ternurento, frustrado e tímido > 2. Mais do que um fetiche, é um alter-ego assumido - I am Charlie Brown > 3. Invenção de um génio chamado Charles (provavelmente o Charlie era também o seu alter-ego) Schulz, que já não está entre nós > 4. Charlie bem tenta, mas tudo em que toca parece votado ao fracasso > 5. Todos os anos, Charlie tenta bater naquela bola da maneira correcta e todos os anos falha sempre, para desespero da restante equipa de baseball (nem todos podem ser ases no desporto ... mesmo na Terra do Uncle Sam) > 6. De todas as vezes que Lucy o tenta enganar, consegue! rais parta a mulher, porque Charlie acaba sempre por confiar nela e NUNCA consegue dar o pontapé naquela bola > 7. É Charlie quem é dono de Snoopy ou é o Snoopy que é dono de Charlie? ... > 8. Peanuts - a série animada com as vozes mais irresistíveis de sempre > 9. E os outros: Snoopy, o cão prodígio; Woodstock, o pássaro excêntrico; Sally e a sua fixação na Great Big Pumpkin; Linus e a sua fralda fetiche; Lucy e a sua mania de saber tudo e mais alguma coisa (tenho uma tia com o mesmo nome muitíssimo parecida ...); Schroeder e a sua paixão por Beethoven; Peppermint Patty que vem lá da santa terrinha com os seus modos de maria-rapaz e as suas sandálias e o seu fraco por Charlie > 10. Insubstituíveis, irresistíveis, eternos > 11. Uma série com crianças, onde jamais se vêem adultos, concebida para deliciar adultos e crianças, por esta ordem de importância
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segunda-feira, 8 de Fevereiro de 2010

'Till I Found You

O Mundo Colapsa 11
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2200, Inverno, 13.40 GMT
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A Dheli chamara-lhe a atenção há uns meses atrás porque, numa das suas passagens pela Rede, nos poucos tempos livres que não ocupava em hibernação, detectara uma forte concentração de comunicação unilateral nos PacMasters da área circundante, o que era estranho. Estranho por dois motivos:
1º - O Sistema de Vigilância não permitia concentrações desta espécie. Qualquer grupo de mais de 3 PacMasters próximos a comunicarem em simultâneo e ainda por cima com um único receptor, era considerado altamente suspeito e era rapidamente eliminado (tradução: primeiro os PacMasters explodiam e depois "explodiam" os seus donos, que acabavam a servir de combustível num qualquer terminal espacial)
2º - Nenhum humano no seu juízo perfeito e em posse de todas as suas faculdades, experimentaria jamais fazer isto, desde que os primeiros PacMasters e respectivos donos tinham começado a explodir um pouco por todo o mundo, nos primeiros tempos da Nova Era.
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Portanto, das duas uma:
* Ou o Sistema de Vigilância apresentava algum tipo de falha que um bando de idiotas tinha aproveitado para "furar"
* ou o suposto grupinho era composto por Gajos Muita Espertos que tinham conseguido iludir o Sistema
Em qualquer dos casos, era algo que o intrigava desde que por acaso tinha reparado naquele ponto suspeito, e valia a pena investigar um pouco mais. Sobretudo porque se houvesse de facto um grupo de Gajos Muita Espertos a furar o Sistema, C. queria saber porque andavam a fazê-lo e principalmente C. queria-os no Programa. Toda a ajuda era preciosa, sobretudo dos Humanos, apesar de considerar, ao contrário de J., que todos sem excepção eram uns Merdosos.
Por isso, decidiu realizar algumas incursões rápidas pela zona. Não podia deixar-se ficar muito tempo no mesmo PacMaster porque levantaria suspeitas, mas podia alterar um pouco o seu plano de vôo e saltitar mais vezes para aquela zona, em vez de andar a percorrer o planeta inteiro. Depois, o que tornava ainda mais aliciante a Dheli, é que o sistema de vídeo do PacMaster do seu proprietário estava invariavelmente apontado para a janela da casa e C. conseguia ver o mar. Em pixels, é certo. Mas ao menos era o mar verdadeiro e não uma fotografia mal emporcamente resgatada do seu baú de memórias e digitalizada à pressa antes de ter resolvido evaporar-se definitivamente na Rede.
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Este facto também era estranho. Todos os ARLIs estavam a par das características da Revolução operada no mundo. Destruição de países inteiros, eliminação de todas as organizações, instituições e sistemas humanos, escravatura humana e sobretudo destruição de toda a geografia e arquitectura milenares, para dar lugar a uma amálgama de conjuntos parecidos com cidades industriais. Por outro lado, o aquecimento do planeta tinha atingido tais proporções, que obrigara à construção de gigantescas cúpulas protectoras, algumas delas abarcando centenas de milhares de quilómetros. O resultado era uma paisagem planetária que se assemelhava a um deserto povoado de cogumelos de vidro de várias dimensões e a Terra, observada a partir das diversas estações espaciais que a cercavam, assemelhava-se a um organismo canceroso gigantesco e pardacento, onde as únicas notas de cor eram conferidas pelos pequenos pedaços de azul oceânico que preenchiam os espaços entre as cúpulas.

domingo, 7 de Fevereiro de 2010

Macro Secrets 26

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I am a remarkable actress

sábado, 6 de Fevereiro de 2010

MORMORIOS DI FIRENZE V

Monstros, Deuses, Príncipes e Artistas
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Nas esquinas de Florença convivem monstros, deuses, príncipes e artistas. A proximidade com estes seres leva-a a confirmar uma antiga teoria - o belo está tão próximo do feio, como o amor do ódio. Os extremos tocam-se e atraem-se. Nem só de musas vive um artista que, por conhecer os segredos horripilantes dos materiais que trabalha, compreende mais do que qualquer outro ser, que o belo só pode nascer do feio e que a ira, a força e a loucura são muitas vezes a base do sublime.
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Note-se como: de um bloco de mármore duro e fechado, podem nascer os mais belos apêndices alados. Que esforço exige a dura pedra ao artista? Uma luta titânica. Uma obssessão teimosa. Uma concentração obstinada.
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Note-se como: de uma parede nua, brotam histórias habilmente pinceladas em cores magistralmente misturadas. Que esforço exige o complicado fresco ao artista? Uma paciência sem limites. Uma habilidade minuciosa. Um timing perfeito.
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Note-se como: de um esqueleto de andaimes suspensos, brotam cúpulas que desafiam as leis da gravidade. Que esforço exige a misteriosa matemática ao artista? Uma mente capaz de associações brilhantes. Um espírito visionário intemporal. Um labor diário persistente.
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E então acontecem milagres. Que não são milagres pelas características que habitualmente atribuímos aos milagres - fenómenos instantâneos de magia espiritual. Porque não brotaram do nada, mas de uma dedicação que pode levar à loucura. O milagre está no resultado do esforço, nunca no fenómeno temporal.
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E nós, meros passageiros do tempo, julgamos apenas o produto acabado, sem adivinharmos os monstros impossíveis contra os quais os artistas pagos pelos príncipes e inspirados pelos deuses tiveram de lutar para transformar o comum no imortal.

sexta-feira, 5 de Fevereiro de 2010

EM BUSCA DE PALAVRAS 97

KillShot
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Um filme sobre um assassino profissional, protagonizado pelo Mickey Rourke?
É que é já a seguir, mesmo que seja a maior bodega deste mundo, pensei eu.
Mickey Rourke sempre teve um grave defeito - é aquele tipo de actor que, ou tem a sorte de aterrar num argumento sólido e com um realizador que sabe dirigir actores e então é capaz de milagres; ou então escolhe porcarias só para ganhar uns trocos (e aí é muito parecido com Brando) e abeira-se do precipício. Ele nunca é mau, note-se, mas às vezes balança periclitantemente na corda bamba entre o génio e o mau gosto absoluto.
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Este filme é uma bodega, confirma-se, MAS é comestível e o seu assassino (já com algumas plásticas em cima - os homens quando fazem plásticas ficam verdadeiras aberrações, ainda mais que as mulheres) é sofrível. Confirma-se, MR nunca é mau.
O único problema é que neste filme o Botox já era tanto que ele nem sequer consegue ter expressões faciais o que, verdade seja dita, até calha bem num rosto de assassino frio e calculista, mas também é demais!
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O que aprendi com este assassino Rourkiano?
* Num serviço temos de saber o que fazemos. Temos de ter tudo planeado. São essas as regras do jogo. Saber como entramos e como saímos, quantos tiros temos de disparar. Temos de saber onde estão os alvos e certificar-nos que ninguém nos vê. Não nos devemos demorar ou interessar-nos. Assim não há erros.
* Um homem com medo nem sempre é previsível
* Não deves falar demasiado, nem dizer-lhe o que tens em mente (quando ameaças alguém). O ideal é apanhá-lo de surpresa
* A única altura em que deves sacar da arma é quando vais matar alguém. É o mesmo que com os caçadores. Um gajo que sabe o que faz não dispara se acha que pode falhar. Depois temos de ir atrás do animal e acabar com ele (se o ferirmos)
* Nunca se deve deixar pontas soltas. Nunca deves achar que não se lembrarão de ti (caso haja testemunhas)
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E aqui vai o cheirinho do Mickey Mau:
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quinta-feira, 4 de Fevereiro de 2010

MURMÚRIOS DO PARAÍSO XI

O Guadiana
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O Guadiana separa duas tribos que se conhecem desde tempos imemoriais, mas que são muito diferentes.
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O Guadiana é o rio mais próximo do Paraíso e, por isso, nas suas águas todas as mulheres são sereias, todos os cavalos são marinhos, todas as alforrecas são medusas encantadas, todos os botes de pescadores são naus aventureiras de tempos idos, todas as algas são tesouros esquecidos, todos os peixes são neptunos dançarinos e todos os pescadores príncipes aquáticos.
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O Guadiana é manso, como tão bem disse Lutegarda Guimarães de Caires, a poetisa da Vila Real:
“É que não há um céu de tal ‘splendor
Nem rio azul tão belo e prateado
Como o Guadiana, o meu rio encantado
De mansas águas suspirando amor!”
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Mas quando tempesta, o Guadiana transforma-se num manto cinzento de agitação, escondendo histórias turbulentas nas suas profundezas. Como a daquele navio que lá ficou encalhado durante anos a enferrujar, sem que ninguém quisesse saber dos seus segredos. Como as histórias dos namorados que à sua beira passeiam e lhe segredam interdições. Como a dos botes que pela calada da noite trocam substâncias proibidas entre uma margem e outra. Ou como o lamento irado e antigo dos etarras que lutam pela sua independência do outro lado da margem.
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O Guadiana atravessa-se no ferry, agora em passeio turístico descansado e espaçado, porque a ponte lá ao fundo aliviou a concentração de gentes. Mas a autora destas linhas ainda se lembra de quando, menina, se tinha que esperar em filas intermináveis para atravessar o rio e de como até havia quem saltasse lá para dentro já as comportas estavam fechadas, na ânsia dos caramelos além-fronteira.
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O Guadiana é muito mais calmo que o mar onde desagua, mas não menos prolífico em histórias de embalar.
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quarta-feira, 3 de Fevereiro de 2010

PALAVRAS ESTÚPIDAS 84

James - Parte II
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Esperei duas semanas e voltei a atacar a fera. Mas desta vez, pensei eu (ah que ingenuidade ...), estaria mais bem armada. Back to page 1. Pois é. Engoli o orgulho (mas qual orgulho? ... diante de James Joyce sou um cão com o rabo entre as pernas ...), meti o rabo ainda mais entre as pernas e fui recambiada para o início do livro, para ler a introdução ...
Entusiasmada, descobri por exemplo que apesar do livro estar dividido em capítulos que fazem referência directa à Odisseia de Homero, a maioria dos estudiosos Joyceanos garante que sem os títulos para ajudar, ninguém conseguiria fazer tal associação (cobardolas! a ficar entusiasmada com a ignorância alheia ...)
Marta to Marta Note: Não seria melhor ler a Odisseia originária primeiro? ... (opá ... não tenho pachorra ...)
Quando cheguei ao fim da introdução descobri que a metade que eu tinha achado que tinha percebido, afinal tinha percebido quase tudo mal. Por exemplo, tinha percebido que havia 3 rapazes no início que eram soldados. Ó santa ignorância! Não eram nada soldados ... Por exemplo, tinha percebido que um dos protagonistas se tinha dirigido a uma escola e falado com um professor. Ó santa ignorância! Ele era professor nessa escola e tinha falado era com o director ...
Pelo meio temos acesso a uma série de pensamentos indecifráveis do protagonista, Stephen Dedalus. São muitos. Consegui perceber que ele tinha estado em França (não faço ideia a fazer o quê) e que se recordava da morte da mãe. Em ... não sei bem ... cento e tal pensamentos, conseguir perceber dois ... não está mal ...
E perguntam vocês e perguntam muito bem, mas então ó tu! tu não sabes inglês e vais ler um livro em inglês?
Opá. Eu sei inglês. Quase fluente. Até escrevo nessa língua. Só que ... é digamos ... como explicar? é como dar Shakespeare a ler a alguém que nunca passou do nível primário do inglês. I ... like ... the ... beach ... e depois de repente ... Now is the winter of our discontent, made glorious summer by this sun of York ... percebem? Não dá. É assustador.
Ou seja, estamos a falar de inglês Joyceano, que está para o inglês avançado como o tio Shakes para o inglês para iniciados. Porquê? Porque Joyce ... e nem sequer sei se vou conseguir explicar bem ... digamos que Joyce inventou uma nova gramática. Ele não se limita a inventar palavras (essa parte ainda é capaz de ser a mais fácil, dentro da complicação toda ...), ele inventou um novo sistema linguístico, que não é regulado pelas mesmas leis do sistema a que estamos habituados. Por exemplo, num único parágrafo podem-se misturar acções e pensamentos do personagem de forma contínua, sem que exista nenhum tipo de elemento sinalizador comum pelo qual nos possamos guiar.
Depois, seria provavelmente necessário ter PELO MENOS um conhecimento aprofundado da história da Irlanda e da Literatura Ocidental
Marta to Marta Note: há séculos que ando para comprar uma História da Literatura decente
para conseguir perceber metade das alusões que Joyce faz a uma série de coisas em cada frase que escreve. Ou seja, cada acção e cada pensamento do personagem nunca são apenas isso, mas estão sempre impregnados de um segundo sentido histórico ou social ou político, etc.
Dito por outras palavras, quando Stephen caga, por exemplo (sim, ele descreve o personagem a cagar, razão pela qual o livro foi na altura da publicação - 1922 - proibido em Inglaterra e nos EUA), Stephen não está apenas a cagar.
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P.S. James, you motherfucker, don't you even dream I'm going to quit on you!