quarta-feira, 23 de Dezembro de 2009

MURMÚRIOS DE LISBOA XCII

Mr. Darcy - Parte II
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Jardim Botânico
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Mr. Darcy é perfeito. Já o sabemos. Mas Mr. Darcy não é perfeito por não possuir quaisquer defeitos. Antes pelo contrário. Ele tem defeitos e virtudes, como todos nós. O que acontece, pensa Elizabeth, é que ele é perfeito para ela. Existe uma diferença significativa entre ser-se perfeito tout court (o que, diga-se de passagem, pensa Elizabeth, deve ser deveras sensaborão) e ser-se perfeito para alguém (o que, diga-se de passagem, pensa Elizabeth novamente, pode ser algo verdadeiramente empolgante).
Com efeito, Elizabeth aprendeu a gostar de todos os pequeninos senãos de Mr. Darcy e todos os dias ela lhe descobre mais um ou outro pormenor, como alguém que examina atentamente um frágil vaso de cristal para detectar todas as pequenas falhas que o tornam único e irrepetível.
É claro que Mr. Darcy desconhece tudo isto. Não suspeita sequer. Elizabeth resolveu-se a amá-lo em silêncio, platonicamente, e tenciona prolongar este estado de espírito o máximo de tempo possível. Desde que Mr. Darcy continue nas suas imediações e desde que ela possa gravitar em seu redor como uma traça em volta da sua luz preferida, sentir-se-á satisfeita. Foi a forma que encontrou no interior do seu pequeno mundo fechado, para se sentir segura.
Por vezes, Elizabeth fantasia sobre a remota possibilidade de Mr. Darcy se aperceber, num repente mágico, que é perfeito para ela. Raras vezes, Elizabeth levanta vôo até alturas vertiginosas e aventura-se nas imediações da possibilidade de Mr. Darcy considerá-la a si perfeita, para ele. Nesses momentos de arrebatamento racional, Elizabeth sente um suave frémito inundar-lhe o estômago e parece-lhe, às vezes, que lá dentro uma míriade de borboletas esvoaçam tremulamente. Esta sensação consegue ser quase tão intensa como a primeira vez que Elizabeth pousou os seus olhos na figura de Mr. Darcy e este a tomou completamente de surpresa.
Mas de todas as vezes que isto sucede, Elizabeth rapidamente se afasta dessa zona ao mesmo tempo confortável e assustadora, censurando-se a si própria por ter ido demasiado longe e regressando à realidade do seu pequeno mundo. Como poderia isto jamais ser possível?, pensa ela com um imperceptível encolher de ombros e o esboço de um sorriso trocista a desenhar-se-lhe nos cantos da boca.
Como poderia jamais ser possível Mr. Darcy amá-la da mesma forma que Elizabeth o ama a ele?

terça-feira, 22 de Dezembro de 2009

Fetiche #6

Fetiche
Nome masculino > 1. Objecto a que se presta culto por se lhe atribuir poder mágico ou sobrenatural > 2. figurado. aquilo a que se dedica um interesse obssessivo ou irracional > psicologia. objecto gerador de atracção ou excitação sexual compulsiva.
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[Meias]
1. Substantivo cosy > 2. Plural, nunca singular > 3. No Inverno, no Outono, na Primavera e no Verão > 4. De lã, de malha, de algodão, às riscas, às bolas, às flores, com bonecos, lisas, às cores > 5. Sempre sem dedos, meias com dedos é uma aberração > 6. Escondem a parte mais ridícula do corpo, os pés > 7. Aquecem, confortam, aconchegam, protegem > 8. Sem elas, a vida não é, não pode ser a mesma coisa

segunda-feira, 21 de Dezembro de 2009

MURMÚRIOS DE AVALON XXXVI

O Mundo Colapsa
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2200, Inverno, 11.55 GMT
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Os 10 ARLIs que participavam no Governo Sombra do Planeta dividiam-se em dois grupos - 5 Chefes e 5 Assistentes. Os Chefes coordenavam as operações a nível continental e os Assistentes executavam nos países do respectivo continente. Desde o início que esta hierarquia e estratégia eram respeitadas e, mesmo que as coisas tivessem andado devagar, ninguém mexera nelas porque, basicamente, aquilo acabava por funcionar, não se sabia muito bem como. Quanto mais pequeno o grupo, melhor se podiam coordenar uns com os outros e, de qualquer das formas, nunca tinham havido tentativas de tomada de poder por parte dos restantes ARLIs. As coisas estavam tão más, que toda a gente sabia que só podiam piorar se fossem postas em causa decisões tomadas no seio do Programa. Toda a gente sabia também que o Programa era a única esperança possível e que, se fosse desactivado, a expectativa de vida seria completamente aniquilada. De mais a mais, e para aqueles que acreditavam, a Força Geradora provinha da união e esta dependia por sua vez da coesão do Programa. De resto, se por qualquer motivo este se desativasse, seria quase impossível criar outro semelhante - as reservas não eram suficientes para a sobrevivência dos ARLIs entre programas.
A CM era à boa maneira antiga uma oportunidade para comparação de notas entre os vários Chefes e Assistentes. Uma vez que a noção de espaço não existia no sistema, havia um único problema com que se defrontavam na altura das CMs - a enorme quantidade de informação que circulava clandestinamente e que levantaria suspeitas se fosse detectada. Um Chefe podia estar a respirar num PacMaster na China e outro num PacMaster no Canadá e mesmo assim conseguiam comunicar, obviamente, portanto não tinha que haver uma concentração de ARLIs num determinado router, o que seria fatalmente detectado. O problema estava no volume de transmissão de dados que se estabelecia entre esses dois locais e que no decorrer de uma CM era anormalmente extenso porque os participantes tinham, não só de trocar resultados de pesquisas exaustivas, como também de trocar impressões e ajustar estratégias até à próxima CM. E não valia a pena pensar numa forma alternativa e desconcentrada de trocar informação ao longo do tempo - quando um ARLI recebesse essa informação, podia já ter perdido tempo valioso a tratar dum problema inexistente. E tempo era o ar dos ARLIs. Aliás, tempo passara também a ser o oxigénio da espécie humana, por assim dizer.
"O tempo é o nosso pior inimigo."
C. pensou numa lágrima, mas rapidamente desenhou um pé que espezinhou a lágrima virtual. Depois pensou num smiley triste. Esquecera-se que só o papel vence a água, como naquele velho jogo infantil. O papel absorve a água e embrulha a pedra. A pedra parte a tesoura. A tesoura corta o papel. E no seu campo de visão surgiu um bocado de papel amachucado que fez finalmente desaparecer a lágrima do seu pensamento.
Ele era um Chefe. O Chefe da Europa. Escolhera a Europa por causa da Irlanda. E a Irlanda por causa ... porque era um sentimentalóide de merda. O facto de ser Chefe da Europa significava apenas que tinha de passar mais tempo do que os outros a recolher informação dos PacMasters instalados na Europa. Mas um ARLI nunca ficava muito tempo no mesmo lugar. Se ficasse, ia parar ao Cemitério Virtual. Ele só conhecia um ARLI que conseguira escapar ao sistema em circunstâncias excepcionais - Le0pard, aka Jorge, o Chefe dos Chefes, nunca eleito mas desde sempre aceite como tal implicitamente por todos os outros.

domingo, 20 de Dezembro de 2009

PALAVRAS EMPRESTADAS 60


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"Não há factos, há apenas interpretações."
Nietzsche
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"E pára de ler o meu pensamento!"
Chan (mulher de Charlie Parker) para Charlie Parker (antes de casarem)
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"She'll breed. You'll die."
Ripley (Sigourney Weaver) em Alien - Resurrection
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"Todos morrem. Hoje ou daqui a 50 anos, que importa?"
Aquiles para Briseida, que o tentava matar
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"Enquanto se vinha na boca dela alguns momentos mais tarde, com um longo e pulsante fluxo de sémen, ele teve uma visão, nesse preciso instante, que continuou a irradiar dentro de si: que cada ejaculação contém alguns biliões de células de esperma - ou mais ou menos o mesmo número de pessoas que existem no mundo - o que significa que, em si próprio, cada homem contém o potencial de um mundo inteiro. E o que aconteceria, se fosse possível acontecer, seria o espectro total de possibilidades: uma descendência de idiotas e génios, de belos e deformados, de santos, catatónicos, ladrões, correctores e artistas. Cada homem é, deste modo, o mundo inteiro, carregando nos seus genes uma memória de toda a humanidade. Ou, como Leibniz disse: 'Cada substância viva é um perpétuo espelho vivo do universo.' Porque o que acontece é que somos da mesma substância que surgiu com a primeira explosão da primeira faísca no infinito vazio do espaço. Ou isto foi o que ele disse a si próprio, naquele momento, enquanto o seu pénis explodia dentro da boca da mulher nua, cujo nome ele esquecera. Pensou: a irreduzível unidade."
Paul Auster - A Invenção da Solidão

sábado, 19 de Dezembro de 2009

Macro Secrets 21

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One day at a time ...

sexta-feira, 18 de Dezembro de 2009

MAGIC MOMENTS 91

Dazzling Duets - Duet # 32 - Lou & Luciano
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quinta-feira, 17 de Dezembro de 2009

EM BUSCA DE PALAVRAS 92

Lobos
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"O lobo é uma das espécies selvagens mais perfeitas e evoluídas que até agora apareceram na Terra." - Grupo Lobo
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A maioria dos predadores vive com uma hierarquia muito rígida e os lobos não são excepção. O Alfa, ou líder da alcateia, determina o comportamento de todos os outros membros. Na altura da refeição, é ele quem come primeiro e são para ele os órgãos mais nutritivos da presa - fígado, coração, rins e pulmões.
O "segurança" desempenha um papel de travão entre o Alfa e os outros membros, afastando-os até o líder terminar a sua parte da refeição.
O "apaziguador" serve de muralha, colocando o seu corpo entre 2 rivais enquanto comem, para aliviar a tensão.
Uma alcateia constrói-se em torno de um casal e das suas crias, que estão imediatamente a seguir na hierarquia da alcateia, podendo o número de membros variar de 4 até mesmo 30, mas sendo habitualmente de cerca de 8.
O córtex cerebral complexo dos lobos está assim concebido para que possam dispender tempo suficiente na educação das suas crias. Estas são cuidadas por todos os elementos da alcateia, não apenas os progenitores, e são alimentadas através de regurgitação - as crias lambem o focinho do adulto para estimularem a regurgitação. No entanto, e apesar deste desvelo, quando atingem 1 ano de vida podem ser obrigadas a abandonar a alcateia sozinhas, quando já não houver alimento para todos, sendo abertamente expulsas pelos outros membros.
As manhãs são dedicadas à patrulha do território. O macho Alfa leva os outros membros para examinarem a fronteira da área ocupada pela alcateia. Esta é delimitada remexendo-se o solo e deixando um cheiro muito intenso na zona limite.
Durante as caçadas, em grupo, existe um chefe da caçada que normalmente é o Alfa, porque mais velho, mais experiente e mais sábio, ou este pode permitir aos elementos mais jovens e mais agressivos que tomem conta das fases iniciais, avançando apenas no final. Os lobos preferem perseguir animais em fuga a um animal encurralado e defensivo, porque este último caso pode ser-lhes fatal. As manadas de presas são, por isso, colocadas em movimento para que os lobos possam observar os seus elementos individualmente e avaliar as presas mais fracas ou doentes. Cada lobo segue o seu alvo, sempre alerta para qualquer companheiro que tenha uma presa mais fácil.
Os sentidos de um lobo são poderosíssimos, sobretudo o olfacto e a audição. Um lobo é capaz de cheirar centenas de milhares de odores químicos a 2 quilómetros de distância e consegue detectar doenças nas suas presas. Por sua vez, as orelhas pontiagudas assim desenhadas para melhor receberem os sons, são capazes de detectar ruídos fracos até 16 quilómetros de distância. Em corrida, um lobo consegue atingir os 45 km/hora.
Os uivos característicos servem para comunicar entre si até distâncias de 16 quilómetros, existindo uma gama variadíssima de diferentes tipos de sons que ainda estão longe de ter sido totalmente estudados: existem uivos defensivos (para avisar as outras alcateias que se devem afastar), de resposta (a alcateia rival responde para garantir que não há disputas territoriais por causa da caça), chamativos (para atrair outros membros da alcateia), sinalizadores (para informar os outros da sua localização).