segunda-feira, 22 de junho de 2015
sexta-feira, 19 de junho de 2015
terça-feira, 2 de dezembro de 2014
sábado, 29 de novembro de 2014
Lisbon - Day 15300 and something ...
Existe um canto lisboeta que é meu e onde não há gente parva. O único, onde me sinto em casa. Começa no Marquês de Pombal, vai pela Avenida da Liberdade fora e desagua na Baixa-Chiado, ramificando-se para a direita, esquerda e novamente para baixo, até ao Largo do Camões, Praça do Comércio e Rua da Madalena.
Esse era o caminho da aventura, quando eu era pequena. Percorri quilómetros com a minha mãe, vezes e vezes sem conta, por essas paragens. Era o caminho da liberdade, da alegria e da descoberta. Era o caminho que fazíamos quando eu não tinha escola e íamos às compras. Buscar roupa, pouca nesses dias. Buscar tecidos, botões, rendas, feiche-eclairs para a avó fazer as suas costuras. Levar sapatos ao sapateiro. Procurar relojoeiros antigos. Descobrir panelas na Pólux. Levar uma boneca ao Hospital de Brinquedos da Praça da Figueira. Procurar lãs coloridas para fazer camisolas. Ir aos Cinemas Tivoli, São Jorge e Condes. Ao oculista da Travessa de Santo Antão. Ao Coliseu assistir ao circo de Natal da Fidelidade. Mais tarde o Centro Comercial Guérin, o primeiro centro comercial da Baixa depois das Galerias do Chiado. Os Grandes Armazéns do Chiado e a R. Garret, cara e inacessível para nós na altura, mas onde a minha mãe gostava de passear e recordar onde ía com a Abuelita quando a mãe tinha dinheiro suficiente para frequentar as lojas exclusivas dessa rua. Nos Grandes Armazéns e quando o meu irmão ia connosco, envergonhava-me porque tinha um tique que era andar atrás de nós a pousar um joelho no chão. A minha mãe ria-se, eu zangava-me de vergonha. As floristas do Rossio. E tantas, tantas, tantas outras lojas e coisas que agora não me recordo.
Ontem andei por lá à procura de lojas de decoração e móveis e lembrei-me que é essa a minha Lisboa. Aí as pessoas não são parvas. São simpáticas, características e educadas. São engraçadas e agradáveis. As simples e as mais sofisticadas. Não as empregadas parvas novas das lojas novas. Essas não são dali, deviam ser expulsas daquela zona. Não pertencem ali, não lhe são nada, não percebem nada. Não são como os dois senhores que estavam na loja de candeeiros e que me fizeram rir e chorar de alegria e nostalgia. Perguntei-lhes o preço de um candeeiro e os senhores, um mais velho e outro gordo e mais novo, provavelmente o neto, reviraram a loja toda à procura da tabela de preços, enquanto murmuravam "Mas onde é que ela pôs isto?" Ri-me com eles, não deles. Ri-me e depois tive vontade de chorar, porque me fizeram lembrar o relojoeiro Sr. Martins, o sapateiro, a Dona Lurdes do talho, na R. de Santa Marta, onde íamos quase todos os dias às compras. O senhor deu-me um cartão da loja e pediu-me muitas desculpas e olhou para mim como os senhores antigos olham para senhoras jeitosas, com educação e uma pontinha de sedução enternecedora.
Tinha-me esquecido que é essa a minha Lisboa. Que nessa Lisboa eu sempre encontrei e ainda encontro ternura.
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sexta-feira, 28 de novembro de 2014
Lisbon - Day 15300 and something ...
Algumas considerações:
* Primeiro foram os vistos dourados, depois o Sócrates e agora o BES - é impressão minha ou anda alguém a tentar acabar com Portugal?
* A Teresa Guilherme é maquiavélica. E por isso mesmo, e apesar de já se justificar um Big Brother para adultos, ela não quer porque sabe que com os adultos seria impossível enrolá-los à volta do seu mindinho como faz tão bem com os anormais que escolhe actualmente. Palavrões? Bahhhh isso já sabe a pouco. Pontapés? Coisa pouca .... O que está a dar são cuspidelas, insultos escatológicos e masturbações em grupo. Sim, porque sexo ao vivo também já é completamente démodé. A única coisa que falta é sexo durante as cadeiras quentes com a Voz a perguntar quantos pontos cada concorrente dá aos participantes. Porque é que ninguém fala disto? Se os comentadores acham que estariam a rebaixar-se ao falar disto, pensem duas vezes. Existe um pacto de silêncio em volta de uma das mulheres mais poderosas do país - ela manipula não sei quantos milhões de pessoas todos os dias antes, depois e depois do Telejornal e ainda em prime-time. E ninguém comenta isto? Acho que deviam ...
* E já agora, porque é que não há nenhum comentador que tenha a coragem de chamar os bois pelos nomes e dizer aquilo que toda a gente sabe - o Mário Soares está ché ché e não deveria aparecer na televisão a dizer bandalhadas. A velhice é uma tristeza e também uma realidade.
* E já que estou nesta onda, tudo o que se ouve e vê na televisão é manipulado, o que significa que vivemos literalmente num mundo virtual. A realidade existe ... algures ... por aí ... mas não sei onde ela está e não tenho nem tempo nem pachorra para a descobrir. Mas ao menos eu tenho consciência disso. Muitos há que não têm e isso também é triste.
* O Herman José trata a Vanessa mal como o caraças, mas aceitou trabalhar com ela. Isto é um paradoxo, ou não. Há gente que tudo faz para brilhar, mesmo que seja à custa dos outros. E gente há que permite que isso aconteça em directo, para todo o país assistir. Os circos já não são de vaidades, como Tom Wolfe escreveu. Isso era na década de 80. Hoje em dia os circos são de humilhações públicas e voluntárias. Voltámos aos gladiadores romanos, mas sem dignidade. Ao menos nesse tempo erra palavra ainda existia.
* Os vendedores deste país não trabalham. Não sei o que fazem, mas trabalhar é que não é. Devem conversar muito. Estive mais de um ano à procura de casa. Encontrei-me com dezenas de vendedores. Dois apareceram a horas e alguns ficavam ofendidos quando comecei a dizer que só esperava mais 5 minutos por eles .... (olhos abertos de estupefacção). Quando peço orçamentos, nunca me respondem antes de uma semana. Uma semana! Nasci no país errado. Uma semana é muito. Atrasos de 5 minutos também. Para os lisboetas não. Nunca compreendi isto. Palavra de honra que não. Mas sei que sou bicho raro. Deve ser da educação inglesa ...
* Passei a minha vida inteira à procura de ternura. Tenho a certeza que não a vou encontrar em Lisboa.
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quarta-feira, 19 de novembro de 2014
Sonho #3
Blue Lagoon
Como com todos os sonhos, é sempre melhor e pior do que se esperava.
A parte da lagoa mais bonita estava fechada, suponho que porque havia menos gente.
A Islândia inteira cheira a enxofre e a Lagoa Azul muito em particular. Mas é tal e qual como a coca-cola, primeiro estranha-se e torce-se o nariz, depois entranha-se e habituamo-nos.
Como, perguntarão? O cheiro a enxofre é provavelmente o pior cheiro do mundo, e talvez por isso e também por vir de debaixo da terra, seja associado ao demónio. Apelidei a Islândia de Bom Inferno, porque cheira a enxofre por todo o lado, mas as suas gentes são pacíficas e agradáveis e o país é um Paraíso gelado escondido nos mares do norte do Atlântico. Se tivesse deslizado no mapa-mundo um pouco mais para baixo, seria os Açôres, e vice-versa, se os Açôres tivessem navegado mais para norte, seriam a Islândia.
Antigamente, dizem-me, a Islândia estava, tal e qual os Açôres, cheia de árvores. Depois os vikings começaram a desbastá-las todas e a cortá-las para construírem os seus barcos guerreiros que atravessariam os mares até ao continente americano para conquistarem e pilharem outros povos. A Islândia acabou por ficar despida de verde. Dizem-me também que está em curso um plano de reflorestação em determinadas zonas e que isso irá alterar por completo a paisagem lunar islandesa. Quem a visite daqui a 10 anos, tempo de as árvores crescerem, conhecerá uma outra Islândia.
Eu conheci uma Islândia plena de constrastes, mas sempre nua. Ou branca de neve e gelo, ou negra de lava solidificada, ou multi-acastanhada de rochas de diversas naturezas. O céu, esse, é sempre o mesmo e muito parecido com o nosso - azul pontilhado por grandes nuvens brancas.
Talvez regresse em dez anos, para ver duas coisas que não consegui - as baleias e a aurora boreal. A caça às baleias deu apenas em 3 golfinhos tímidos e fugazes e a aurora boreal fez-se difícil por causa do tempo neblinado.
Cumpri, isso sim, o meu sonho, nadar nas quentes águas da Lagoa Azul, ao final da tarde. São mesmo quentes. Cerca de 38ºC. É fantástico. Cá fora estão 10º e lá dentro um forno. E são mesmo azuis. Um azul indigo forte e vaporoso. Vale a pena.
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terça-feira, 28 de outubro de 2014
quarta-feira, 22 de outubro de 2014
Lisbon - Day 15300 and something ...
De volta a Lisboa. Saio para a rua e embato num portão fechado porque o Metro fez greve e numa bicha (não é fila, é bicha mesmo, à antiga), na barraca de venda dos passes.
Começo bem a rentrée ...
Depois penso, será que ainda me sinto tão lisboeta quanto há uns meses atrás?
Acho que não ... Ando mais lá fora do que costumava e começo a sentir-me cada vez mais uma cidadã do mundo, em vez de uma alfacinha. Digamos que sou cada vez mais uma salada mista - americana, inglesa, japonesa, islandesa, and so on, and so on, I hope ...
Tenho, sempre tive, voltei a ter uma relação de amor-ódio com Lisboa.
Quando era mais nova adorava partir de Lisboa e odiava regressar a Lisboa. Isto quando morava com os meus pais.
Depois passei a gostar de voltar, quando passei a viver sozinha.
Agora ... acho que me começa a ser um bocado indiferente, porque sei que brevemente partirei de novo e por isso Lisboa passou a ser uma espécie de minitrampolim para outras paragens. Quaisquer, o que interessa é partir e não ficar cá muito tempo. As próximas serão Verona e um regresso a Veneza para o Carnaval, Moscovo e São Petersburgo e Escócia para assistir ao Campeonato do Mundo de Ginástica. Will the Flying Dutchman be there? I really hope so ...
Anyway ... where was I?
Ah sim! Love-hate Lisbon.
É a minha cidade. Ponto. Gosto dela? I guess so ... mas só porque é a minha cidade e de qualquer das formas nunca a senti muito como minha.
As pessoas são parvas, as coisas não funcionam, as ruas estão cheias de buracos, enfim, eu podia continuar por aí fora mas a principal razão são mesmo as pessoas - parvas como o c....
Não gosto de portugueses, mas tenho de viver com eles porque, afinal, são os únicos que falam a mesma língua que eu. Gostaria de viver noutro sítio? Talvez em Itália. Good pasta, good weather, nice people and la dolce vita. Os italianos sabem viver, mas ... têm mais burocracia do que nós e o Mostro di Firenze. Mas eu gosto de serial killers, por isso ... e o meu serial killer preferido escolheu Florença. Tem bom gosto. Itália é o país que melhor conheço - a animada Roma, a bela Florença, a encantada Veneza. S. Paul de Vence em França é outro sítio onde poderia viver, mas, hélas, está cheia de franceses, que são porcos, ordinários e estúpidos.
Nova Iorque não é uma opção. Por mais que goste da cidade, o problema são os americanos e ... os americanos, apesar de que os nova iorquinos não são americanos, tenho cá esta teoria. São aliens.
Londres nem pensar, apesar de lá ter família perto. Gosto de chuva, mas não tanta.
Resumindo, o regresso a Lisboa é sempre depressivo, especialmente depois de ter estado no Paraíso.
Mas também não aguentava viver no Paraíso 365 dias por ano. Ou 365 anos por dia.
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domingo, 19 de outubro de 2014
Paradise - Day 15
Juventude
Foi Oscar Wilde quem disse que a juventude é o nosso maior tesouro. Mais do que a beleza, tão cara ao autor irlandês, na sua opinião, a juventude era a melhor coisa que podemos ter.
A juventude é, acrescento, também o maior sadismo da vida. Enquanto a temos não fazemos ideia do que temos, não fazemos ideia de que somos deuses, belos, perfeitos, saudáveis, plenos de energia, emoção, garra e sonhos. Pelo contrário, achamo-nos imperfeitos, queremos crescer à viva força, para que nos seja permitido fazer tudo aquilo que queremos.
Não sabemos, não imaginamos, que já temos tudo, que temos o essencial, que temos a única coisa que interessa possuír - juventude. Mais até do que a juventude física, é a juventude mental. A capacidade de acreditar, de sonhar, de julgar o mundo pleno de eternidades, de nos apaixonarmos vezes sem conta pela mesma coisa ou por coisas totalmente opostas.
Somos deuses, sem o sabermos. Porque podemos tudo, sem o suspeitarmos. Porque temos tudo, sem adivinharmos. E só quando somos jovens é que somos deuses. Depois tornamo-nos simples mortais, caímos aos trambolhões do céu, embatemos no chão vezes e vezes sem conta e só então, só então percebemos que fomos deuses. Sem maleitas, sem medos, sem sofrimentos, sem nostalgias, sem saudades.
Custa muito. Às vezes não queremos ver a verdade que paira à nossa frente há demasiado tempo. E continuamos a puxar o cavalo da juventude, continuamos a pedir-lhe que galope como o vento e que nos transporte como a força das tempestades e o brilho dos arco-íris mais fantásticos. Continuamos a puxá-lo, por vezes durante muito tempo, até que subitamente algo nos faz perceber que temos andado iludidos, que a juventude já passou por nós e que não regressa mais, que o cavalo está cansado e tem de abrandar.
Finalmente, olhamos para trás através do espelho que nos colocam à frente e percebemos que a nossa juventude não nos acompanhou, ficou cristalizada num tempo e num espaço que nunca compreendemos totalmente quando e enquanto lá estivemos.
O aparecimento do delfim na praia foi o meu espelho. Deixou-me nostálgica, enquanto abandonava a praia nesse dia e só então percebi o que se passara. O delfim confrontou-me com o meu passado, levou-me de rompante dois anos atrás, ao momento exacto em que perdi a minha juventude, porque a primeira vez que o delfim apareceu foi precisamente há dois anos atrás, um mês depois de a minha mãe ter morrido.
Quando morreu, percebi, a minha mãe levou a minha juventude com ela. Só agora me apercebi disso. O meu cavalo ficou lá atrás agarrado às sombras das duas projectadas na areia do Paraíso. Uma maior, a minha, outra mais pequena, a dela. Hoje é só a minha que se projecta à minha frente na hora do ocaso, enquanto caminho à beira-mar. Percebo finalmente que não sou jovem, porque agora só eu caminho pela vida, sem costas, sem as asas do anjo que me protegeu de todos os monstros da vida.
A minha juventude ficou aqui, no Paraíso, para sempre. Porque foi aqui que sempre fui mais feliz do que em todos os outros locais ou todas as outras alturas da minha vida. É aqui que a posso vir contemplar, sempre que quiser, mas não resgatar. E enquanto o Paraíso existir a minha juventude também existirá. Eternamente.
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Paradise - Day 14
Old Friends
Apareceram todos este ano, como
se tivessem combinado alguma coisa especial.
O senhor de barba branca e
cadeira branca, que se senta a tomar sol sem ser deselegante com as senhoras
que passam.
O amigo alemão, com os seus
livros e os seus cigarros e as suas banhas tostadas de sol.
A senhora que não se despe, e que
se senta sempre num promontório criado pelas marés vivas, a ler a tarde toda,
sem quase tirar os olhos do seu livro.
A rapariga que já não é rapariga,
mas que ainda se acha uma rapariga, com a sua sombrinha e a sua toalha, a sua
música, as suas revistas e livros, os seus blocos de escrita e os seus banhos
magníficos.
E o delfim ... deus do céu ... o
delfim que fez a sua primeira e única aparição há precisamente dois anos e
deixou de ser visto. Que apareceu subitamente na praia, com o mesmo andar
poético, uma t-shirt laranja, os mesmos óculos escuros espelhados, o mesmo boné
e a mesma linguagem corporal, sem saber o que fazer às pernas e aos braços
enquanto olha para ela subrrepticiamente de quando em vez, alternando com
miradas para o lado oposto, para disfarçar.
O delfim voltou a aparecer ... e
deixou-lhe uma nostalgia magoada no olhar quando abandonou a praia nesse dia.
Uma coisa que ela não consegue explicar nem encontrar explicação nas revistas ou
nos livros ou nos escritos dos seus blocos.
Old friends ...
Lonely friends ...
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sexta-feira, 17 de outubro de 2014
Paradise - Day 13
A Gaivota e o Homem
Há uma gaivota sem uma pata. É um macho branco e
cinzento. À primeira vista parece uma gaivota igual às outras, salvo quando um
olhar mais atento percebe uma leve periclitância que conduz o olhar para as
patas e logo se percebe que afinal é apenas uma pata, que o seu par não está
afinal escondido entre as penas, pois que as gaivotas não partilham esse hábito
com os flamingos, por exemplo.
Há um homem, deitado lá para trás no areal, jovem e atraente, mas que permanece escondido do mundo, metido no seu próprio mundo, sem olhar as vistas, sem galar as mulheres. Quando se levanta, o homem fá-lo com a ajuda de um par de canadianas e revela a ausência de uma perna.
A gaivota sem pata é uma das mais antigas e afoitas. Levanta vôo tal e qual as suas companheiras inteiras, pousa quase tão equilibradamente como elas e é a primeira e das poucas a aventurar-se mar fora para pousar no colo das ondas grandes. Adivinha-se que se sente talvez melhor no caldo lânguido, embalada suavemente, poupando à única pata que lhe resta todo o peso do seu corpo leve feito de penas.
O homem atravessa o areal saltitando com a ajuda das suas muletas e senta-se com poucos percalços à beira do mar. Adivinha-se que já fez aquilo muitas vezes, que já é um hábito. Senta-se e olha o mar e pressente-se, mesmo ao longe, a vontade nostálgica de correr para as ondas e mergulhar nelas como em tempos já fez. Essa nostalgia é palpável.
A gaivota sem uma pata continua a poder voar. A pata é um mero acessório na sua anatomia primordialmente alar, concebida para o ar. A gaivota voa e não precisa de imaginação para o fazer.
O homem sem uma perna continua a poder andar, mal. A sua mente continua a poder voar sobre as ondas e a sua imaginação carrega o seu corpo na direcção dos sonhos que já não pode realizar.
A gaivota não sabe que existe o homem sem uma perna.
O homem não reparou na gaivota sem uma pata.
Os dois estão unidos, sem o saberem, sem nunca o saberem.
Ficarão unidos aqui, nestas palavras entrelaçadas por mim, sem nunca o imaginarem.
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quinta-feira, 16 de outubro de 2014
Paradise - Day 12
Gaivotas
Descobri que é possível dar de
comer às gaivotas em pleno ar. Algumas são exímias a apanhar bocadinhos de pão
desta forma, normalmente machos mais velhos e experientes.
Que há fêmeas tão ou mais
agressivas do que os machos alfa, que gritam estridentemente para afuguentar
até outros machos interpostos entre si e a comida. Provavelmente são fêmeas
mais velhas, companheiras preferidas dos machos alfa.
Que há gaivotas que conseguem
funcionar perfeitamente com uma perna apenas, pousando no chão tão
graciosamente como se o par estivesse intacto.
Que o troféu supremo é um peixe
inteiro e a sua caçadora é perseguida furiosamente pelo resto do bando, que se
digladia em pleno ar pela conquista do acepipe, roubando-se consecutiva e
descaradamente o peixe. Este é passado de bico em bico, cai na areia, é apanhado
em pleno ar, até que finalmente consegue ser definitivamente conquistado por um
membro do grupo.
Que há gaivotas tímidas,
medrosas, afoitas, corajosas, chatas, persistentes, teimosas, mázinhas,
egoístas ou sábias, tal e qual como os seres humanos.
E depois cismei. Terão as
gaivotas memória? Capaz de recordar alguém de ano para ano. Reconhecerão elas
cada pescador, como cada pescador reconhece cada uma delas? Ou pelo contrário,
de cada vez que vêem alguém é como se fosse a primeira vez, tal e qual como quando
se despedem do sol todos os dias, fitando-o serena e intensamente, pousadas em
grupo na areia, à hora do ocaso?
A eternidade é isso. Memória de
quem fica por quem parte.
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domingo, 12 de outubro de 2014
Paradise - Day 11
O dia começa bem. Uma tempestade
de proporções verdadeiramente bíblicas abate-se sobre o Paraíso entre as três e
as quatro da madrugada. Raios colossaís iluminam os céus e até os pescadores
não se aventuraram desta vez para o mar. As ondas ouvem-se, furiosas,
adivinham-se, monstruosas. Os trovões abalam as fundações do Paraíso, mas de
manhã um sol radioso acorda-me às 8 da manhã. Duas horas mais tarde salto da
cama e vou para a praia, estou há três, TRÊS dias sem molhar os pés, não pode
ser! Levo calças, por precaução, mas toalha e leituras. Quase que me aventurava
a partir dos tornozelos para cima para dentro do mar, mas ... a coragem
falta-me e ainda bem. Vou passear e abate-se novo dilúvio sobre mim. Corro para
casa completamente encharcada, mas mais feliz por ter tirado a barriga de
misérias, um bocadinho.
Olho o mar da varanda e, finalmente, percebo-o e
percebo-me. Porque gosto do mar? Nunca me tinha perguntado. É, subitamente,
óbvio. Em deambulações mentais sobre o desejo de ter uma casa permanente na
cidade que estivesse perto do mar, e recordando a absurdidade de alguém a quem
ouvi dizer que não suportava estar ao pé do mar (não me lembro quem, mas era
alguém famoso, e nunca tinha ouvido ninguém dizer que não gostava de estar
perto do mar), conjecturo que é impossível não se gostar do mar porque o mar
nunca é o mesmo, é sempre diferente, sempre novo, sempre outro, todos os dias.
E então percebo-o e, por consequência, percebo-me mais um pouco. Gosto do mar
precisamente porque o mar é inconstante na sua constância. É sempre o mar, mas
nunca é o mesmo mar. A água é sempre a mesma, mas nunca tem a mesma
configuração. É um animal medonho e belo, poderoso e avassalador, com ondas
sempre diferentes, açoitado por ventos provenientes de direcções sempre
diferentes, com matizes sempre diferentes, com espumas sempre diferentes, com
ruídos sempre diferentes, com abóbadas sempre diferentes. E eu, que levei anos
preciosos da minha rica vida para descobrir que uma das minhas características
essenciais é precisar de mudança constante, percebo agora porque gosto do mar.
Sou estável, mas inconstante, como o mar. Sou constante na minha inconstância.
Quem não perceber isto em mim, nunca perceberá nada de mim.
Gosto do mar.
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Paradise - Day 10
Segundo dia de chuva. Nova romaria a lojas, desta
vez por Tavira. Venho de lá com dois blocos novinhos em folha: um rectangular
com o mapa-mundo na capa, e um elástico com uma pedrinha transparente branca,
imitação de diamante, à antiga e outro quadrado com capa de seda e o desenho de
uma árvore com frutos coloridos; um íman osga verde com brilhantes para o
frigorífico; outro íman de uma casinha da vila com grades e um vaso saídos para
fora, em arame; um cavalo marinho de metal às cores para pendurar na parede;
mais um penduricalho para a colecção, desta vez com borboletas metalizadas em tons
de azul; e uma boneca sensacional feita de madeira, arame, esferovite e penas
que me faz cismar como há pessoas que dos mais simples materiais fazem
verdadeiras obras de arte. Eu também consigo fazer isto!, pensei imediatamente.
A questão é que depois da aventura comercial completamente falhada, não me
apetece ter dores de cabeça com lojas de artesanato, mesmo que desta vez fosse
com algo que eu gosto realmente de fazer. Talvez quando tenha 60 anos, se lá
chegar ...
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quinta-feira, 9 de outubro de 2014
Paradise - Day 9
De vez em quando, apetece que chova no Paraíso, para
descansarmos da praia. Assim foi hoje. Caiu um dilúvio matinal que não deixava
sequer avistar o mar do terraço. Nesses dias aproveito para dormir até mais
tarde, tomar o pequeno-almoço na cama, varrer o chão, gastar dinheiro nas
minhas duas lojas preferidas – a de roupa e a de sapatos – procurar coisas
inusitadas como cachecóis do clube extinto há cinco anos, tomar chá na varanda
e escrever e ler pela tarde fora.
Dei-me conta de um pormenor deveras interessante – é curioso
que tenha descoberto finalmente a marca de roupa diferente que adoro e a marca
de sapatos diferente que adoro precisamente no Paraíso. Andei a vida toda à
procura de roupa e sapatos diferentes e giros e estavam aqui, precisamente no
Paraíso.
Há coisas que parecem mesmo destinadas.
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segunda-feira, 6 de outubro de 2014
Paradise - Day 8
O Pescador
O pescador não é um verdadeiro pescador, mas um pescador de
fim-de-semana. Tem cara de índio das pradarias, da tribo dos Sioux, severo e
medonho, apesar de jovem. É moreno como chocolate, com longos e lisos cabelos
negros apanhados num rabo-de-cavalo e anda sempre acompanhado de duas longas
canas.
Senta-se à beira-mar a observar os fios das suas canas e
ocasionalmente repara nalguma sereia que passa. Só quando a sereia é bem feita
é que o pescador desvia o olhar dos seus fios para seguir o corpo bamboleante
pelo areal fora.
É paciente e persistente, capaz de esperar seis horas que o peixe morda
o anzol. Será assim também com as sereias?
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domingo, 5 de outubro de 2014
Paradise - Day 7
Em redor do Paraíso há outros paraísos quiçá mais bucólicos
e pacíficos. Não têm estranhos, nem bimbos, nem chungas, nem pederastas, nem
mirones ou naturistas que aparecem do nada com as partes pudibundas a
balançarem. Há bares com nomes como O Pescador, Casa do Sol e Sem Espinhas. É
tudo muito politicamente correcto e ascético.
Mas também não há pescadores mal dispostos, conquilheiros
atrevidos ou gaivotas imperiais, nem todas as outras coisas que fazem do
Paraíso um verdadeiro Paraíso.
Continuo a preferir o meu.
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sábado, 4 de outubro de 2014
Paradise - Day 6
A minha hora preferida na praia é a tardinha. Quando o sol
se começa a pôr e fica mais morno e confortável do que quente e agressivo.
Quando o mar está cálido e morno. Quando se sai da água e nos embrulhamos em
toalhas. Quando há menos gente e mais boa gente. Quando as gaivotas pousam
finalmente no areal em formação e se vêm despedir do astro-rei. Acho que a cena
dos anjos na praia a olharem o mar no filme “Cidade de Anjos” foi inspirada
neste hábito das gaivotas.
Quando o Paraíso fica ainda mais deslumbrante do que já é.
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sexta-feira, 3 de outubro de 2014
Paradise - Day 5
O Amigo Alemão
O alemão é meu amigo há uns três ou quatro anos, sem o
saber. Neste caso poderia aproveitar o ditado irlandês e alterá-lo para “Um
desconhecido pode ser um amigo sem o suspeitar.”
O amigo alemão é relativamente alto e gordo, com aquela
gordura do tipo pedófila, branca e banhosa, que parece arrastar-se em seu redor
como a gosma das lesmas quando se deslocam. É ruivo, tem o cabelo pelos ombros
e barba rala, nem carne nem peixe.
Aparece sozinho, sem sombrinha, acompanhado de cigarros e
livros. Gosta de jovens adónis e não liga pevas a mulheres. É por essa razão
que me sinto seguríssima ao seu lado e a praia ganha sempre contornos de campo
de concentração policiado por tropas nazis quando ele aparece. O amigo alemão
não levantaria as banhas para me proteger de nenhum pederasta, e provavelmente
até aplaudiria no seu íntimo se algum pederasta me apoquentasse o espírito, mas
nenhum pederasta se aproxima enquanto ele estiver pelas redondezas.
No primeiro ano que o conhecemos o amigo alemão foi
protagonista de um episódio trágico-cómico que deveria tê-lo afastado
definitivamente do Paraíso, mas não afastou. O que só prova que o alemão é
inteligente. Havia um velho pescador. No Paraíso há sempre um velho pescador em
qualquer história digna de nota. Havia um velho pescador que decidiu postar-se
no meio da praia, quando a maré estava vaza, e deixar uma engenhoca caseira
enterrada na areia para apanhar peixe. Compreendam. O velho pescador já não vai
para a faina no alto mar porque as suas pernas já não o aguentam, mas ainda tem
a nostalgia da pesca e por isso congeminou um absurdo rotundo que poderia ter
sido responsável pela morte de um turista incauto. A maré foi subindo e tapando
a engenhoca presa por um fio à mão do velho pescador. Ele postou-se no meio do
areal a servir de polícia sinaleiro, mas como não tinha a imponência de SS do
amigo alemão, ninguém lhe ligava muito e só por pura sorte é que não houve
nenhum pé enfiado no anzol escondido no fundo do mar.
Foi então que o amigo alemão decidiu ir tomar banho e como
estivera a tarde toda deitado de barriga para baixo a ler o seu livro e a fumar
cigarros, não suspeitava sequer o que o esperava debaixo das ondas. O amigo
alemão entrou lampeiro no mar e foi nadar precisamente para o sítio onde o
velho pescador tinha colocado a sua mina pesqueira. Saltou a tampa ao velho
pescador. Começou a gesticular e a berrar para o amigo alemão, que saísse dali
imediatamente. Não ocorreu ao velho pescador (nunca ocorre e nem poderia,
lembro que eles são os reis do areal e por isso não podem perder tempo com
essas mesquinhices) que a culpa não era do amigo alemão, mas sua. O velho
pescador parecia um nazi a enchotar judeus para dentro dum forno. O amigo
alemão lá percebeu finalmente, sobre o ruído das ondas, que aquela gritaria
toda era para ele e saiu do mar. O velho pescador estava ensandecido, mas a sua
ensandecice era lusa, o que significava que o amigo alemão não percebeu
patavina do que o outro lhe berrava. Não sei se até hoje o amigo alemão
percebeu realmente o que se passara. Deve ter chegado à Alemanha e contado o
episódio desta maneira – tenham cuidado em Portugal, às vezes há velhos doidos
que nos querem arrancar do mar por razão nenhuma. Ou talvez tenha pensado que o
velho pescador julgasse que ele não sabia nadar ou que corria perigo de vida.
Não sabemos, nunca saberemos.
A verdade é que pelos vistos este episódio não o demoveu de
regressar ao Paraíso. E cá está ele de novo, vestido com as cores da sua
bandeira. T-shirt preta, calções encarnados e toalha às riscas amarelas e
brancas.
Etiquetas:
PARAÍSO
Local:
Monte Gordo, Portugal
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