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Ter gás é, portanto, estar mais vivo do que é habitual ou estar vivo de um modo diferente do que é habitual na maioria dos representantes desta nossa espécie.

Capítulo 8. UM DESSES LONGOS E MISTERIOSOS CONCILIÁBULOS
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Pensou e repensou no que ele lhe dissera, sem perceber se fora uma advertência ou uma espécie de ameaça. Aquilo fora dito no seu habitual tom paternalista e sarcástico e Emily nunca conseguia perceber, a não ser a posteriori, se ele estava a falar a sério ou se lançava aquelas frases à toa, só para a picar.
À hora do almoço, esperou que todos saíssem e regressou à sua pesquisa no computador da biblioteca, desta vez para procurar saber mais informações sobre Charlotte Brontë. Claro que acabou por se embrenhar em todas as irmãs Brontë e quando deu por si, tinha de novo o professor inclinado sobre o seu ombro, hoje ainda mais próximo do seu rosto do que no dia anterior.
Ele sorria-lhe, um sorriso que lhe erguia as maçãs do rosto até lá acima, vincando-lhe os papos dos olhos em socalcos ainda mais profundos e franzindo-lhe o nariz abatatado. Reparou também que cheirava um pouco a álcool e que estava bastante comunicativo, enquanto se dirigiam para um dos cafés da universidade, em frente da biblioteca, do outro lado da praça rectangular. Contornaram o quadrado verde de relva bem aparada e entraram no café, ainda cheio de alunos. Emily reparou que muitas cabeças se viraram discretamente, enquanto os dois tomavam os seus lugares numa mesa junto da janela, observando-os com curiosidade. Não se dava com ninguém, para além do pessoal da biblioteca e de um ou outro aluno mais marrão, por isso, sabia que aqueles olhares significavam que os seus observadores se interrogavam sobre quem seria a jovem que acompanhava o professor. Mas não se importou muito com eles, precisamente porque não conhecia ninguém. Quanto ao professor, parecia-lhe absolutamente abstraído do resto do mundo, enquanto dissertava sobre Joyce e o seu Wake.
Prestou pouca atenção ao que ele dizia. As suas palavras não eram simples, como as de John, nem a sua voz exercia sobre ela o mesmo efeito hipnotizador que a voz dele conseguia, provavelmente porque, ao contrário de John, Hesse falava demasiado, contorcendo-se em espirais de frases rebuscadas compostas por palavras demasiado complicadas para a sua compreensão. Limitou-se a sorrir e abanar a cabeça, enrolando por vezes uma madeixa de cabelo num dedo e mais preocupada em discernir através da sua visão periférica os olhares que provocava no café, do que em tentar perceber em que direcção esvoaçavam as ridículas moscas varejeiras dentro daquele frasco de compota enjoativo.
Felizmente que aquele breve interlúdio passou rapidamente e ela teve que desculpar-se com o regresso ao trabalho. Hesse, no entanto, não desistiu e acompanhou-a de novo até à biblioteca, não interrompendo nem por um segundo a sua incessante verborreia e prolongando-a mesmo quando Emily já se sentara no seu lugar, desejosa de voltar às suas aborrecidas mas silenciosas fichas de leitura. Despediu-se, finalmente, quando Amanda os interrompeu para colocar uma questão a Emily, e ela nunca abençoou tanto a presença da tonta companheira como nessa tarde.


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O que aprendi com Vassili e Konig?
- num teatro de guerra pode-se ter que disparar nas posições mais incómodas que se possam imaginar, como deitado no chão de lado, por cima do ombro
- as espingardas são camufladas com panos, sobretudo o cano, para que não sejam avistadas pelo inimigo
- um sniper deve deslocar-se constantemente, ou seja, mudar de posição – quem não o faz ou é muito seguro ou é louco; estas deslocações de posição são extremamente lentas
- matar um alvo em movimento é incrivelmente difícil, normalmente procuram-se alvos fixos
- um sniper é, necessariamente, um soldado especial, por diversos motivos:
- a utilização da mira aproxima-o de tal maneira do alvo, que as mortes provocadas desta forma permanecem muito tempo na sua mente e podem causar sérios problemas a quem não estiver psicologicamente preparado para isso
- existe uma aura quase mítica em torno da figura do sniper, são considerados guerreiros solitários em teatros caóticos de guerra, espera-se que sejam homens de acção através da imobilização, um paradoxo interessante
- a espingarda passa a ser uma extensão do seu corpo, de si próprios, porque os acompanha a todo o lado e é desenvolvida uma relação quase pessoal com esse objecto que lhes protege a vida e ao mesmo tempo tira a vida a outros
- paciência, tranquilidade e capacidade de imobilização e, por outro lado, capacidade rápida de decisão na escolha do momento a disparar são qualidades indispensáveis a um sniper
- mas a lição mais valiosa foi a da importância do olhar – um sniper observa muito e observa através de um campo de visão concentrado, diminuto e muito aproximado; o olhar toma um protagonismo fulcral.
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E quem venceu o duelo? Veja o filme e descubra :)
No próximo episódio, prosseguimos em teatro de guerra, ainda na II Guerra Mundial, com um sniper muito sui generis e católico, no filme “O Resgate do Soldado Ryan”.
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E aqui fica o cheirinho do filme:
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Hasta la vista, baby
Capítulo 8. UM DESSES LONGOS E MISTERIOSOS CONCILIÁBULOS
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“Muitas vezes ficava ali deitado, noites a fio, sem pregar olho, a esgravatar o couro horas seguidas. Ou então, não se poupando a esforços, empurrava uma cadeira de braços para junto da janela, trepava até ao parapeito e, apoiado na cadeira, encostava-se à vidraça, como que a recordar a sensação de liberdade que costumava sentir quando dantes olhava pela janela. Na verdade, cada vez via pior em cada dia que passava, mesmo os objectos relativamente pouco afastados; já não conseguia distinguir o hospital em frente, que outrora amaldiçoara pela presença obsessiva, e se não soubesse com toda a certeza que morava na Charlottenstrabe, rua sossegada, ainda que com características citadinas, poderia ter sido levado a acreditar que a sua janela dava para um descampado, no qual o céu cinzento e a terra cinzenta se fundiam indistintamente.” (38)
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Sentia-se já suficientemente à vontade para levantar os olhos da leitura e observá-lo. Sabia que tinha que ter um cuidado extremo para o fazer, porque ele perceberia por uma demora de uma fracção de segundo, ou várias fracções de segundo seguidas e consecutivas, o que se passava. Por isso, instintivamente, adoptara uma técnica comum nos locutores de rádio e televisão que surge naturalmente com a prática – lia mentalmente duas ou três palavras adiantadas às que realmente transmitia com a voz, o que lhe permitia desviar os olhos duas vezes em cada parágrafo, enquanto proferia as palavras memorizadas dessa forma. Era preciso que estivesse absolutamente concentrada naquela tarefa, algo que já conseguia fazer facilmente, abstraindo-se de tudo em seu redor – os sons da casa (que se ouviam pouco naquela divisão), os sons da rua (demasiado sossegada para a distrair), os sons do cão (de tal forma incluídos na sua rotina, que só daria por ele caso o animal tivesse alguma reacção bizarra).
Conseguira, deste modo, ao longo dos dias, ir compondo um quadro da sua pessoa. Ele não era atraente, não no sentido comum do termo. Mas também tinha que descontar o acidente e a prolongada invalidez decorrente, que o haviam certamente transformado num fantasma daquilo que fora. Mesmo assim, conseguia perceber como devia ter sido a sua aparência previamente à tragédia.
Era moreno, o cabelo curto bem aparado, o corte masculino mais comum e que qualquer barbeiro faria em qualquer parte do mundo. Na penumbra constante do canto da sala que ocupava sempre, ainda não conseguira perceber se já tinha cabelos brancos. O rosto era comprido, de ossos salientes e um queixo marcadamente pontiagudo. A barba estava sempre feita e cheirava sempre a Old Spice. Ela conhecia aquele cheiro porque o seu pai também sempre fora fiel à velha garrafa branca com o barco à vela azul. De algum modo, achava que aquele cheiro não se lhe adequava, talvez porque o associava sempre a uma idade mais avançada, mas gostava dele porque lhe trazia recordações da sua infância. Sempre que entrava na biblioteca, o cheiro dele invadia-a de memórias agradáveis de menina que a faziam sentir-se num ninho quente e seguro.
Conseguira chegar à conclusão que a sua idade andaria certamente pelos trintas e muitos, talvez tivesse mais uns dez anos que ela, mais coisa menos coisa. As marcas do rosto assim o sugeriam e a sua tranquilidade também. Percebia-se que era uma pessoa vivida, não apenas pelo que a sua condição monetária proporcionava, mas sobretudo pelos anos em cima das costas. Apesar de tudo, havia nele uma constante atitude embirrenta, quase infantil, que ela não conseguia perceber se estivera sempre lá ou se fora consequência do estado em que se encontrava, que o fazia encarar tudo com uma eterna impaciência latente em todas as palavras que proferia e em todos os gestos que executava. Outra pessoa podia ter classificado esse traço da sua personalidade como característico de um nervoso, mas ela já o conhecia o suficiente para ter a certeza que ele não sofria desse mal.
Não, John não era nervoso ou sequer picuinhas, era pura e simplesmente impaciente. Muito provavelmente porque sempre fora habituado a ter tudo quanto queria, como queria e sobretudo quando queria, sem protestos nem impedimentos. Se vivesse num daqueles filmes de época, John seria aquele tipo de reis que estalam os dedos e de imediato se vêem rodeados de uma dúzia de vassalos prontos a satisfazerem-lhe todos os desejos, por mais ridículos que sejam.
Tinha uma boca de lábios muito finos, que quase desapareciam no fundo de pele morena, e um nariz grande e imponente, mas elegantemente desenhado no meio das maçãs do rosto, sem agredir a totalidade do conjunto das suas feições. Em geral, o seu semblante era agradável, embora nele não existisse nada de particularmente atractivo. Quanto aos olhos, nunca os conseguira observar porque se mantinham persistentemente escondidos por trás dos óculos escuros. Muitas vezes se perguntara se haveria neles alguma característica demasiado repulsiva causada pelo acidente que o fizesse escondê-los, mas concluiu que provavelmente o facto de não poder observar quem o observava o levava a resguardar-se daquela forma e que isso era perfeitamente compreensível e ajustado ao seu carácter.
Johann ergueu a mão, num gesto imperial e ela calou-se imediatamente.
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(38) A Metamorfose - Franz Kafka

