sábado, 5 de janeiro de 2008

PALAVRAS CONTESTATÁRIAS 1


"E Deus terá patenteado esta ideia do manicómio redondo?"

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

OS ANIMAIS DE ANDRÓMEDA

LOBO
F.º~DGF


LDKÇLKF

Os lobos são lendários pelos seus uivos que provocam calafrios e que usam para comunicarem entre si. Um lobo solitário uivará para atrair a atenção da sua alcateia, enquanto que os uivos comunitários podem servir para enviar mensagens de uma alcateia a outra. Alguns uivos são de confronto. Tal como os latidos dos cães, os lobos podem começar a uivar simplesmente porque um lobo próximo o está a fazer.
ÇLGºFÇG
Os lobos são a espécie maior da família dos cães. Os lobos cinzentos são os mais comuns e ocupavam todo o Hemisfério Norte em tempos idos. Mas os lobos e os humanos têm uma longa história de inimizade. Embora quase nunca ataquem humanos, os lobos são considerados por aqueles como dos mais terríveis e assustadores vilões do mundo animal. Para isto contribui e muito o facto de atacarem, sim, animais domésticos, pelo que inúmeros lobos têm sido alvejados, apanhados em armadilhas e envenenados.
Este conflito existente entre o Homem e o Lobo tem fortes raízes que oriundam sobretudo a partir do período medieval, altura em que o lobo começou a possuir a conotação de animal maligno, devorador de homens, mulheres e crianças. As causas desta atitude parecem ter origem, fundamentalmente, na Igreja Católica, que utilizava o lobo como símbolo satânico, animal que punha em causa o rebanho de Deus. A grande religiosidade do povo medieval, fez com que depressa assimilassem esta ideia, dando ao lobo uma dimensão mitológica e sobrenatural, expressa em várias lendas, histórias e crenças, algumas delas ainda hoje vivas em determinadas comunidades.
ÇFLGFºÇ
Os lobos vivem e caçam em grupos entre 6 a 10 animais. Percorrem distâncias de cerca de 20 quilómetros por dia e são extremamente sociais – cooperam na caça das suas presas preferidas – veados de grande porte, corços e javalis. Observam um grupo de presas, rondam-nas tentando pô-las em movimento e desta forma escolhem as mais fracas ou mais lentas. Uma vez escolhida a presa podem rondá-la durante vários dias, tentando enfraquecê-la cada vez mais, física e psicológicamente com a pressão exercida. Quando obtêm êxito não se fazem de rogados e um lobo pode consumir 9 quilos de carne numa única refeição. Também se alimentam de mamíferos pequenos, pássaros, peixe, lagartos, cobras e fruta, porque, ao contrário do que se pensa, a sua taxa de sucesso em caçadas grandes é muito baixa.
O seu olfacto é poderosíssimo, 100 vezes maior do que os humanos.
kfldk
As alcateias estão organizadas de acordo com uma hierarquia rígida, com um macho dominante chamado Alfa e a sua companheira. Normalmente apenas este casal procria. Todos os membros adultos da alcateia ajudam a cuidar das pequenas crias, trazendo-lhes alimento e tomando conta delas enquanto os outros caçam. Os lobos comunicam entre si através de um vasto e complexo repertório que inclui marcas de cheiro, vocalizações, expressões faciais, linguagem corporal e rituais. Esta comunicação é realizada muito mais por harmonia e integração do que por agressão ou submissão. Ao contrário do que se possa pensar, os lobos são animais geralmente dóceis, com uma grande aversão por lutas. São necessários laços muito fortes para manter a alcateia unida, como uma família.
çlfdçdlf
Estima-se que na Península Ibérica, sobrevivam apenas cerca de 2000 lobos ibéricos, dos quais 300 em território português.
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gfkfçlkg

Inclino-me perante ti, filho da lua
Que o meu fascínio acaricie a tua figura
És o mais belo de todos que por aqui irão passar
O mais intrigante, nobre e sábio
Venero-te, não tenho pudor de o afirmar
Tocas-me de formas difíceis de explicar
Perdoa todos dos meus que não te souberam respeitar
Perdoa-lhes o medo, o mito, a ignorância
Se um dia a este mundo regressar
A tua pele desejarei experimentar
Não há em mim queda para o cordeiro
Sou loba, solitária, sem alcateia
Em perseguição da palavra derradeira
Tu és o que eu sinto nas entranhas
És tu nas minhas formas mais estranhas
Como tu, tacteio e vagueio na noite
Só quem como eu pode entender
A alma de lobo que uiva no meu ser

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

MURMÚRIOS DE LISBOA LII

O Bombista Suicida
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Av. da República - Grafitti no muro das ruinas da Feira Popular
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O bombista suicida é novo. Não mais de 25 anos. É baixo e magro, moreno e usa barba. Para um rapaz de não mais de 25 anos, usar barba é um pouco estranho e por isso lhe chamo o Bombista Suicida.
Veste sempre umas calças bejes e um blaser verde tropa com botões e bolsos e zipper firmemente apertado até ao pescoço. Como se lá dentro tivesse um arsenal de explosivos prontos a serem accionados a qualquer momento, e por isso lhe chamo o Bombista Suicida.
Os olhos dele são castanhos opacos e sempre fixos numa qualquer ideia, a sua expressão demasiado grave e madura para alguém com não mais que 25 anos, e por isso lhe chamo o Bombista Suicida.
Senta-se sempre lá para trás, invariavelmente num dos bancos virados ao contrário, como se até no lugar onde se senta tivesse que ser revolucionário, e por isso lhe chamo o Bombista Suicida.
çlgºçflg
Já esteve sentado ao meu lado e se estivéssemos em Telaviv ou em Jerusalém e não em Lisboa, eu teria com toda a certeza saído disparada na próxima paragem depois de ele ter entrado, com medo de ir pelos ares juntamente consigo.
Mas não. Estamos em Lisboa e por isso permaneço. Estamos em Lisboa e por isso admito que o rapaz pense noutras coisas graves, que não em problemas fronteiriços na Faixa de Gaza, a morte do lendário Arafat ou a brutalidade cada vez mais incontrolável do exército israelita.
Estamos em Lisboa e por isso admito que o rapaz tenha apenas frio e goste de se sentir completamente abotoado até ao pescoço para se proteger de resfriados mais violentos.
Estamos em Lisboa e por isso admito que use barba porque lhe apetece, porque não tem pachorra para a fazer todos os dias, porque lhe dê gozo ser diferente.
Estamos em Lisboa e por isso o rapaz apenas provoca alguns olhares curiosos.
Porque se estivéssemos em Jerusalém, esta história seria totalmente diferente – este rapaz seria um Bombista Suicida de não mais que 25 anos, olhar duro e fixo num único objectivo, cabeça feita e “lavada” por fundamentalistas, com um único pensamento dentro dela – vou rebentar com esta porra toda, sacrificar-me em nome de Alá, desintegrar-me em 60 biliões de pedacinhos e flutuar até ao reino dos céus onde terei 60 virgens à minha espera.
kfgçld
É certo que uma coisa partilham em comum o rapaz da barba e o seu homónimo Bombista Suicida do outro lado do mundo – qualquer um deles sonha de vez em quando com 60 virgens e os 60 biliões de posições possíveis de praticar com elas ...

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

EM MINHA CASA, NA PONTA DOS PÉS 17 (cont.)

Capítulo 5. CORRESTE POR MINHA CASA DE MADEIRA
fçlkçlfk
Soube que tinha conquistado uma preciosa etapa quando o fez sorrir uma tarde, um sorriso sonoro e autêntico, que lhe escancarou a expressão habitualmente fechada e impenetrável. E aquele sorriso foi como um verdadeiro raio de sol que inundou a penumbra da biblioteca e o seu coração e a encheu de um orgulho e uma alegria avassaladores.
De vez em quando, John dava-lhe conselhos:
"Mais lento, aprenda a controlar a voz. Respire. Não se esqueça de respirar." ou "Mais rápido. Daqui a nada estou a dormir. Contratei uma leitora ou um sudoríparo ambulante?"
"Use a versatilidade da sua voz. Explore-a. Faça-a fazer coisas que acha que não consegue."
Os comentários eram subtilmente elogiosos e Emily correspondia com satisfação. Habituava-se também ao seu sarcasmo, que descobriu traduzir um sentido de humor muito particular.
Por vezes, fechava os olhos e seguia o conselho dele. Tentava andar pela casa, tomar banho, arranjar-se de manhã às escuras.
Não gostava do escuro. Como seria se fosse subitamente forçada a viver o resto da sua vida na escuridão absoluta? Era um pensamento inconcebível para ela, claro. Mas como seria se atravessasse um dia a rua e fosse atropelada e acordasse no outro dia no hospital num abismo impenetrável?
Um dia Amanda apanhou-a a escrever no teclado de olhos fechados.
"Emily …"
Saltou na cadeira.
"Sentes-te bem?"
"Sim …"
Amanda afastou-se no seu passinho de gueixa inchada e Emily não conteve um sorriso de menina apanhada com um caramelo na boca.
Que estupidez. O que é que andas a fazer, Emily?
A tentar percebê-lo …
dkçk
" À noite toquei-te e senti-te
sem que a minha mão fugisse para lá de minha mão,
sem que meu corpo fugisse, ou meus ouvidos:
de um modo quase humano
senti-te.
çdlºçld
A pulsar,
Não sei se como sangue ou como nuvem
Errante,
Em minha casa, na ponta dos pés, escuridão que sobe,
Escuridão que desce, cintilante, correste.
çlkçd
Correste por minha casa de madeira,
E abriste as janelas,
E senti pulsar a noite toda,
Filha dos abismos, silenciosa,
Guerreira tão terrível e tão bela,
Que tudo quanto existe,
Sem tua chama, não existiria para mim." (26)
lkçld
John revelara-se uma espécie de curso de voz. Ao fim de um mês podia afirmar que se sentia bem na sua companhia, apesar de, ou se calhar por isso mesmo, terem trocado pouco mais que as saudações diárias que as regras da boa educação ditavam. Esta convivência cordial mas fria deixava-a muito mais segura do que se ele tivesse querido alargar as leituras a uma conversa de circunstância vazia, e que apenas teria servido para a deixar incomodada. Desta forma, limitava-se a ler o que lhe era indicado, reler certas passagens que por vezes ele lhe pedia para repetir e ouvir as suas correcções atentamente, tentando alterar o tom da voz, a entoação, a respiração e outros pormenores sugeridos.
Sentia que fizera progressos, mas também sabia que só conseguiria ler como lia na sua presença. Era como se ele fosse o guardião da sua voz.
E um dia surpreendeu-a.
"Vou-lhe mostrar uma coisa."
dkdçl
(26) Escuridão Formosa - Gonzalo Rojas

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

MAGIC MOMENTS 22

Palavras proféticas, de um génio absoluto.
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Eu chamo-lhe o Mozart do século XX. Há quem lhe chame outras coisas menos simpáticas ... Ele próprio desistiu do seu nome, por causa duma querela com uma grande editora e passou a chamar-se um símbolo. Para o registo, passaram a chamá-lo The Artist Former Known as Prince (O Artista Anteriormente Conhecido Como Prince). Actualmente, findo o contrato com a dita editora, Prince voltou a ser Prince. O génio, esse, sempre permaneceu lá.
ºçglfçg
fkgçlf
g


Oh yeah
In France a skinny man
Died of a big disease with a little name
By chance his girlfriend came across a needle
And soon she did the same
At home there are seventeen-year-old boys
And their idea of fun
Is being in a gang called the disciples
High on crack, totin a machine gun
çlgºçfg
Time, time
çlgºçlf
Hurricane Annie ripped the ceiling of a church
And killed everyone inside
U turn on the telly and every other story
Is tellin u somebody died
Sister killed her baby cuz she couldn't afford 2 feed it
And we're sending people 2 the moon
In september my cousin tried reefer 4 the very first time
Now hes doing horse, its june
çflgºçflg
Times, times
gçlfg
Its silly, no? When a rocket ship explodes
And everybody still wants 2 fly
Some say a man aint happy
Unless a man truly dies
Oh why
çgkfçlg
Time, time
fçlgfºçlg
Baby make a speech, star wars fly
Neighbors just shine it on
But if a night falls and a bomb falls
Will anybody see the dawn
çfºlgºçfl
Time, times
fçlgfºçlg
Its silly, no? When a rocket blows
And everybody still wants 2 fly
Some say a man aint happy, truly
Until a man truly dies
Oh why, oh why, sign o the times
çfgfçl
Time, time
çfgllºçf
Sign o the times mess with your mind
Hurry before its 2 late
Lets fall in love, get married, have a baby
Well call him Nate... if its a boy
çlgfºçfdl
Time, time
Time, time
lfçld
Pese embora o ridículo que é traduzir letras de músicas, esta exige-o:
Em França um homem esquálido morreu de uma grande doença com um nome pequeno
Por acaso a sua namorada encontrou uma agulha e em breve fez o mesmo
Nos EUA há miúdos de 17 anos cuja ideia de diversão é pertencerem a um gang chamado Os Discípulos, chutarem-se com crack e dispararem uma metralhadora
O furacão Annie arrancou o telhado de uma igreja e matou toda a gente lá dentro
Ligas a televisão e quase todas as notícias te dizem que alguém morreu
A rapariga matou o bebé porque não tinha dinheiro para lhe dar de comer e andamos a mandar pessoas à lua
Em Setembro o meu primo experimentou erva pela primeira vez, agora anda no "cavalo", é Junho
Não é absurdo? Quando um foguetão explode e toda a gente ainda quer voar
Alguns dizem que um homem não está contente enquanto um homem não morrer
Porquê?
Alguém faz um discurso, voam guerras de estrelas
Os vizinhos limitam-se a olhar para aquilo a brilhar
Mas se uma noite cair e uma bomba cair
Alguém verá a alvorada?
Os sinais dos tempos lixam-nos a cabeça
Apressa-te antes que seja tarde
Vamos apaixonar-nos, casar, ter um bebé
Chamamos-lhe Nate se for rapaz

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

A minha resolução de ano novo é:
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1024×768 pixeis

domingo, 30 de dezembro de 2007

PALAVRAS EMPRESTADAS 32


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"Podes ser tão forte quanto desejes ser.
És uma guerreira, Clarice. O inimigo está morto, o bebé a salvo. És uma guerreira.
Os elementos mais estáveis, Clarice, aparecem no meio da Tabela Periódica, entre o ferro e a prata.
Entre o ferro e a prata. Acho que é um lugar apropriado para ti."
ldfºçdlf
Hannibal Lecter em "Hannibal" - Thomas Harris

sábado, 29 de dezembro de 2007

EM BUSCA DE PALAVRAS 4

AVISO: Este post é de leitura interdita a menores de 18 anos ou a pessoas sem o mínimo de bom senso ou senso de humor dentro da tola
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A Melhor Amiga de Um Sniper – Parte III
KFGLÇDK

DRFÇLKF
Nas mãos do meu amigo, que é entroncado e pratica exercício para poder segurar numa arma com o braço em ângulo recto relativamente ao corpo durante bastante tempo numa carreira de tiro, a Kalashnikov parecia leve como uma pluma.
Fiquei a olhar admirada para a versão modernizada da AK 47, a lendária espingarda soviética, e a primeira reacção que tive foi “É tão levezinha!?”
çflºçf
Ele não disse nada. Limitou-se a mostrar-me como se encaixava o carregador curvo (característica típica e exclusiva desta espingarda) na base, a dizer-me que ali era a corrediça, aqui o gatilho, acolá a segurança, tens aqui a mira e o regulador, etc, etc, etc. Levantou-a com toda a displicência, encaixou a coronha na parte interna do ombro, içou o cotovelo direito em ângulo recto, com o indicador direito enganchado no gatilho, o cotovelo esquerdo em ângulo recto com a mão a levantar a espingarda sensivelmente a meio do cano e a olhar pela mira, para me mostrar como se fazia. Depois passou-ma para as mãos.
É claro que assim que peguei nela percebi quão enganador o seu aspecto elegante e aerodinâmico podia ser. Os dois braços foram imediatamente abaixo e desatei a rir. “Chiça! Isto é pesado como ó caraças!” E é pesada - são cerca de 4 quilos.
KJGLÇFKG
Primeira conclusão: já tinha pensado que o meu sniper tinha que fazer exercício para conseguir manter-se quieto e preparado durante horas no mesmo local e na mesma posição; agora tinha a certeza que ele tinha mesmo que fazer exercício para conseguir carregar com uma “menina” semelhante nos braços.
Segunda conclusão: tinha nas mãos uma obra-de-arte mortífera e elegante, quase mística.
Terceira conclusão: uma espingarda oferece sensações totalmente diferentes de uma simples pistola, ainda para mais uma espingarda deste tipo – é outro mundo, é outra pessoa, é outra “cena” tout court.
Quarta conclusão: se uma pistola pode servir para qualquer um manusear, uma espingarda deve ser manuseada por um “artista”, seja o que for que se queira entender por "artista" - alguém que compreende e respeita o que tem nas mãos.
Quinta conclusão: a relação que se estabelece com este tipo de espingarda é completamente diferente da que a pistola permite de imediato – a espingarda é como um gato, não se deixa conquistar imediatamente, não se deixa conhecer assim sem mais nem menos, é quase como se nos dissesse: “podes ver, tocar, sentir, manejar-me, até disparar-me, porventura poderás até desmontar-me e examinar as minhas entranhas cirurgicamente, mas passará muito tempo até que eu te deixe sentires-me parte de ti”.
Estarei louca? Serei absurda? Não, estou a incorporar um personagem. O que me leva à
Sexta Conclusão: ...
lkfçldkf
Mas para conhecê-la, não perca o próximo episódio de “A Melhor Amiga de Um Sniper” ;)
Hasta la vista, baby.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

OS ANIMAIS DE ANDRÓMEDA

KRILL

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O krill mais pequeno mede apenas cerca de 5 centímetros de comprimento e pesa apenas 1 grama, mas representa um elo de dimensões gigantescas na cadeia alimentar global. Estes pequenos crustáceos semelhantes a camarões constituem essencialmente o combustível que alimenta o motor dos ecossistemas marinhos da Terra.

O krill alimenta-se de fitoplâncton, plantas unicelulares microscópicas que vagueiam à superfície do oceano e sobrevivem à custa de dióxido de carbono e dos raios solares. Por sua vez, são o elemento principal das dietas de centenas de animais diferentes, desde peixes, a aves e a baleias. Sem krill, a maioria das formas de vida do Antárctico desapareceria.

Existem estudos recentes que mostram que as reservas de krill desta zona do planeta podem ter sido reduzidas em cerca de 80% desde a década de 70. Os cientistas atribuem este declínio em parte ao degelo das calotas polares causado pelo aquecimento global. Esta perda de gelo elimina uma fonte primária de alimento para o krill: algas.

De cor rosa e opacos, o krill da Antárctica encontra-se entre a maioria das 85 espécies conhecidas de krill. Os seus números estimam-se entre os 125 milhões e os 6 biliões de toneladas nas águas desta zona do planeta. Congregando-se durante certos períodos do ano, os cardumes de krill tomam proporções tão gigantescas e densas, que podem ser vistos do espaço!

O krill da Antárctica pode viver até aos 10 anos, uma longevidade impressionante para uma criatura tão cobiçada por tantos predadores. Passam os seus dias a tentar evitar ser capturados, nas profundidades frias do Oceano, a cerca de 100 metros da superfície. Durante a noite, vagueiam pela coluna de água até à superfície em busca de fitoplâncton.

Os cientistas estimam que o peso total de todo o krill da Antárctica é superior ao peso de todos os humanos da Terra!
lfºçdl
FLKÇLDKF
Minúscula fonte de vida
Eternamente remetida
Ao esquecimento ou à ignorância
Neste mundo feito de ânsia
kgjklfg
Stress? O que sabemos nós humanos disso?
Senhores! Perguntem ao krill o que é isso
E ele responder-vos-á com um gritinho agudo
"Uiii!!! Passo o dia a fugir de tuuuuudo!"

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

PLIM! XII (Palavras Loucamente IluMinadas)



"Comprem chocolates à criança
a quem sucedi por erro.
E tirem a tabuleta
porque amanhã é infinito."
dkçlkd
Grandes São os Desertos - Álvaro de Campos

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

EM MINHA CASA, NA PONTA DOS PÉS 16 (cont.)

Capítulo 5. CORRESTE POR MINHA CASA DE MADEIRA
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"Emily … Faça-me um favor. Esqueça-se que eu estou aqui. Não é muito difícil. Eu sei que você lê melhor do que isso, quando lê para si."
Emily ficou a olhar para ele durante uns momentos. Depois uma dúvida absurda assaltou-lhe o espírito. Baixou os olhos. Por brevíssimos segundos teve a certeza que a sua dúvida não era um absurdo, mas uma realidade. Ele conseguia vê-la. A bola de pêlo lambeu-lhe a mão. Ele conseguia vê-la por trás dos óculos escuros e aquela história da cegueira não passava de um estratagema qualquer. Provavelmente também se podia mexer …
"Emily … Eu sou mesmo cego, não se preocupe. Escusado será dizer que também sou paralítico, caso esteja a duvidar disso também. Se quiser peça à Clara para lhe mostrar a minha ficha médica."
Os olhos de Emily começaram a abrir-se muito.
"Mas como …", assim que proferiu estas palavras arrependeu-se imediatamente. Estúpida! Estúpida! Assim ele vai perceber que acertou em cheio.
"É simples. Experimente fechar os olhos durante um dia inteiro e fazer a sua vida normal. Vai perceber muita coisa que esses lindos olhinhos (não duvido que sejam lindos) não conseguem.", apesar do discurso que acabara de ser proferido ser perfeitamente lógico e coerente, perpassava pelas suas palavras um subtil tom irónico que a deixava desconfortável e desconfiada.
Abriu a boca, não sabia se para dizer alguma coisa, se para respirar, porque de súbito apercebeu-se que se esquecera de respirar desde o instante em que ele começara a falar.
"Por exemplo", continuou ele, "mais um pouco e você ficava sem fôlego agora mesmo. Percebe? Eu ouço-a. Eu ouço-a muito bem. Se eu lhe dissesse o que é que já consegui ouvir-lhe, você provavelmente assustava-se. Ou pensa que só porque não vejo não a consigo 'ver'?"
Emily continuou calada. A respiração suspensa, sem saber o que pensar ou sentir. Pensou se não estaria a enlouquecer e sentiu um alívio tremendo ao mesmo tempo. Ironicamente, ficou aliviada com o facto de ter a sensação estranha que não precisava de lhe explicar nada porque ele percebia tudo, mesmo aquilo que ela não conseguia, não queria ou não sabia dizer. Como por que motivo esse preciso pensamento lhe parecia tão lógico, apesar de o conhecer há apenas dois dias e de não fazer a mínima ideia com que espécie de pessoa estava a lidar.
"Continue. E lembre-se - eu não estou cá. Saí. Fui dar uma volta no meu carro.", foi a resposta.
A bola de pêlo lambeu-a novamente. E interpretando isso como um incentivo, retomou a leitura, desta vez um pouco mais segura.
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"uns modos mais atractivos e agradáveis - algo mais leve, mais franco, mais natural - até lá teria realmente de me excluir dos privilégios destinados a crianças felizes e satisfeitas.'
'O que é que a Bessie diz que eu fiz?' perguntei.
'Jane, não gosto de questionadores; além disso, há algo de verdadeiramente proibitivo numa criança que questiona os adultos dessa forma. Vá sentar-se algures; e até conseguir falar de forma agradável, permaneça em silêncio.' "(24)
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Ao princípio foi difícil. Mas bastava ele pronunciar o seu nome para ela perceber a chamada de atenção. Lentamente foi-se soltando. No final da semana já conseguia ler uma página inteira sem se lembrar constantemente de que ele estava lá. John contribuía para isso permanencendo absolutamente silencioso no seu canto escuro. E as lambidelas de Wolf encorajavam-na. Parecia-lhe que o cão lhe dizia "Continua, Emily. Estamos a gostar."
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“Um novo capítulo num romance assemelha-se a uma nova cena numa peça; e quando, leitor, eu levantar a cortina desta vez - deve imaginar que observa uma sala na Estalagem George em Millcote, com o mesmo papel de parede decorado com figuras grandes, que as estalagens costumam ter; com uma carpete semelhante, mobília semelhante, bibelots e quadros semelhantes - incluindo um retrato de Jorge III e um outro do Príncipe de Gales, e uma representação da morte, de Wolfe. Tudo isto é-lhe visível através da luz de uma lamparina de óleo pendurada do tecto e de um excelente lume, perto de cuja lareira eu estou sentada, embrulhada na minha capa e no meu gorro; o meu regalo e guarda-chuva repousam sobre a mesa e estou a aquecer o frio e a dormência contraídos durante dezasseis horas de exposição às intempéries de um dia de Outubro: abandonei Lowton às quatro da madrugada e o relógio da vila de Millcote está neste momento a bater as oito da noite.
Leitor, embora pareça estar confortavelmente acomodada, o meu espírito não se encontra muito tranquilo ..." (25)
çldkjfdç
(24) e (25) Jane Eyre – Charlotte Brontë

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Um Feliz Natal a todos nas "minhas" línguas :)

Feliz Natal
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Happy Xmas
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Nollaig shona duit
(Irlandês)
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Feliz Navidad
gçlfk
S Rozhdestvom
(russo)
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Merii Kurisumasu
(japonês)
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Buon Natale
(italiano)
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Gozhqq Keshmish
(Apache)
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Tsaa Nuusukatu Waa Himaru
(Comanche)
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Ya'at'eeh Keshmish
(Navajo)
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domingo, 23 de dezembro de 2007

PALAVRAS EMPRESTADAS 31

Deixo aqui dois pequenos excertos e o resumo de uma das mais bonitas histórias de Natal que conheço.
É um conto de ficção científica escrito e publicado por Arthur C. Clarke em 1955.
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"A ESTRELA
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Estamos a 3.000 anos-luz de distância do Vaticano. Em tempos, acreditei que o espaço não podia deter qualquer poder sobre a fé, assim como acreditei que os céus declaravam a glória do trabalho de Deus. Agora vi esse trabalho, e a minha fé foi seriamente abalada. Olho o crucifixo pendurado na parede da cabine, sobre o Computador Mark VI, e pela primeira vez na minha vida imagino se não se tratará apenas de um símbolo vazio. Ainda não disse a ninguém, mas a verdade não pode ser escondida. Os factos estão aí para que todos os leiam, gravados nos inúmeros quilómetros de fita magnética e nos milhares de fotografias que transportamos de volta à Terra. Outros cientistas podem interpretá-los tão facilmente como eu, e não serei eu certamente quem impedirá a verdade de vir ao de cima, a verdade que em tempos idos deu tão mau nome à ordem jesuíta a que pertenço. A tripulação já estava suficientemente depressiva: como irão reagir a mais esta ironia final? Poucos têm algum tipo de fé religiosa, no entanto não rejubilarão por usar esta última arma na sua campanha contra mim - essa guerra privada, bem-humorada mas séria, que durou toda a viagem desde que descolámos da Terra. Divertia-os terem um jesuíta como astrofísico (...)"
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O conto prossegue com o monólogo interior do personagem principal, um astrofísico jesuíta, a bordo de uma nave espacial que tem por missão investigar as causas de uma supernova numa galáxia distante. Ele e os restantes membros da tripulação descobrem os artefactos de uma civilização muito avançada, cuidadosamente preservados no único planeta que permanece em órbita em torno da supernova. Sabendo que toda a vida seria dizimada quando o seu Sol explodisse numa supernova, esta raça de seres sapientes deixou um registo de quem eram e do que tinham conseguido desenvolver. As imagens, esculturas, música e outras relíquias de uma raça muito semelhante aos humanos, condenada à destruição, entristecem a tripulação e os seus cientistas, longe dos seus lares e sofrendo de solidão.
O que o narrador descobre, mas ainda não partilhou com os outros, é que a supernova que destruiu esta civilização, era a Estrela de Belém, que brilhou intensamente no céu para anunciar o nascimento de Jesus Cristo e que os Reis Magos seguiram para prestarem a sua homenagem ao Messias.
A fé deste cientista é abalada pelo aparente capricho de Deus e as suas últimas palavras, que constituem também o fim do conto, são:
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"Oh Deus, havia tantas estrelas que podias ter usado. Qual era a necessidade de teres oferecido estas pessoas ao fogo, para que o símbolo da sua passagem pudesse brilhar sobre Belém?"
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Arthur C. Clarke
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P.S. Hoje em dia, uma das várias hipóteses científicas mais cotadas para a explicação da "Estrela de Belém" é precisamente que poderia ter sido a explosão de uma supernova, avistada da Terra.

sábado, 22 de dezembro de 2007

PALAVRAS ESTÚPIDAS 6

A Febre Tony
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Não consigo esconder mais este segredo horrível que cresce dentro de mim de dia para dia e que ameaça invadir-me as células todas do meu corpo, do meu cérebro e do meu coração. Caraaaaaaaaaaaaaaças! Não posso esconder mais isto! Não aguento maaaaaaaaaaaais! Vou confessar! Pronto! Eu gosto do Tony Carreira!
Uffffff!!!!! Pronto. Fuiuuuuuuu!!!!!
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Agora sim, estou aliviada. Libertei este segredo terrível que vivia dentro de mim há meses. E agora que libertei este grito de amor, agora sim posso dissecar esta terrível paixão, com os neurónios que me restam e que ainda não foram atacados pela febre Tony.
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O homem é pimba? Sim, é! E eu não gosto de música pimba, caraças!
O homem é foleiro? Sim, é! E eu não gosto de coisas foleiras, caraças!
O homem é lindo de morrer? Não, até nem é! E até tem assim um bocado cara de parvo!
O homem tem uma voz fantástica? Não, a voz dele não é nada de especial!
O homem veste bem? Não, caraças, que até nem isso é nada de extraordinário!
O homem tem um corpo musculado que faça calores? Não, caramba, que aquilo é uma pileca!
As letras das canções pimba do homem são poemas extraordinários? Não, raios parta que não são, é vira o disco e toca o mesmo Marco Paulo de sempre!
O homem tem charme? Epá ..... tem assim um niquinho de charme, mas é uma coisa mesmo muito niquinhosa ...
Então, senhores! expliquem-me porquêêêêêêêêêê????!!!!!
Expliquem-me porque é que cada vez que ouço alguém dizer o nome dele na televisão, páro tudo o que estou a fazer e fico feita estúpida, a olhar para o Tony, com meio sorriso na cara e um pingo de baba a escorrer-me pela beiça abaixo?
Hããããããnnnnn????!!!! Porquê, carago????!!!! Mas porquêêêêêêê???!!!!!!
(suspiroooooooooooooooooo enorme desconsolado)
çflgºçflg
Toc Toc Toc Posso?
Sim? Quem é você?
Sou a tua parte emocional.
E o que queres?
Quero explicar-te o Mistério Tony.
Faxavor de dizer. Porque eu tou em branco ...
A menina gosta do Tony por 3 motivos. O Tony tem algo.
Algo?
Sim, algo, algo que a atrai.
E que é?
Sinceridade, humildade e amor pelo que faz.
Isso explica a baba a escorrer da boca?
Explica. Há algo de muito sexy nessas três características, caso não saiba.
Ah pronto. Muito agradecida.
Não tem de quê. E outra coisa.
Sim?
Não se preocupe, minha cara. Não é a única mulher neste país a ser afectada pela Febre Tony. 99,9% das mulheres já apanharam a febre. E até os homens já estão a ser afectados também.
Fico mais descansada.
E agora vá lá ouvir o Tony.
Mas baixinho ... para os vizinhos não perceberem que eu gosto dele ...
Não se preocupe, já lhe disse. Os vizinhos também o adoram.
Pois é! Que felicidade! Posso ouvir Tony Carreira em altos berros!!!!!!
g3ºf+3g
Toc Toc Toc
Sim, quem é agora?
Somos a sua parte racional, erudita, intelectual e de bom gosto.
E o que querem?
Também não abuse, se faz favor ... Contenha-se! Tony assim de vez em quando, como quem não quer a coisa, muito bem. Agora uma decisão consciente de ouvir Tony???!!!!!
Pronto, pronto, tá bem ... já cá não está quem falou ...
(suspiro...........................)
2g+3f2g




sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

EM MINHA CASA, NA PONTA DOS PÉS 15 (cont.)

Capítulo 5. CORRESTE POR MINHA CASA DE MADEIRA
ldkçlkg
"Por mim vai-se à cidade que é dolente,
por mim se vai até à eterna dor,
por mim se vai entre a perdida gente.
Moveu justiça o meu supremo autor:
Divina potestade fez-me e tais
A suma sapiência, o primo amor.
Antes de mim não houve cousas mais
do que as eternas e eu eterna duro.
Deixei toda a esperança, vós que entrais.
Estas palavras em letreiro escuro
Escritas vi por cima de uma porta;
E disse: 'Mestre, o seu sentido é duro.' " (22)
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Emily voltou, claro. Pensou no pai, no namorado e nos amigos, tão distantes do que queria para a sua vida. Pensou em Amanda, lambuzada todos os dias por decadentes catedráticos babados e arrogantes universitários entezados. E concluiu que valia a pena sofrer todas as humilhações, se isso lhe permitisse percorrer os corredores da biblioteca com a cabeça bem levantada e um sorriso nos lábios.
"Ouvi dizer que é leitora particular do milionário Johann Strat.", pigarreou o vetusto professor de Literatura por cima do seu ombro, uma tarde.
Emily confirmou com o silêncio de um aceno de cabeça e de um par de sobrancelhas arqueadas, por trás dos óculos que comprara para fingir uma miopia inexistente, mas sedutora.
"Pobre coitado. Com tanto dinheiro e atirado para um canto, sem esperança alguma de recuperação. Se quiser …", pigarreou novamente, e Emily notou que ele desviara os olhos por um segundo para o seu decote, "… posso sugerir-lhe algumas leituras."
Compôs o seu melhor sorriso e atirou-lhe uma bofetada de luva branca:
"Não é necessário, professor. Ele aprovou integralmente o programa de leituras que lhe propus. Mas, de qualquer das maneiras, muito obrigada."
E afastou-se lentamente, fingindo consultar o seu bloco, enquanto se dava ao luxo de bambolear as ancas que não tinha na tromba do outro.
Começava a constatar que o poder atraía. E que gostava dessa sensação.
Hoje a Nº 5 trazia um tailleur verde claro aos quadrados. Aquela mulher devia ter uma comissão na Chanel.
"Boa tarde, Sra. Sutherland."
Assim que entrou na sala e depois de ter sido anunciada, Emily balbuciou:
"Queria-lhe pedir desculpa pelo que lhe disse ontem …"
Ele estava junto à janela, como das outras vezes. A bola de pêlo saltitou na sua direcção e empoleirou-se nas suas pernas, como no dia anterior. Emily afagou-lhe o cocuruto, procurando algum conforto e empatia para si própria nesse gesto de carinho oferecido e o animal enlouqueceu. Começou a arfar com a língua de fora e a cauda a abanar freneticamente, o que lhe deu vontade de rir, mas conteve-se. Não era de bom tom soltar uma gargalhada naquele momento, com toda a certeza.
Ele farejou-a e apontou com o queixo para um livro pousado em cima da mesa, ignorando o seu pedido de desculpas.
"Quando quiser, pode começar. Do início."
Emily não soube como reagir. Se insistisse, poderia parecer que o seu pedido de desculpas se destinava apenas a provocar nele uma reacção qualquer e isso soaria a hipocrisia. Decidiu não acrescentar mais nada.
Aproximou-se lentamente e leu em voz alta, como se isso pudesse constituir uma estratégia de defesa:
"Jane Eyre – Charlotte Brontë"
Suspirou fundo, sem se preocupar se o suspiro fora audível. Adorava aquele livro. Pegou nele e sentou-se. A bola de pêlo saltou-lhe para o colo.
"Wolf!", John bateu na varinha mágica com a mão duas vezes. Mas a bola de pêlo hesitou.
"Ele não me incomoda. Se é por causa disso …"
John permaneceu silencioso, como se acentisse e ela abriu o livro sobre o dorso do setter. Começou a ler:
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"Capítulo I

Não havia possibilidade alguma de dar um passeio naquele dia. Tinhamos vagueado, de facto, no pomar despido durante uma hora nessa manhã; mas desde o jantar (Mrs. Reed, quando não havia convidados, jantava cedo) que o frio inverno trouxera consigo nuvens tão sombrias e uma chuva tão penetrante, que qualquer actividade física no exterior estava agora fora de questão.
Isso agradava-me; nunca apreciei longos passeios, especialmente em tardes frias: temia regressar a casa no crepúsculo cru, com dedos das mãos e dos pés enregelados e um coração entristecido pelos ralhetes de Bessie, a ama, e tornado humilde pela consciência da minha inferioridade física em comparação com Eliza, John e Georgiana Reed.
Os ditos Eliza, John e Georgiana estavam agora reunidos em redor da sua mãezinha na sala de desenho: ela encontrava-se recostada num sofá perto da lareira e os seus queridos (de momento sem brigarem ou chorarem) pareciam perfeitamente felizes. A mim, ela tinha dispensado a minha companhia, dizendo que, “Lamentava ver-se forçada a manter-me à distância; mas que, até ter notícias de Bessie, e pudesse constatar por si própria que eu me estava a esforçar genuinamente por adquirir modos mais sociáveis e mais próprios de uma criança, ...” (23)
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Lia lenta e pausadamente. Procurou controlar a respiração e, apesar de saber que se ele não fosse cego teria feito muito pior, também sabia que podia fazer muito melhor.
"Emily …"
Parou bruscamente. Pronto, é agora. Agora é que ele viu o erro que cometeu. Estou tramada.

(22) A Divina Comédia - Dante Alighieri; (23) Jane Eyre – Charlotte Brontë

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

MURMÚRIOS DE LISBOA LI

Estepes nos Teus Olhos - Parte V
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Árvores despidas - Jardim Gulbenkian
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Não vejo Vladimir há mais de 3 semanas. O que significa que das duas uma -ou a minha teoria estava certa e Vladimir acabou mesmo por morrer envenenado, ou foi passar o Natal a casa e, neste caso, estará neste momento a contemplar, agora sim, as suas amadas estepes gélidas, em vez de ser ele a derramá-las sobre outros felizardos.
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Presumo que Vladimir aproveite estas visitas para reabastecer o olhar das suas estepes. Consigo imaginá-lo no meio da tundra gelada e branca de neve, uma figura embrulhada em castanho escuro, com um gorro de pele de urso pardo enfiado na cabeça, protegendo-lhe os ouvidos das temperaturas negativas e o seu olhar magnífico, plenamente aberto, a contemplar as suas estepes que se estendem a perder de vista, sem horizonte, sem limites, sem ruído e sem vivalma que perturbe o seu recolhimento.
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Talvez seja por isso que Vladimir mantenha os seus olhos quase sempre semicerrados, para dosear bem o seu abastecimento de estepes, de modo que dure todo o tempo em que é forçado a manter-se afastado delas. E para não desperdiçá-lo em quem não merece.
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Ou talvez seja também porque Vladimir conhece bem o poder dessas estepes e o efeito que elas podem ter sobre um pobre incauto que seja surpreendido por elas sem a mínima preparação para o que o espera.
É que as deslumbrantes estepes geladas que Vladimir derrama sobre qualquer um que as contemple, detêm um poder de atracção irresistível, capaz de viciar irremediavelmente o seu alvo.
Eu sou a prova disso.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

EM BUSCA DE PALAVRAS 3

AVISO: Este post é de leitura interdita a menores de 18 anos ou a pessoas sem o mínimo de bom senso ou senso de humor dentro da tola
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A Melhor Amiga de Um Sniper – Parte II
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A sensação de manusear uma pistola de mais de 1 kg é poderosa, mas também, e por isso mesmo, perigosa.
É simples. Uma pistola nas mãos solta o “monstro” violento que existe dentro de todos nós. Comecei logo a fantasiar entrar no autocarro de manhã, apontar a pistola assim como quem não quer a coisa, à penca do motorista da Carris e dizer com o ar mais displicente deste mundo – “olha lá, não disseste bom dia à velhinha? hãããã?! não ouvi bem! como é que é?!” e coisas assim deste género, tipo na perfumaria com as empregadas de nariz empinado – “Are you talkin’ to me?” e ... etc. Tão a ver o filme, não tão? Uma parvalheira absoluta.

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Quando aprendi a carregar as munições, destravar a segurança, puxar o cão para trás e a corrediça para que a primeira munição entre na câmara (já consigo fazer isto tudo em menos de 10 segundos), sentia-me com vontade de sair disparada e a disparar porta fora, a deslizar por paredes e escadas, qual Clarice Starling em busca de seu Hannibal.
Depois lembrei-me dum pequeno pormenor – eu agora não faço parte dos que estão do lado da lei, tenho que pensar como o mau da fita. E este meu mau da fita tem muito que se lhe diga.
Portanto, peguei na pistola e fartei-me de puxar o gatilho, disparando tiros imaginários para a parede, tentando imaginar o que sente uma pessoa quando tem um objecto mortífero nas mãos e total controlo sobre ele.
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Gosto do som das munições a entrarem no carregador, do click do cão a ser puxado para trás e sobretudo da corrediça a deslizar pelo cano para trás e para a frente com brusquidão. Tchk Crq Tchk Tchk. Sou uma pessoa que não consegue viver sem música e “ouve” ritmos em qualquer objecto (até na máquina de lavar roupa), por isso a pistola para mim também tem um ritmo e eu gostei dele.
O peso também é importante. Se bem que o meu conselheiro de armas me tenha informado que existem hoje em dia pistolas que pesam muito menos do que aquela, nunca tinha pensado neste pequeno pormenor deveras importante – uma arma é pesada e só o seu peso chega para nos “lembrar” que o que temos nas mãos não é nenhuma brincadeira.
Por outro lado, uma arma pode ser a nossa melhor amiga, para um sniper uma arma (neste caso a espingarda) é a sua “menina”, como a guitarra para um guitarrista ou a Harley para um motard.
Encostei, por isso, a Baikal ao rosto (sim, parece uma idiotice, mas o personagem a isso me obriga), senti o cheiro e a pressão fria do aço na minha pele e tentei pensar como ele. Uma arma protege-me (lhe) o coiro, quando meio mundo tem a minha (dele) cabeça a prémio. E, por isso, ela faz parte da minha (dele) identidade, como a mão e o dedo que pressiona o gatilho. A arma passa a ser uma extensão do próprio corpo, faz parte da mão, como um sexto dedo muito especial.
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No final da semana fiquei um tudo nada viciada na Baikal. Sentia-lhe a falta quando não a tinha nas mãos, coisa estranha e completamente nova para mim. Gosto do seu peso e gosto de a preparar para disparar. Gosto da sensação do metal frio na pele e gosto do seu ronronar metálico, agressivo e seguro. Gosto da sensação de poder que me dá. Ma também sei que esta sensação é profundamente enganadora e perigosa, nas mãos erradas e com uma arma carregada.
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Depois foi a vez da Kalashnikov AK 74 ... e bem ... o que posso adiantar é que ter uma espingarda que pesa quase 5 kilos nas mãos é outra história bem diferente ... :)
Por isso, não perca o próximo episódio de “A Melhor Amiga de um Sniper”.
Hasta la vista, baby.

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

OS ANIMAIS DE ANDRÓMEDA

JOANINHA

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As joaninhas são insectos adoráveis à vista, mas o seu aspecto simpático e colorido esconde um apetite voraz, que é muito apreciado pelos agricultores, pois a maioria das joaninhas consome insectos que se alimentam de plantas, ajudando a proteger as colheitas.
As joaninhas põem centenas de ovos nas colónias destes insectos, e assim que as larvas nascem começam imediatam
ente a alimentar-se deles. No final da sua curta vida de 3 a 6 semanas uma joaninha consegue comer cerca de 5.000 insectos.
Existem cerca de 5.000 espécies diferentes de joaninhas e nem todas se alimentam de insectos – algumas também comem plantas, podendo prejudicar algumas culturas.
As pintas pretas e cor encarnada destinam-se a afastar predadores, avisando-os que não possuem um sabor agradável. Este sabor é consequência de um fluído segregado pelas articulações das pernas. Se ameaçada, uma joaninha pode fingir-se morta e/ou segregar essa substância para se proteger.
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Joaninha voa voa
Que o teu pai está em Lisboa
A tua mãe no Moinho
A comer pão com toucinho
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Joaninha voa voa
Que o teu pai está em Lisboa
Com um rabinho de sardinha
Para comer, que mais não tinha

domingo, 16 de dezembro de 2007

EM MINHA CASA, NA PONTA DOS PÉS 14 (cont.)

Capítulo 4 - Wooth?
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Ouviu-a afastar-se na direcção da porta, enquanto se desmanchava outra vez em gargalhadas ao recordar a mesma partida pregada a Clara há uns bons dez anos atrás, quando a tinha forçado sem aviso a ler aquele que era provavelmente o livro mais intragável da história da literatura, diante de um grupo de convidados numa festa de aniversário.
"Clara!", o seu tom imperativo fê-la estacar a milímetros da porta.
"Não te esqueças de lhe dar o recado. E leva as coisas dela. Não a quero ver mais hoje."
Ouviu-a regressar.
"Nem hoje, nem nunca.", murmurou.
Clara pegou nas coisas da rapariga e saiu, carregando-as à distância de meio braço, como se estivessem infestadas de pulgas.
Deixou-o só e atarantado. Pensou se aquele último comentário teria sido propositado. Clara era a mulher mais dura que conhecera em toda a sua vida, mas aquele comentário fora feito com o intuito de magoar até à medula, e ele não lhe conhecera nunca crueldade, muito menos depois do acidente.
Ciúmes? Talvez … Isso significava que ela devia ser bonita, pelo menos.
Regulou a luz para o mínimo com o comando e ficou sentado no escuro até ouvir baterem à porta.
Clara nem lhe deu tempo para falar.
Ouviu a sua voz doce.
"Até amanhã, então."
KGÇLFK
"Shall I compare thee to a summer's day?
(Poderei comparar-te a um dia de verão?)
Thou art more lovely and more temperate.
(És mais bela e mais amena)
Rough winds do shake the darling buds of May,
(Ventos fortes fazem oscilar os doces botões de Maio)
And summer's lease hath all too short a date:
(E o verão dura tão pouco)
Sometime too hot the eye of heaven shines,
(Por vezes, o olho do céu brilha com demasiada intensidade)
And often is his gold complexion dimm'd;
(E não raro se ofusca o seu semblante dourado)
And every fair from fair some time declines,
(E qualquer beleza da beleza acaba sempre por abdicar)
By chance, or nature's changing course, untrimm'd
;
(Por mero acaso, ou pelo destino inconstante)
But thy eternal summer shall not fade
(Mas o teu eterno verão jamais morrerá)
Nor lose possession of that fair thou ow'st;
(Nem perderás o encanto que possuis)
Nor shall Death brag thou wander'st in his shade,
(Nem a morte se há-de vangloriar de vagueares na sua sombra)
When in eternal lines to time thou grow'st:
(Quando em linhas eternas pelo tempo amadureceres)
So long as men can breathe or eyes can see,
(Enquanto o Homem viver e os olhos possam ver)
So long lives this, and this gives life to thee."
(Assim viverá isto e isto te dará vida a ti) (21)
LGKÇLFKG
Virou-se na direcção da janela e ficou ali a tentar imaginar se a doçura da sua voz se estendia ao seu físico.
Wolf veio lamber-lhe a mão, como se pressentisse as preocupações do dono.
"Wolfy … Eu sei que tu gostaste dela. Mas ela vai voltar, não te preocupes."
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(21) Soneto nº 18 - William Shakespeare

sábado, 15 de dezembro de 2007

DDT - Deambulações DeMentes Teóricas 7

Flutuar
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Queria encontrar a Palavra que o definisse, e à sua vida e a tudo o que o rodeava. Uma única palavra, a derradeira. Queria escrever um romance apenas com uma Palavra. A Palavra. A utupia das utupias.
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Mas havia a sua leitora que metia o bedelho em tudo o que fazia, interrompendo-o constantemente com dúvidas existencialistas sobre o rumo que os acontecimentos tomavam e sobre a lógica ou incoerência das suas decisões narrativas. “Mas porquê?” e “Tenho uma dúvida.” Oh senhora! estava farto dos seus porquês! Havia 2 tipos de leitores – os que se deixavam levar pela mão e os que viviam na eterna idade dos porquês, analisando à lupa cada pormenor. Em ambos os casos, não passavam de crianças. Para ler com prazer, é preciso ser-se criança. Mas enquanto os primeiros eram crianças doces e confiáveis, os segundos eram crianças embirrentas e inseguras. “Mas porquê? porquê? porquê? porquê???!!!” Talvez a Palavra que a definisse fosse “Porquê”.
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Mas não encontrava a sua. Estava na segunda metade da sua vida e não conseguia encontrar a sua. E o inconsciente não parava de lhe azucrinar a paciência com os seus insights profundos certeiros e sádicos. Armado em chico esperto. “Eu sei por que escreveste isso dessa forma.” e “Só tu é que não vês o que andas a fazer.”
Deixem-me trabalhar!!! Em tempos um líder odiado havia proferido aquelas 2 palavras que ficaram inscritas no imaginário colectivo de anedotas recorrentes. Como o entendia ... Deixassem-no trabalhar, irra!!!
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Depois havia também o personagem que queria entrar à viva força na história, já! para ontem! “Não, ainda não estás preparado”, repetira-lhe vezes e vezes sem conta. Mas a pobre criatura queria escapulir-se por entre os seus dedos e desenhar-se furiosamente nas linhas da ponta do seu lápis, para ficar ali espalmado eternamente. “Não tenhas medo, não te vou deixar morrer.”, mas o pobre tinha medo de passar por este mundo apenas como uma névoa de pensamento.
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E ela, a a bailarina do 2º andar, cujos passos leves seguia avidamente com um ouvido atento. A bailarina que flutuava no tecto por cima da sua vida, que flutuava no seu olhar, quando se cruzava com ela no vestíbulo, que flutuava no seu pensamento constantemente. Queria escrevê-la, mas não sabia como. Sempre que segurava o lápis entre os dedos e se decidia a escrever uma palavra que fosse, qualquer palavra sobre ela, os dedos pairavam congelados a escassos milímetros da derradeira folha branca e não saía nada. Absolutamente nada.
“Queres aprender a dançar?”, martelava-lhe o inconsciente dentro da cabeça, enquanto o personagem berrava “Nããããããooooo!!! Escreve-me a mim, não a escrevas a ela!!!” e a leitora lhe perguntava pela enésima vez “Mas, tenho uma dúvida. Tem medo de quê?”
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Um dia decidiu-se. Estava farto. Chega! Entrou para dentro do dicionário, percorreu devagar páginas e páginas de palavras, encontrou a que queria e fechou-se lá dentro para sempre. Escolheu a Biblioteca Pública. Ela ia lá muitas vezes. Talvez um dia os seus dedos esguios de bailarina deslizassem até à letra F e o encontrassem. Escolhera a Palavra “Flutuar”. Talvez um dia ela o encontrasse e descobrisse o significado de si própria.
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Flutuar - verbo intransitivo, 1. sustentar-se à superfície de um líquido; boiar; 2. manter-se no ar; pairar; 3. tremular ao vento; ondular; 4. estar indeciso; vacilar; 5. agitar-se; revolver-se.
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inspirado por um personagem que não ata nem desata