
sábado, 5 de janeiro de 2008
sexta-feira, 4 de janeiro de 2008
OS ANIMAIS DE ANDRÓMEDA
F.º~DGF

ÇLGºFÇG
Os lobos são a espécie maior da família dos cães. Os lobos cinzentos são os mais comuns e ocupavam todo o Hemisfério Norte em tempos idos. Mas os lobos e os humanos têm uma longa história de inimizade. Embora quase nunca ataquem humanos, os lobos são considerados por aqueles como dos mais terríveis e assustadores vilões do mundo animal. Para isto contribui e muito o facto de atacarem, sim, animais domésticos, pelo que inúmeros lobos têm sido alvejados, apanhados em armadilhas e envenenados.
Este conflito existente entre o Homem e o Lobo tem fortes raízes que oriundam sobretudo a partir do período medieval, altura em que o lobo começou a possuir a conotação de animal maligno, devorador de homens, mulheres e crianças. As causas desta atitude parecem ter origem, fundamentalmente, na Igreja Católica, que utilizava o lobo como símbolo satânico, animal que punha em causa o rebanho de Deus. A grande religiosidade do povo medieval, fez com que depressa assimilassem esta ideia, dando ao lobo uma dimensão mitológica e sobrenatural, expressa em várias lendas, histórias e crenças, algumas delas ainda hoje vivas em determinadas comunidades.
ÇFLGFºÇ
Os lobos vivem e caçam em grupos entre 6 a 10 animais. Percorrem distâncias de cerca de 20 quilómetros por dia e são extremamente sociais – cooperam na caça das suas presas preferidas – veados de grande porte, corços e javalis. Observam um grupo de presas, rondam-nas tentando pô-las em movimento e desta forma escolhem as mais fracas ou mais lentas. Uma vez escolhida a presa podem rondá-la durante vários dias, tentando enfraquecê-la cada vez mais, física e psicológicamente com a pressão exercida. Quando obtêm êxito não se fazem de rogados e um lobo pode consumir 9 quilos de carne numa única refeição. Também se alimentam de mamíferos pequenos, pássaros, peixe, lagartos, cobras e fruta, porque, ao contrário do que se pensa, a sua taxa de sucesso em caçadas grandes é muito baixa.
O seu olfacto é poderosíssimo, 100 vezes maior do que os humanos.
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As alcateias estão organizadas de acordo com uma hierarquia rígida, com um macho dominante chamado Alfa e a sua companheira. Normalmente apenas este casal procria. Todos os membros adultos da alcateia ajudam a cuidar das pequenas crias, trazendo-lhes alimento e tomando conta delas enquanto os outros caçam. Os lobos comunicam entre si através de um vasto e complexo repertório que inclui marcas de cheiro, vocalizações, expressões faciais, linguagem corporal e rituais. Esta comunicação é realizada muito mais por harmonia e integração do que por agressão ou submissão. Ao contrário do que se possa pensar, os lobos são animais geralmente dóceis, com uma grande aversão por lutas. São necessários laços muito fortes para manter a alcateia unida, como uma família.
çlfdçdlf
Estima-se que na Península Ibérica, sobrevivam apenas cerca de 2000 lobos ibéricos, dos quais 300 em território português.
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Inclino-me perante ti, filho da lua
Que o meu fascínio acaricie a tua figura
És o mais belo de todos que por aqui irão passar
O mais intrigante, nobre e sábio
Venero-te, não tenho pudor de o afirmar
Tocas-me de formas difíceis de explicar
Perdoa todos dos meus que não te souberam respeitar
Perdoa-lhes o medo, o mito, a ignorância
Se um dia a este mundo regressar
A tua pele desejarei experimentar
Não há em mim queda para o cordeiro
Sou loba, solitária, sem alcateia
Em perseguição da palavra derradeira
Tu és o que eu sinto nas entranhas
És tu nas minhas formas mais estranhas
Como tu, tacteio e vagueio na noite
Só quem como eu pode entender
A alma de lobo que uiva no meu ser
quinta-feira, 3 de janeiro de 2008
MURMÚRIOS DE LISBOA LII
Veste sempre umas calças bejes e um blaser verde tropa com botões e bolsos e zipper firmemente apertado até ao pescoço. Como se lá dentro tivesse um arsenal de explosivos prontos a serem accionados a qualquer momento, e por isso lhe chamo o Bombista Suicida.
Os olhos dele são castanhos opacos e sempre fixos numa qualquer ideia, a sua expressão demasiado grave e madura para alguém com não mais que 25 anos, e por isso lhe chamo o Bombista Suicida.
Senta-se sempre lá para trás, invariavelmente num dos bancos virados ao contrário, como se até no lugar onde se senta tivesse que ser revolucionário, e por isso lhe chamo o Bombista Suicida.
Já esteve sentado ao meu lado e se estivéssemos em Telaviv ou em Jerusalém e não em Lisboa, eu teria com toda a certeza saído disparada na próxima paragem depois de ele ter entrado, com medo de ir pelos ares juntamente consigo.
Mas não. Estamos em Lisboa e por isso permaneço. Estamos em Lisboa e por isso admito que o rapaz pense noutras coisas graves, que não em problemas fronteiriços na Faixa de Gaza, a morte do lendário Arafat ou a brutalidade cada vez mais incontrolável do exército israelita.
Estamos em Lisboa e por isso admito que o rapaz tenha apenas frio e goste de se sentir completamente abotoado até ao pescoço para se proteger de resfriados mais violentos.
Estamos em Lisboa e por isso admito que use barba porque lhe apetece, porque não tem pachorra para a fazer todos os dias, porque lhe dê gozo ser diferente.
Estamos em Lisboa e por isso o rapaz apenas provoca alguns olhares curiosos.
Porque se estivéssemos em Jerusalém, esta história seria totalmente diferente – este rapaz seria um Bombista Suicida de não mais que 25 anos, olhar duro e fixo num único objectivo, cabeça feita e “lavada” por fundamentalistas, com um único pensamento dentro dela – vou rebentar com esta porra toda, sacrificar-me em nome de Alá, desintegrar-me em 60 biliões de pedacinhos e flutuar até ao reino dos céus onde terei 60 virgens à minha espera.
É certo que uma coisa partilham em comum o rapaz da barba e o seu homónimo Bombista Suicida do outro lado do mundo – qualquer um deles sonha de vez em quando com 60 virgens e os 60 biliões de posições possíveis de praticar com elas ...
quarta-feira, 2 de janeiro de 2008
EM MINHA CASA, NA PONTA DOS PÉS 17 (cont.)
De vez em quando, John dava-lhe conselhos:
"Mais lento, aprenda a controlar a voz. Respire. Não se esqueça de respirar." ou "Mais rápido. Daqui a nada estou a dormir. Contratei uma leitora ou um sudoríparo ambulante?"
"Use a versatilidade da sua voz. Explore-a. Faça-a fazer coisas que acha que não consegue."
Os comentários eram subtilmente elogiosos e Emily correspondia com satisfação. Habituava-se também ao seu sarcasmo, que descobriu traduzir um sentido de humor muito particular.
Por vezes, fechava os olhos e seguia o conselho dele. Tentava andar pela casa, tomar banho, arranjar-se de manhã às escuras.
Não gostava do escuro. Como seria se fosse subitamente forçada a viver o resto da sua vida na escuridão absoluta? Era um pensamento inconcebível para ela, claro. Mas como seria se atravessasse um dia a rua e fosse atropelada e acordasse no outro dia no hospital num abismo impenetrável?
Um dia Amanda apanhou-a a escrever no teclado de olhos fechados.
"Emily …"
Saltou na cadeira.
"Sentes-te bem?"
"Sim …"
Amanda afastou-se no seu passinho de gueixa inchada e Emily não conteve um sorriso de menina apanhada com um caramelo na boca.
Que estupidez. O que é que andas a fazer, Emily?
A tentar percebê-lo …
dkçk
" À noite toquei-te e senti-te
sem que a minha mão fugisse para lá de minha mão,
sem que meu corpo fugisse, ou meus ouvidos:
de um modo quase humano
senti-te.
çdlºçld
A pulsar,
Não sei se como sangue ou como nuvem
Errante,
Em minha casa, na ponta dos pés, escuridão que sobe,
Escuridão que desce, cintilante, correste.
çlkçd
Correste por minha casa de madeira,
E abriste as janelas,
E senti pulsar a noite toda,
Filha dos abismos, silenciosa,
Guerreira tão terrível e tão bela,
Que tudo quanto existe,
Sem tua chama, não existiria para mim." (26)
lkçld
John revelara-se uma espécie de curso de voz. Ao fim de um mês podia afirmar que se sentia bem na sua companhia, apesar de, ou se calhar por isso mesmo, terem trocado pouco mais que as saudações diárias que as regras da boa educação ditavam. Esta convivência cordial mas fria deixava-a muito mais segura do que se ele tivesse querido alargar as leituras a uma conversa de circunstância vazia, e que apenas teria servido para a deixar incomodada. Desta forma, limitava-se a ler o que lhe era indicado, reler certas passagens que por vezes ele lhe pedia para repetir e ouvir as suas correcções atentamente, tentando alterar o tom da voz, a entoação, a respiração e outros pormenores sugeridos.
Sentia que fizera progressos, mas também sabia que só conseguiria ler como lia na sua presença. Era como se ele fosse o guardião da sua voz.
E um dia surpreendeu-a.
"Vou-lhe mostrar uma coisa."
terça-feira, 1 de janeiro de 2008
MAGIC MOMENTS 22
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Eu chamo-lhe o Mozart do século XX. Há quem lhe chame outras coisas menos simpáticas ... Ele próprio desistiu do seu nome, por causa duma querela com uma grande editora e passou a chamar-se um símbolo. Para o registo, passaram a chamá-lo The Artist Former Known as Prince (O Artista Anteriormente Conhecido Como Prince). Actualmente, findo o contrato com a dita editora, Prince voltou a ser Prince. O génio, esse, sempre permaneceu lá.
ºçglfçg
fkgçlf g
Oh yeah
In France a skinny man
Died of a big disease with a little name
By chance his girlfriend came across a needle
And soon she did the same
At home there are seventeen-year-old boys
And their idea of fun
Is being in a gang called the disciples
High on crack, totin a machine gun
çlgºçfg
Time, time
çlgºçlf
Hurricane Annie ripped the ceiling of a church
And killed everyone inside
U turn on the telly and every other story
Is tellin u somebody died
Sister killed her baby cuz she couldn't afford 2 feed it
And we're sending people 2 the moon
In september my cousin tried reefer 4 the very first time
Now hes doing horse, its june
çflgºçflg
Times, times
gçlfg
Its silly, no? When a rocket ship explodes
And everybody still wants 2 fly
Some say a man aint happy
Unless a man truly dies
Oh why
çgkfçlg
Time, time
fçlgfºçlg
Baby make a speech, star wars fly
Neighbors just shine it on
But if a night falls and a bomb falls
Will anybody see the dawn
çfºlgºçfl
Time, times
fçlgfºçlg
Its silly, no? When a rocket blows
And everybody still wants 2 fly
Some say a man aint happy, truly
Until a man truly dies
Oh why, oh why, sign o the times
çfgfçl
Time, time
çfgllºçf
Sign o the times mess with your mind
Hurry before its 2 late
Lets fall in love, get married, have a baby
Well call him Nate... if its a boy
çlgfºçfdl
Time, time
Time, time
lfçld
Pese embora o ridículo que é traduzir letras de músicas, esta exige-o:
Em França um homem esquálido morreu de uma grande doença com um nome pequeno
Por acaso a sua namorada encontrou uma agulha e em breve fez o mesmo
Nos EUA há miúdos de 17 anos cuja ideia de diversão é pertencerem a um gang chamado Os Discípulos, chutarem-se com crack e dispararem uma metralhadora
O furacão Annie arrancou o telhado de uma igreja e matou toda a gente lá dentro
Ligas a televisão e quase todas as notícias te dizem que alguém morreu
A rapariga matou o bebé porque não tinha dinheiro para lhe dar de comer e andamos a mandar pessoas à lua
Em Setembro o meu primo experimentou erva pela primeira vez, agora anda no "cavalo", é Junho
Não é absurdo? Quando um foguetão explode e toda a gente ainda quer voar
Alguns dizem que um homem não está contente enquanto um homem não morrer
Porquê?
Alguém faz um discurso, voam guerras de estrelas
Os vizinhos limitam-se a olhar para aquilo a brilhar
Mas se uma noite cair e uma bomba cair
Alguém verá a alvorada?
Os sinais dos tempos lixam-nos a cabeça
Apressa-te antes que seja tarde
Vamos apaixonar-nos, casar, ter um bebé
Chamamos-lhe Nate se for rapaz
segunda-feira, 31 de dezembro de 2007
domingo, 30 de dezembro de 2007
PALAVRAS EMPRESTADAS 32

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sábado, 29 de dezembro de 2007
EM BUSCA DE PALAVRAS 4

Fiquei a olhar admirada para a versão modernizada da AK 47, a lendária espingarda soviética, e a primeira reacção que tive foi “É tão levezinha!?”
É claro que assim que peguei nela percebi quão enganador o seu aspecto elegante e aerodinâmico podia ser. Os dois braços foram imediatamente abaixo e desatei a rir. “Chiça! Isto é pesado como ó caraças!” E é pesada - são cerca de 4 quilos.
Primeira conclusão: já tinha pensado que o meu sniper tinha que fazer exercício para conseguir manter-se quieto e preparado durante horas no mesmo local e na mesma posição; agora tinha a certeza que ele tinha mesmo que fazer exercício para conseguir carregar com uma “menina” semelhante nos braços.
Segunda conclusão: tinha nas mãos uma obra-de-arte mortífera e elegante, quase mística.
Terceira conclusão: uma espingarda oferece sensações totalmente diferentes de uma simples pistola, ainda para mais uma espingarda deste tipo – é outro mundo, é outra pessoa, é outra “cena” tout court.
Quarta conclusão: se uma pistola pode servir para qualquer um manusear, uma espingarda deve ser manuseada por um “artista”, seja o que for que se queira entender por "artista" - alguém que compreende e respeita o que tem nas mãos.
Quinta conclusão: a relação que se estabelece com este tipo de espingarda é completamente diferente da que a pistola permite de imediato – a espingarda é como um gato, não se deixa conquistar imediatamente, não se deixa conhecer assim sem mais nem menos, é quase como se nos dissesse: “podes ver, tocar, sentir, manejar-me, até disparar-me, porventura poderás até desmontar-me e examinar as minhas entranhas cirurgicamente, mas passará muito tempo até que eu te deixe sentires-me parte de ti”.
Estarei louca? Serei absurda? Não, estou a incorporar um personagem. O que me leva à
Sexta Conclusão: ...
Hasta la vista, baby.
sexta-feira, 28 de dezembro de 2007
OS ANIMAIS DE ANDRÓMEDA
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quinta-feira, 27 de dezembro de 2007
PLIM! XII (Palavras Loucamente IluMinadas)
quarta-feira, 26 de dezembro de 2007
EM MINHA CASA, NA PONTA DOS PÉS 16 (cont.)
Emily ficou a olhar para ele durante uns momentos. Depois uma dúvida absurda assaltou-lhe o espírito. Baixou os olhos. Por brevíssimos segundos teve a certeza que a sua dúvida não era um absurdo, mas uma realidade. Ele conseguia vê-la. A bola de pêlo lambeu-lhe a mão. Ele conseguia vê-la por trás dos óculos escuros e aquela história da cegueira não passava de um estratagema qualquer. Provavelmente também se podia mexer …
"Emily … Eu sou mesmo cego, não se preocupe. Escusado será dizer que também sou paralítico, caso esteja a duvidar disso também. Se quiser peça à Clara para lhe mostrar a minha ficha médica."
Os olhos de Emily começaram a abrir-se muito.
"Mas como …", assim que proferiu estas palavras arrependeu-se imediatamente. Estúpida! Estúpida! Assim ele vai perceber que acertou em cheio.
"É simples. Experimente fechar os olhos durante um dia inteiro e fazer a sua vida normal. Vai perceber muita coisa que esses lindos olhinhos (não duvido que sejam lindos) não conseguem.", apesar do discurso que acabara de ser proferido ser perfeitamente lógico e coerente, perpassava pelas suas palavras um subtil tom irónico que a deixava desconfortável e desconfiada.
Abriu a boca, não sabia se para dizer alguma coisa, se para respirar, porque de súbito apercebeu-se que se esquecera de respirar desde o instante em que ele começara a falar.
"Por exemplo", continuou ele, "mais um pouco e você ficava sem fôlego agora mesmo. Percebe? Eu ouço-a. Eu ouço-a muito bem. Se eu lhe dissesse o que é que já consegui ouvir-lhe, você provavelmente assustava-se. Ou pensa que só porque não vejo não a consigo 'ver'?"
Emily continuou calada. A respiração suspensa, sem saber o que pensar ou sentir. Pensou se não estaria a enlouquecer e sentiu um alívio tremendo ao mesmo tempo. Ironicamente, ficou aliviada com o facto de ter a sensação estranha que não precisava de lhe explicar nada porque ele percebia tudo, mesmo aquilo que ela não conseguia, não queria ou não sabia dizer. Como por que motivo esse preciso pensamento lhe parecia tão lógico, apesar de o conhecer há apenas dois dias e de não fazer a mínima ideia com que espécie de pessoa estava a lidar.
"Continue. E lembre-se - eu não estou cá. Saí. Fui dar uma volta no meu carro.", foi a resposta.
A bola de pêlo lambeu-a novamente. E interpretando isso como um incentivo, retomou a leitura, desta vez um pouco mais segura.
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"uns modos mais atractivos e agradáveis - algo mais leve, mais franco, mais natural - até lá teria realmente de me excluir dos privilégios destinados a crianças felizes e satisfeitas.'
Ao princípio foi difícil. Mas bastava ele pronunciar o seu nome para ela perceber a chamada de atenção. Lentamente foi-se soltando. No final da semana já conseguia ler uma página inteira sem se lembrar constantemente de que ele estava lá. John contribuía para isso permanencendo absolutamente silencioso no seu canto escuro. E as lambidelas de Wolf encorajavam-na. Parecia-lhe que o cão lhe dizia "Continua, Emily. Estamos a gostar."
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“Um novo capítulo num romance assemelha-se a uma nova cena numa peça; e quando, leitor, eu levantar a cortina desta vez - deve imaginar que observa uma sala na Estalagem George em Millcote, com o mesmo papel de parede decorado com figuras grandes, que as estalagens costumam ter; com uma carpete semelhante, mobília semelhante, bibelots e quadros semelhantes - incluindo um retrato de Jorge III e um outro do Príncipe de Gales, e uma representação da morte, de Wolfe. Tudo isto é-lhe visível através da luz de uma lamparina de óleo pendurada do tecto e de um excelente lume, perto de cuja lareira eu estou sentada, embrulhada na minha capa e no meu gorro; o meu regalo e guarda-chuva repousam sobre a mesa e estou a aquecer o frio e a dormência contraídos durante dezasseis horas de exposição às intempéries de um dia de Outubro: abandonei Lowton às quatro da madrugada e o relógio da vila de Millcote está neste momento a bater as oito da noite.
segunda-feira, 24 de dezembro de 2007
Feliz Natal
Happy Xmas
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domingo, 23 de dezembro de 2007
PALAVRAS EMPRESTADAS 31
sábado, 22 de dezembro de 2007
PALAVRAS ESTÚPIDAS 6
lkçlfkg
Não consigo esconder mais este segredo horrível que cresce dentro de mim de dia para dia e que ameaça invadir-me as células todas do meu corpo, do meu cérebro e do meu coração. Caraaaaaaaaaaaaaaças! Não posso esconder mais isto! Não aguento maaaaaaaaaaaais! Vou confessar! Pronto! Eu gosto do Tony Carreira!
Uffffff!!!!! Pronto. Fuiuuuuuuu!!!!!
Agora sim, estou aliviada. Libertei este segredo terrível que vivia dentro de mim há meses. E agora que libertei este grito de amor, agora sim posso dissecar esta terrível paixão, com os neurónios que me restam e que ainda não foram atacados pela febre Tony.
ºfgçlf
O homem é foleiro? Sim, é! E eu não gosto de coisas foleiras, caraças!
O homem é lindo de morrer? Não, até nem é! E até tem assim um bocado cara de parvo!
O homem tem uma voz fantástica? Não, a voz dele não é nada de especial!
O homem veste bem? Não, caraças, que até nem isso é nada de extraordinário!
O homem tem um corpo musculado que faça calores? Não, caramba, que aquilo é uma pileca!
As letras das canções pimba do homem são poemas extraordinários? Não, raios parta que não são, é vira o disco e toca o mesmo Marco Paulo de sempre!
Então, senhores! expliquem-me porquêêêêêêêêêê????!!!!!
Expliquem-me porque é que cada vez que ouço alguém dizer o nome dele na televisão, páro tudo o que estou a fazer e fico feita estúpida, a olhar para o Tony, com meio sorriso na cara e um pingo de baba a escorrer-me pela beiça abaixo?
Hããããããnnnnn????!!!! Porquê, carago????!!!! Mas porquêêêêêêê???!!!!!!
(suspiroooooooooooooooooo enorme desconsolado)
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Toc Toc Toc Posso?
Sim? Quem é você?
Sou a tua parte emocional.
E o que queres?
Quero explicar-te o Mistério Tony.
Faxavor de dizer. Porque eu tou em branco ...
A menina gosta do Tony por 3 motivos. O Tony tem algo.
Algo?
Sim, algo, algo que a atrai.
E que é?
Sinceridade, humildade e amor pelo que faz.
Isso explica a baba a escorrer da boca?
Explica. Há algo de muito sexy nessas três características, caso não saiba.
Ah pronto. Muito agradecida.
Não tem de quê. E outra coisa.
Sim?
Não se preocupe, minha cara. Não é a única mulher neste país a ser afectada pela Febre Tony. 99,9% das mulheres já apanharam a febre. E até os homens já estão a ser afectados também.
Fico mais descansada.
E agora vá lá ouvir o Tony.
Mas baixinho ... para os vizinhos não perceberem que eu gosto dele ...
Não se preocupe, já lhe disse. Os vizinhos também o adoram.
Pois é! Que felicidade! Posso ouvir Tony Carreira em altos berros!!!!!!
g3ºf+3g
Toc Toc Toc
Sim, quem é agora?
Somos a sua parte racional, erudita, intelectual e de bom gosto.
E o que querem?
Também não abuse, se faz favor ... Contenha-se! Tony assim de vez em quando, como quem não quer a coisa, muito bem. Agora uma decisão consciente de ouvir Tony???!!!!!
Pronto, pronto, tá bem ... já cá não está quem falou ...
(suspiro...........................)

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007
EM MINHA CASA, NA PONTA DOS PÉS 15 (cont.)
Capítulo 5. CORRESTE POR MINHA CASA DE MADEIRA
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"Por mim vai-se à cidade que é dolente,
por mim se vai até à eterna dor,
por mim se vai entre a perdida gente.
Moveu justiça o meu supremo autor:
Divina potestade fez-me e tais
A suma sapiência, o primo amor.
Antes de mim não houve cousas mais
do que as eternas e eu eterna duro.
Deixei toda a esperança, vós que entrais.
Estas palavras em letreiro escuro
Escritas vi por cima de uma porta;
E disse: 'Mestre, o seu sentido é duro.' " (22)
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Emily voltou, claro. Pensou no pai, no namorado e nos amigos, tão distantes do que queria para a sua vida. Pensou em Amanda, lambuzada todos os dias por decadentes catedráticos babados e arrogantes universitários entezados. E concluiu que valia a pena sofrer todas as humilhações, se isso lhe permitisse percorrer os corredores da biblioteca com a cabeça bem levantada e um sorriso nos lábios.
"Ouvi dizer que é leitora particular do milionário Johann Strat.", pigarreou o vetusto professor de Literatura por cima do seu ombro, uma tarde.
Emily confirmou com o silêncio de um aceno de cabeça e de um par de sobrancelhas arqueadas, por trás dos óculos que comprara para fingir uma miopia inexistente, mas sedutora.
"Pobre coitado. Com tanto dinheiro e atirado para um canto, sem esperança alguma de recuperação. Se quiser …", pigarreou novamente, e Emily notou que ele desviara os olhos por um segundo para o seu decote, "… posso sugerir-lhe algumas leituras."
Compôs o seu melhor sorriso e atirou-lhe uma bofetada de luva branca:
"Não é necessário, professor. Ele aprovou integralmente o programa de leituras que lhe propus. Mas, de qualquer das maneiras, muito obrigada."
E afastou-se lentamente, fingindo consultar o seu bloco, enquanto se dava ao luxo de bambolear as ancas que não tinha na tromba do outro.
Começava a constatar que o poder atraía. E que gostava dessa sensação.
Hoje a Nº 5 trazia um tailleur verde claro aos quadrados. Aquela mulher devia ter uma comissão na Chanel.
"Boa tarde, Sra. Sutherland."
Assim que entrou na sala e depois de ter sido anunciada, Emily balbuciou:
"Queria-lhe pedir desculpa pelo que lhe disse ontem …"
Ele estava junto à janela, como das outras vezes. A bola de pêlo saltitou na sua direcção e empoleirou-se nas suas pernas, como no dia anterior. Emily afagou-lhe o cocuruto, procurando algum conforto e empatia para si própria nesse gesto de carinho oferecido e o animal enlouqueceu. Começou a arfar com a língua de fora e a cauda a abanar freneticamente, o que lhe deu vontade de rir, mas conteve-se. Não era de bom tom soltar uma gargalhada naquele momento, com toda a certeza.
Ele farejou-a e apontou com o queixo para um livro pousado em cima da mesa, ignorando o seu pedido de desculpas.
"Quando quiser, pode começar. Do início."
Emily não soube como reagir. Se insistisse, poderia parecer que o seu pedido de desculpas se destinava apenas a provocar nele uma reacção qualquer e isso soaria a hipocrisia. Decidiu não acrescentar mais nada.
Aproximou-se lentamente e leu em voz alta, como se isso pudesse constituir uma estratégia de defesa:
"Jane Eyre – Charlotte Brontë"
Suspirou fundo, sem se preocupar se o suspiro fora audível. Adorava aquele livro. Pegou nele e sentou-se. A bola de pêlo saltou-lhe para o colo.
"Wolf!", John bateu na varinha mágica com a mão duas vezes. Mas a bola de pêlo hesitou.
"Ele não me incomoda. Se é por causa disso …"
John permaneceu silencioso, como se acentisse e ela abriu o livro sobre o dorso do setter. Começou a ler:
çlfºçdlf
"Capítulo I
Não havia possibilidade alguma de dar um passeio naquele dia. Tinhamos vagueado, de facto, no pomar despido durante uma hora nessa manhã; mas desde o jantar (Mrs. Reed, quando não havia convidados, jantava cedo) que o frio inverno trouxera consigo nuvens tão sombrias e uma chuva tão penetrante, que qualquer actividade física no exterior estava agora fora de questão.
Isso agradava-me; nunca apreciei longos passeios, especialmente em tardes frias: temia regressar a casa no crepúsculo cru, com dedos das mãos e dos pés enregelados e um coração entristecido pelos ralhetes de Bessie, a ama, e tornado humilde pela consciência da minha inferioridade física em comparação com Eliza, John e Georgiana Reed. Os ditos Eliza, John e Georgiana estavam agora reunidos em redor da sua mãezinha na sala de desenho: ela encontrava-se recostada num sofá perto da lareira e os seus queridos (de momento sem brigarem ou chorarem) pareciam perfeitamente felizes. A mim, ela tinha dispensado a minha companhia, dizendo que, “Lamentava ver-se forçada a manter-me à distância; mas que, até ter notícias de Bessie, e pudesse constatar por si própria que eu me estava a esforçar genuinamente por adquirir modos mais sociáveis e mais próprios de uma criança, ...” (23)
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Lia lenta e pausadamente. Procurou controlar a respiração e, apesar de saber que se ele não fosse cego teria feito muito pior, também sabia que podia fazer muito melhor.
"Emily …"
Parou bruscamente. Pronto, é agora. Agora é que ele viu o erro que cometeu. Estou tramada.
(22) A Divina Comédia - Dante Alighieri; (23) Jane Eyre – Charlotte Brontë
quinta-feira, 20 de dezembro de 2007
MURMÚRIOS DE LISBOA LI

Árvores despidas - Jardim Gulbenkian
quarta-feira, 19 de dezembro de 2007
EM BUSCA DE PALAVRAS 3
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A Melhor Amiga de Um Sniper – Parte II
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É simples. Uma pistola nas mãos solta o “monstro” violento que existe dentro de todos nós. Comecei logo a fantasiar entrar no autocarro de manhã, apontar a pistola assim como quem não quer a coisa, à penca do motorista da Carris e dizer com o ar mais displicente deste mundo – “olha lá, não disseste bom dia à velhinha? hãããã?! não ouvi bem! como é que é?!” e coisas assim deste género, tipo na perfumaria com as empregadas de nariz empinado – “Are you talkin’ to me?” e ... etc. Tão a ver o filme, não tão? Uma parvalheira absoluta.
Quando aprendi a carregar as munições, destravar a segurança, puxar o cão para trás e a corrediça para que a primeira munição entre na câmara (já consigo fazer isto tudo em menos de 10 segundos), sentia-me com vontade de sair disparada e a disparar porta fora, a deslizar por paredes e escadas, qual Clarice Starling em busca de seu Hannibal.
Depois lembrei-me dum pequeno pormenor – eu agora não faço parte dos que estão do lado da lei, tenho que pensar como o mau da fita. E este meu mau da fita tem muito que se lhe diga.
Portanto, peguei na pistola e fartei-me de puxar o gatilho, disparando tiros imaginários para a parede, tentando imaginar o que sente uma pessoa quando tem um objecto mortífero nas mãos e total controlo sobre ele.
Gosto do som das munições a entrarem no carregador, do click do cão a ser puxado para trás e sobretudo da corrediça a deslizar pelo cano para trás e para a frente com brusquidão. Tchk Crq Tchk Tchk. Sou uma pessoa que não consegue viver sem música e “ouve” ritmos em qualquer objecto (até na máquina de lavar roupa), por isso a pistola para mim também tem um ritmo e eu gostei dele.
O peso também é importante. Se bem que o meu conselheiro de armas me tenha informado que existem hoje em dia pistolas que pesam muito menos do que aquela, nunca tinha pensado neste pequeno pormenor deveras importante – uma arma é pesada e só o seu peso chega para nos “lembrar” que o que temos nas mãos não é nenhuma brincadeira.
Por outro lado, uma arma pode ser a nossa melhor amiga, para um sniper uma arma (neste caso a espingarda) é a sua “menina”, como a guitarra para um guitarrista ou a Harley para um motard.
Encostei, por isso, a Baikal ao rosto (sim, parece uma idiotice, mas o personagem a isso me obriga), senti o cheiro e a pressão fria do aço na minha pele e tentei pensar como ele. Uma arma protege-me (lhe) o coiro, quando meio mundo tem a minha (dele) cabeça a prémio. E, por isso, ela faz parte da minha (dele) identidade, como a mão e o dedo que pressiona o gatilho. A arma passa a ser uma extensão do próprio corpo, faz parte da mão, como um sexto dedo muito especial.
No final da semana fiquei um tudo nada viciada na Baikal. Sentia-lhe a falta quando não a tinha nas mãos, coisa estranha e completamente nova para mim. Gosto do seu peso e gosto de a preparar para disparar. Gosto da sensação do metal frio na pele e gosto do seu ronronar metálico, agressivo e seguro. Gosto da sensação de poder que me dá. Ma também sei que esta sensação é profundamente enganadora e perigosa, nas mãos erradas e com uma arma carregada.
Depois foi a vez da Kalashnikov AK 74 ... e bem ... o que posso adiantar é que ter uma espingarda que pesa quase 5 kilos nas mãos é outra história bem diferente ... :)
Por isso, não perca o próximo episódio de “A Melhor Amiga de um Sniper”.
terça-feira, 18 de dezembro de 2007
OS ANIMAIS DE ANDRÓMEDA

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As joaninhas põem centenas de ovos nas colónias destes insectos, e assim que as larvas nascem começam imediatamente a alimentar-se deles. No final da sua curta vida de 3 a 6 semanas uma joaninha consegue comer cerca de 5.000 insectos.
Existem cerca de 5.000 espécies diferentes de joaninhas e nem todas se alimentam de insectos – algumas também comem plantas, podendo prejudicar algumas culturas.
As pintas pretas e cor encarnada destinam-se a afastar predadores, avisando-os que não possuem um sabor agradável. Este sabor é consequência de um fluído segregado pelas articulações das pernas. Se ameaçada, uma joaninha pode fingir-se morta e/ou segregar essa substância para se proteger.
domingo, 16 de dezembro de 2007
EM MINHA CASA, NA PONTA DOS PÉS 14 (cont.)
"Clara!", o seu tom imperativo fê-la estacar a milímetros da porta.
"Não te esqueças de lhe dar o recado. E leva as coisas dela. Não a quero ver mais hoje."
Ouviu-a regressar.
"Nem hoje, nem nunca.", murmurou.
Clara pegou nas coisas da rapariga e saiu, carregando-as à distância de meio braço, como se estivessem infestadas de pulgas.
Deixou-o só e atarantado. Pensou se aquele último comentário teria sido propositado. Clara era a mulher mais dura que conhecera em toda a sua vida, mas aquele comentário fora feito com o intuito de magoar até à medula, e ele não lhe conhecera nunca crueldade, muito menos depois do acidente.
Ciúmes? Talvez … Isso significava que ela devia ser bonita, pelo menos.
Regulou a luz para o mínimo com o comando e ficou sentado no escuro até ouvir baterem à porta.
Clara nem lhe deu tempo para falar.
Ouviu a sua voz doce.
"Até amanhã, então."
KGÇLFK
"Shall I compare thee to a summer's day?
Thou art more lovely and more temperate.
Rough winds do shake the darling buds of May,
And summer's lease hath all too short a date:
Sometime too hot the eye of heaven shines,
And often is his gold complexion dimm'd;
And every fair from fair some time declines,
By chance, or nature's changing course, untrimm'd;
But thy eternal summer shall not fade
Nor lose possession of that fair thou ow'st;
LGKÇLFKG
Virou-se na direcção da janela e ficou ali a tentar imaginar se a doçura da sua voz se estendia ao seu físico.
Wolf veio lamber-lhe a mão, como se pressentisse as preocupações do dono.
"Wolfy … Eu sei que tu gostaste dela. Mas ela vai voltar, não te preocupes."
sábado, 15 de dezembro de 2007
DDT - Deambulações DeMentes Teóricas 7
Mas havia a sua leitora que metia o bedelho em tudo o que fazia, interrompendo-o constantemente com dúvidas existencialistas sobre o rumo que os acontecimentos tomavam e sobre a lógica ou incoerência das suas decisões narrativas. “Mas porquê?” e “Tenho uma dúvida.” Oh senhora! estava farto dos seus porquês! Havia 2 tipos de leitores – os que se deixavam levar pela mão e os que viviam na eterna idade dos porquês, analisando à lupa cada pormenor. Em ambos os casos, não passavam de crianças. Para ler com prazer, é preciso ser-se criança. Mas enquanto os primeiros eram crianças doces e confiáveis, os segundos eram crianças embirrentas e inseguras. “Mas porquê? porquê? porquê? porquê???!!!” Talvez a Palavra que a definisse fosse “Porquê”.
Mas não encontrava a sua. Estava na segunda metade da sua vida e não conseguia encontrar a sua. E o inconsciente não parava de lhe azucrinar a paciência com os seus insights profundos certeiros e sádicos. Armado em chico esperto. “Eu sei por que escreveste isso dessa forma.” e “Só tu é que não vês o que andas a fazer.”
Deixem-me trabalhar!!! Em tempos um líder odiado havia proferido aquelas 2 palavras que ficaram inscritas no imaginário colectivo de anedotas recorrentes. Como o entendia ... Deixassem-no trabalhar, irra!!!
Depois havia também o personagem que queria entrar à viva força na história, já! para ontem! “Não, ainda não estás preparado”, repetira-lhe vezes e vezes sem conta. Mas a pobre criatura queria escapulir-se por entre os seus dedos e desenhar-se furiosamente nas linhas da ponta do seu lápis, para ficar ali espalmado eternamente. “Não tenhas medo, não te vou deixar morrer.”, mas o pobre tinha medo de passar por este mundo apenas como uma névoa de pensamento.
E ela, a a bailarina do 2º andar, cujos passos leves seguia avidamente com um ouvido atento. A bailarina que flutuava no tecto por cima da sua vida, que flutuava no seu olhar, quando se cruzava com ela no vestíbulo, que flutuava no seu pensamento constantemente. Queria escrevê-la, mas não sabia como. Sempre que segurava o lápis entre os dedos e se decidia a escrever uma palavra que fosse, qualquer palavra sobre ela, os dedos pairavam congelados a escassos milímetros da derradeira folha branca e não saía nada. Absolutamente nada.
“Queres aprender a dançar?”, martelava-lhe o inconsciente dentro da cabeça, enquanto o personagem berrava “Nããããããooooo!!! Escreve-me a mim, não a escrevas a ela!!!” e a leitora lhe perguntava pela enésima vez “Mas, tenho uma dúvida. Tem medo de quê?”
Flutuar - verbo intransitivo, 1. sustentar-se à superfície de um líquido; boiar; 2. manter-se no ar; pairar; 3. tremular ao vento; ondular; 4. estar indeciso; vacilar; 5. agitar-se; revolver-se.

