domingo, 17 de novembro de 2013

MURMÚRIOS DO MUNDO III

Coffee
 
Naquela primeira manhã em Nova Iorque, quando desci do Empire State Building pela quinta vez na minha vida, estava de tal forma ebuliente, que estava decidida a fazer uma coisa que julgava já não ser capaz. Acabei por não a fazer por culpa de Coffee.
Quando chegamos lá acima, ao topo do mundo, depois de abraçarmos aquela vista extraordinária, sentimo-nos com asas para voar, o coração cheio de ... qualquer coisa inexplicável. Desta vez vieram-me mesmo as lágrimas aos olhos, especialmente quando olhei lá para o fundo e em vez das 2 torres avistei apenas a única nova torre chamada Liberty. Os americanos, na sua maravilhosa e invejável mania de chamarem os bois pelos nomes e darem-lhes desígnios sistematicamemente superáveis, tiveram a lata (que para eles não é lata nenhuma, é uma coisa normalíssima) de nomear a nova torre nascida das cinzas literais das suas irmãs gémeas tragicamente desaparecidas, Liberdade. Como a nobre e lindíssima senhora que dá as boas-vindas a todos os viajantes empunhando orgulhosamente a sua tocha no céu mais azul do mundo, a nova torre chama-se Liberty porque eles querem esfregar na cara dos seus inimigos a sua incomensurável e inultrapassável e infindável sede de vida e de sonho e de impossível.
É por isso que gosto dos americanos. Imenso. Têm virtudes destas, estupidamente apaixonantes, fantásticas, brilhantes, ingénuas.
Encontrei-o no quarteirão a seguir ao Empire. Tinha decidido descer tudo até lá abaixo, precisamente para ir visitar o Ground Zero. Para mim, neste momento da minha vida, é algo que já não faço com facilidade. Depois das 6 sessões de quimioterapia e das 33 sessões de radioterapia que levei há 4 anos atrás, depois dos medicamentos que estou a tomar para me colocarem em menopausa precoce, um dos efeitos sencundários inevitáveis é que o meu corpo já não é o que era. Estou, a palavra que se me ocorre, é espremida. Mas não é bem isto. Os meus músculos estão arrasados. Os meus ossos também. É como se, eu que era tão elástica e flexível, é como se nunca tivesse dançado na vida, raios, é como se nunca tivesse feito exercício nenhum na vida. Estou uma sombra do que era. Ou, pelo menos as minhas células estão. Até os neurónios foram afectados. A memória já não é o que era. Do quarto para a cozinha esqueço-me completamente do que ia fazer.
Mas naquela manhã radiosa de Setembro, o meu primeiro dia em Nova Iorque sozinha, estava tão entusiasmada, não, a palavra é mesmo feliz, FELIZ, que decidira andar aquilo tudo até lá abaixo. Entretanto abordei o Coffee para lhe perguntar se estava a ir na direcção certa. Sim, mesmo na cidade onde as ruas têm números e as avenidas são todas paralelas umas às outras e é facílimo não nos perdermos, eu consigo perder-me um bocadinho. O Coffee estava a vender bilhetes para o autocarro do sightseeing e perguntou-me para onde eu ia. Disse-lhe que ia para o Ground Zero, ele olhou para mim com os olhos arregalados e perguntou-me porque é que eu não ia de autocarro?
A conversa começou assim. Eu queria mesmo comprar o bilhete para 3 dias, ele fez de conta que ainda me oferecia mais um dia de borla, eu fingi que acreditei, e depois atravessámos a rua juntos para ir ao café buscar o troco que o Coffee não tinha para me dar.
Foi nessa altura que ele me perguntou de onde eu era e me disse que era de um país qualquer africano que não me lembro (a história da memória afectada, de qualquer modo desde sempre que nunca me consegui lembrar muito bem de nomes). E depois disse-me que se chamava Coffee. Eu fingi que acreditei. Com aquele sorriso travesso a bailar-lhe nos olhos era óbvio que Coffee inventara aquele nome porque devia ser bem mais fácil dizer aos turistas que se chamava Coffee do que outro nome esquisito qualquer. Além do mais o nome combinava que nem uma luva com o seu tom de pele negro e a sua simpatia. Um Coffee de manhã e tudo fica mais fácil.
Lá fui eu de volta para trás, para apanhar o autocarro do sightseeing e realmente tenho que agradecer ao Coffee. Acho que não era capaz de andar aquilo tudo até lá abaixo. Mesmo com a felicidade transbordante que o meu coração transportava nesse dia.
O Coffee fez-me também lembrar imediatamente duma cena de uma das minhas séries preferidas de todos os tempos - o Hill Street Blues. Um dos polícias (que depois morreu durante a série) chamava-se Coffey e passava a vida a dizer que não era Coffee como o café, mas Coffey com "y".
Não perguntei ao Coffee como é que o nome dele se soletrava, mas a avaliar pelo seu sorriso matreiro, tenho a certeza que era Coffee como o café.

Sem comentários: