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segunda-feira, 26 de novembro de 2012

MURMÚRIOS DE MANHATTAN XIV

Skyline





É uma obra de arte fascinante.
É uma obra de arte viva, que se renova todos os dias.
Foi projectada, construída e edificada por diversos arquitectos, engenheiros, operários e construtores, entre os quais se contam muitos índios Mohawk, que não têm medo de alturas.
É predominantemente castanha e cinzenta. Brilhante de noite.
Contrasta com o céu mais azul de que há memória.
Sobe. Sobe. Sobe.
Não tem medo, não tem vergonha, não tem humildade.
Só tem descaramento. E ambição. E lata.
É elegante, afunilado, esguio, requintado, com classe e com estilo.
Não será por acaso que os seus habitantes também têm montes de estilo.
Atinge-nos como um soco e nunca mais nos larga.
Lembro-me perfeitamente da primeira vez que o vi, ao vivo, vinda do aeroporto JFK, no longínquo ano de 1988.
Lembro-me de o ver quando me ia embora e espreitei para trás, pelo vidro traseiro do táxi.
Lembro-me quando o vi novamente, 12 anos mais tarde, vinda de Queens.
E lembro-me de o olhar novamente pelo vidro traseiro da nossa boleia, quando deixei a cidade pela última vez, em Março de 2001. Lembro-me de pensar que tão cedo provavelmente não o voltaria a ver.
Tenho saudades. Imensas.
E nunca mais o verei da mesma maneira. Porque as torres já lá não estão.

domingo, 18 de novembro de 2012

MURMÚRIOS DE MANHATTAN XIII

Ferry





Dar a volta à ilha em ferry é uma das melhores coisas que se podem fazer em Manhattan.
É muito simples. Deve ser apanhado ao final do dia, de modo que possamos ver a cidade nos seus três tons totalmente diferentes: dia, pôr-do-sol e noite. Cada um deles tem as suas maravilhas secretamente guardadas. Posso dizer que foi das coisas mais deslumbrantes que vivi até hoje.

sábado, 10 de novembro de 2012

MURMÚRIOS DE MANHATTAN XII

Times Square




É sempre dia em Times Square. Mas também é sempre noite em Times Square.
Times Square é uma pequena Las Vegas em miniatura.
As luzes, cores, animação, ruído, movimento e vida que acontecem nesta praça todos os dias a todas as horas do dia ou da noite é única no mundo.
Times Square poderá talvez ser comparada a uma amostra da cidade de Manhattan. Se fossemos a uma loja como quem compra tecidos e pedissemos uma amostra do tecido Manhattan, obteríamos um quadrado chamado Times Square, que teria todas as características do metro de Manhattan concentradas e ensanduichadas naquele pequeno quadrado.
Times Square é assim apelidada porque é aí que se encontra o edifício do jornal mais famoso e mais respeitado do planeta - o New York Times.
Apelidada de Cruzamento do Mundo é, de acordo com uma sondagem realizada, a atracção turística mais visitada do planeta - 39 milhões de pessoas todos os anos. É muita gente para praça tão pequena. Porque ela é pequena. E torna-se ainda mais pequena pelo efeito de altura dos edifícios que a rodeiam, que a estrangulam ainda mais.
Na realidade, Times Square não tem nada de extraordinário, a não ser uma data de anúncios em néon coloridos e movimentados, que piscam e rolam e giram e se acendem e apagam a todos os segundos. E pessoas. E trânsito. Mas é ... como dizer? se houvesse um centro do mundo, tipo uma espécie de meeting point universal onde toda a gente marcasse encontros, esse meeting point teria de ser Times Square. Não sei é se as pessoas se encontrariam de facto, porque podiam passar umas pelas outras sem se verem, distraídas com todas as outras.
É também na Times Square que o mundo dá as boas-vindas ao novo mundo, todos os anos. Uma bola desce. Nada de especial. É apenas uma bola. Mas milhões de pessoas concentram-se todos os anos lá para ver essa bola descer. E depois ... bom, depois caem milhares de papelotes às cores e Times Square fica ao mesmo tempo ainda mais pequena e maior.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

MURMÚRIOS DE MANHATTAN XI

42nd Street



Foi, em tempos idos, considerada a rua mais perigosa do planeta, especialmente a parte West mais próxima do rio. Hoje em dia empalidece em comparação com tantas outras ruas de tantos outros lugares mais afastados, neste mundo actual tão diferente.

A Rua 42 é emblemática por diversos motivos:
1. É onde estão a maioria dos teatros, especialmente na intersecção entre a Broadway e a Times Square
2. Era onde havia a maior concentração de peep shows na cidade
3. Era também a zona onde se cruzavam toda a espécie de "gatos" estranhos da noite nova-iorquina, pelos dois motivos atrás expostos: noctívagos, frequentadores de clubes de reputação menos aconselhável, proxenetas, mafiosos de segunda categoria, travestis, gangsters, homossexuais, lésbicas e pervertidos.
4. É, do outro lado da questão, a rua onde se concentram alguns dos mais famosos edifícios de Manhattan, a saber: Nações Unidas, Chrysler, Grand Central Station e a própria Times Square.
5. Deve ser percorrida ao final da tarde, na direcção West, de forma a podermos desembocar na Avenida 12 e apanhar o Ferry que nos permite dar a volta à ilha (falarei dele em próximos posts). No regresso, já noite cerrada, deve-se voltar de novo pela mesma rua e observar os "morcegos" que aí se passeiam. É possível, por exemplo, apanhar "undercover cops" da NYPD em missão secreta, com armas escondidas no interior dos cós das calças de ganga.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

MURMÚRIOS DE MANHATTAN X

Central Park




O Central Park chama-se assim precisamente porque é central. Ocupa o coração de Manhattan e é, obviamente, o seu pulmão.
A vista de Manhattan a partir do Central Park é mais interessante do que propriamente a vista do Central Park a partir de Manhattan. Explico: o Central Park é um rectângulo verde denso, visto de qualquer prédio que o envolve; já Manhattan vista do Central Park revela surpresas inusitadas. Pontas espigadas que saltam por entre as árvores, conjuntos de pedra de diferentes estilos que de repente nos surpreendem por trás de uma avenida de árvores. Estar no coração de Manhattan a olhar para o resto de Manhattan é reconfortante. Não nos sentimos esmagados, mas felizes, surpreendidos, abraçados, embalados pela cidade das alturas.
O próprio parque guarda surpresas inusitadas, sobretudo no que toca a estátuas. Um dia, nunca tive tempo para isso, irei passear-me por todo o parque e fazer o meu próprio inventário privado de estátuas. Não as conheço todas. Gostava. Recordo duas, uma que conheci, outra de que apenas ouvi falar - a Estátua de Hans Christian Andersen, de livro na mão e por companhia um pato e a Estátua da Pantera, que faz embuscada aos joggers algures num dos muitos corredores destinados a quem gosta de correr - chama-se Still Hunt.
O Central Park tem actividades para todos os gostos, feitios, carteiras, meteorologias e manias. A minha é observar o abraço de Manhattan a partir do seu coração. Garanto que é estarrecedor e inigualável. Em mais nenhum parque do mundo se consegue esta vista.



terça-feira, 16 de outubro de 2012

MURMÚRIOS DE MANHATTAN IX

Chrysler





O Chrysler é, sem sombra de dúvida, a figura mais bonita de Nova Iorque.
É elegante, esguio e tem estilo.
É discreto, mas marcante, sem ser ostensivo.
Temos vontade de subir ao seu pico e lá ficar durante horas esparramados nas suas escamas a contemplar o mundo novo que se desenrola cá em baixo.
É seguro dizer que sem o Chrysler, Manhattan não seria a mesma Manhattan.
Não faz sombra ao Empire, mas também não lhe fica a dever em nada. Convivem ambos em harmonia, sem lutas ou desavenças.
Onde o Empire é antigo, nobre e sábio, o Chrysler é aristocrata, dandy e trendy.
Estará sempre em sintonia com qualquer tempo que presencie. Seja o século XX ou o século XXX, o Chrysler não destoará nunca.
De dia ou de noite, é absolutamente inconfundível e ilumina a cidade como mais ninguém, seja reflectindo o brilho do sol, seja projectando o seu brilho nocturno.
Parece uma nave espacial concebida por um povo encharcado em bom gosto e requinte, prestes a sair disparada no céu manhattiano. Tenho a certeza que a cidade inteira o seguiria, sugada pelo seu prestígio e segurança.
O Chrysler tem personalidade. Mais, numa cidade cheia de personalidade, onde cada esquina e cada prédio tem Personalidade, que a Personalidade do Chrysler se consiga mesmo assim destacar, é obra!

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

MURMÚRIOS DE MANHATTAN VIII

D Train





Nunca se apanha o D Train. Unless you're looking for some action ...
O D Train vai directo para o Bronx. Claro que passa por muitos outros sítios, mas a questão é que pode haver distracções ... como a que me aconteceu a mim, em 2001. Distraí-me e pimbas, ia acabando no Bronx se não tivesse saído antes quando dei por ela.
Pode-se andar no D Train apenas ao fim-de-semana, para ir para o zoo do Bronx, um dos melhores dos EUA. Mas ao fim-de-semana vai-se bem acompanhado por hordas de miúdos e respectivos professores que fazem excursões animadas para ir ver os animaizinhos. Foi a única vez que estive no Bronx. In broad daylight.
Minto. Foi a única vez que estive no Bronx por iniciativa própria e de dia.
A outra vez foi de noite. Aconteceu-nos exactamente a mesma coisa que ao Sherman McCoy no romance de Tom Wolfe chamado "A Fogueira das Vaidades". O condutor do carro, o meu tio, enganou-se quando vinhamos de Massachussets e apanhou a saída errada na ponte. Acabámos no Bronx, eram 11 e tal da noite. Eu, que tinha 17 aninhos e tinha acabado de ler o livro nessa Primavera, estava nas sete quintas. O meu tio estava em pânico. Ouvi os trincos das portas do carro trancarem-nos lá dentro. Eles devem ter ficado aterrorizados, ele e a namorada, porque tinham a seu cargo duas sobrinhas, uma portuguesa e uma inglesa.
Assim que viu um carro da polícia estacionado, o bom do tio parou e foi a correr perguntar direcções. Os blues estavam perto de uma bomba de gasolina. Quando voltou, o meu tio só disse "The cabin is full of blood. He had just been mugged." Bonito. Cinco minutos antes e teríamos surpreendido o assaltante de faca em riste. Portanto, essa foi a segunda vez que estive no Bronx, de noite, por acaso.
Nunca se apanha o D Train. Unless you're looking for some action ...

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

MURMÚRIOS DE MANHATTAN VII

Brooklyn Bridge





A segunda maior maravilha de Nova Iorque, a seguir ao skyline da cidade. A Brooklyn Bridge, que une precisamente o bairro de Brooklyn à ilha de Manhattan pode e deve ser atravessada a pé. Uma das coisas que me falta fazer, para além de subir à Estátua. Atravessa-se a Brooklyn Bridge ao pôr-do-sol, de lá para cá, de forma a poder contemplar a cidade das alturas banhada pelos matizes etéreos e intensos do ocaso, é da praxe.
A Brooklyn Bridge é uma pequena recordação do passado, ao lado de todas as outras pontes mais modernas que unem Manhattan ao continente. Parece saída directamente de um filme dos anos 40 e a sua filigrana de cabos de aço dançando no espaço e unidos por torres de pedra tornada cor de chocolate pela luz quente do sol, contrasta de forma brutalmente poética com os gigantes cinzentos ultra-modernos que se avistam no horizonte.

O poeta Hart Crane escreveu-lhe uma ode em 1930:

How many dawns, chill from his rippling rest
The seagull’s wings shall dip and pivot him,
Shedding white rings of tumult, building high
Over the chained bay waters Liberty–

Then, with  inviolate curve, forsake our eyes
As apparitional as sails that cross
Some page of figures to be filed away;
–Till elevators drop us from our day . . .

I think of cinemas, panoramic  sleights
With multitudes bent toward some flashing scene
Never disclosed, but hastened to again,
Foretold to other eyes on the same screen;

And Thee, across the harbor, silver-paced
As though the sun took step of thee, yet left
Some motion ever unspent in thy stride,–
Implicitly thy freedom staying thee!
Out of some subway scuttle, cell or loft
A bedlamite speeds to thy parapets,
Tilting there momently, shrill shirt ballooning,
A jest falls from the speechless caravan.
Down Wall, from girder into street noon leaks,
A rip-tooth of the sky’s acetylene;
All afternoon the cloud-flown derricks turn . . .
Thy cables breathe the North Atlantic still.
And obscure as that heaven of the Jews,
Thy guerdon . . . Accolade thou dost bestow
Of anonymity time cannot raise:
Vibrant reprieve and pardon thou dost show.
O harp and altar, of the fury fused,
(How could mere toil align thy choiring strings!)
Terrific threshold of the prophet’s pledge,
Prayer of pariah, and the lover’s cry,–
Again the traffic lights that skim thy swift
Unfractioned idiom, immaculate sigh of stars,
Beading thy path–condense eternity:
And we have seen night lifted in thine arms.
Under thy shadow by the piers I waited;
Only in darkness is thy shadow clear.
The City’s fiery parcels all undone,
Already snow submerges an iron year . . .

O Sleepless as the river under thee,
Vaulting the sea, the prairies’ dreaming sod,
Unto us lowliest sometime sweep, descend
And of the curveship lend a myth to God.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

MURMÚRIOS DE MANHATTAN VI

9/11



Parece uma imagem de um filme de Hollywood. A muitos que ligaram a televisão nessa manhã de 11 de Setembro de 2001, foi isso mesmo que pareceu. "Pensei que estava a ver um anúncio de um filme americano." A segunda hipótese que as pessoas colocavam, quando se apercebiam que afinal estavam a ver uma coisa real a acontecer em directo, era que deveria ter sido um acidente. Inicialmente pensou-se mesmo que tinha sido uma avioneta.
Estava no Colombo na fila para o almoço de um restaurante mexicano, quando a minha mãe me ligou para me dizer que um avião tinha embatido no World Trade Center. A pessoa que estava comigo, mais conhecedor de política e do mundo, disse-me imediatamente: "É um atentado." Ele sabia que aviões comerciais não costumavam sobrevoar a cidade de Manhattan. Alguns minutos mais tarde a minha mãe ligou-me de novo para me dizer que um segundo avião embatera na outra torre. Ligar-me-ia mais uma vez para me dar a notícia do Pentágono. Nessa altura, o meu companheiro de almoço disse-me: "É guerra." Quando finalmente cheguei perto de uma televisão, foi para assistir, horrorizada, à queda das torres onde tinha estado 6 meses antes a apreciar a vista incrível da cidade. Lembro-me da Estátua da Liberdade, lá ao fundo, pequena e bonita, erguendo a sua tocha com dignidade, dando as boas-vindas ao mundo. Lembro-me do silêncio intenso e de uma sensação qualquer de dejá vu que se repetiu 12 anos depois de lá ter estado a primeira vez. Lembro-me de torcer o pescoço todo cá em baixo, antes de entrar, para olhar o topo das duas sentinelas de um mundo novo, estranho, inatingível.
Não consigo descrever o que senti no momento em que as torres colapsaram sobre si próprias. Ainda hoje não consigo descrever. Era surreal. Era como se estivesse a assistir a um canto do Inferno de Dante, em directo e exclusivo. Era como se nesse dia brindado por um céu azul paradisíaco, quem estivesse a tomar conta do mundo fosse um Deus muito sádico, ridiculamente sádico - um avião não bastou, dois aviões não bastaram, pessoas a lançarem-se dos prédios não bastaram, uma torre cair não bastou, só bastou quando a segunda torre caiu. Uma ferida foi aberta, esgravatada e escavada até à medula nesse dia, no coração de Nova Iorque, de todos os nova-iorquinos, e do resto do mundo.
Nesse dia, o mundo ocidental pós Holocausto, conheceu o Inferno. Cada capítulo que se sucedia naquela tragédia dantesca parecia-nos mais e mais impossível de acreditar. E, ao contrário de tantos outros holocaustos que gerações antes de nós viveram, a nossa geração assistiu em directo ao seu. O mundo mudou nesse dia. Tudo era, agora, possível.
Houve, também, algo de bom que saiu de todo esse Inferno. A imagem que os nova-iorquinos e a cidade tinham para o mundo mudou também. Houve heróis, como os bombeiros ou os passageiros do famigerado vôo 93 da United Airlines, que pouparam os governantes de um país à vergonha de terem de abater um avião cheio de concidadãos. Foi o pior mas também o melhor dia da cidade. Houve voluntários, milhares. Houve uma ordem e um civismo extraordinários, no meio de uma calamidade sem precedentes. Nova Iorque, a calculista, a impessoal, a arrogante, a frenética, a individualista, mostrou ao mundo que não há ninguém que ame mais a sua cidade do que os nova-iorquinos. Nesse dia, Nova Iorque ergueu-se mais alto ainda do que o tamanho das torres que lhe deitaram abaixo, e tocou o céu. E afirmou, alto e bom som, para que o mundo ouvisse: Foi muito, muito, muito, demasiado duro. Mas voltaremos a erguer-nos. Ainda não, daqui a pouco.
Passaram-se 11 anos. Nova Iorque ergueu-se de novo, há muito tempo. Mas a memória deverá permanecer. É importante que não desapareça. Porque não foi só Nova Iorque que foi ferida, mas o mundo. Porque, como afirmou Bush, o 11 de Setembro acabará por ser apenas uma data no calendário, como tantas outras de que apenas ouvimos falar. Para as novas gerações corre o risco de ser apenas isso. Nós, que assistimos em directo e ao vivo, não podemos deixar que o mundo se esqueça. Para que o inenarrável não volte a acontecer.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

MURMÚRIOS DE MANHATTAN V

Miss Liberty




Miss Liberty, é como os nova-iorquinos a chamam. A estátua oferecida pela França aos EUA era a primeira visão que os imigrantes tinham da Terra dos Livres quando lá chegavam.

The land of the free and the home of the brave, como canta o hino.
Miss Liberty carrega uma tocha na mão direita e na mão esquerda segura uma tábua onde está inscrita a data da Independência dos EUA - 4 de Julho de 1776.

Existe um poema afixado no interior do seu pedestal, que também é associado à estátua:

"Give me your tired, your poor, 

Your huddled masses, yearning to breath free, 
The wretched refuse of your teeming shore, 
Send these, the homeless, tempest tost to me,
I lift my lamp beside the golden door."


"Dêem-me as vossas cansadas, as vossas pobres,
As vossas amontoadas massas, ansiosas por respirarem livremente.
O refugo miserável das vossas margens abundantes,
Enviem-nos, os sem abrigo, atirados pela tempestade
Eu ergo a minha lanterna perto da porta dourada."

Vai-se a Miss Liberty de ferry, a partir de Manhattan. Enquanto se aguarda na fila, um grupo de break-dancers entretém a multidão. Quando se chega lá, nova multidão nos aguarda - nunca consegui subir lá acima porque à minha frente estão sempre umas 3 horas de turistas japoneses, seja no Verão seja na Primavera. Terei de experimentar o Outono, já que no Inverno estará demasiado frio e o Natal certamente que atrairá novas hordas nipónicas de camâras high-tech prontas a disparar.
Tira-se sermpre uma fotografia com Miss Liberty em fundo, levantando o mesmo braço em que ela segura a tocha - é da praxe.
Miss Liberty não é imponente, mas acolhedora. Não é ameaçadora, mas maternal. Apesar da altura, como tem muito que calcorrear até chegar a outras alturas, não fere a vista nem intimida. É agradável. Sentimo-nos atraídos para ela como moscas a um pote de mel perfeitamente inofensivo. Ninguém nos fará mal enquanto estivermos nas suas imediações, termos a certeza.
Há uma fotografia impressionante publicada pela revista Time na contra-capa do número que saiu logo após o 11 de Setembro. Miss Liberty segura a sua tocha, impávida e serena, enquanto atrás de si Manhattan se esvai em fumo, fogo, lágrimas de desespero e gritos de terror, que imaginamos. A fotografia não impressiona pela aparente inércia ou apatia da senhora, antes pelo contrário. Quase que a conseguimos sentir, sofrer, sem nada poder fazer enquanto o Inferno se desenrola e atinge a alma da cidade que ciceroneia. E quase que a podemos sentir dizer "não conseguirão destruir-nos". We will endure.

sábado, 1 de setembro de 2012

MURMÚRIOS DE MANHATTAN IV

Taxi!


É uma experiência interessante apanhar um táxi em Manhattan. Por dois motivos: o próprio acto de os chamar e as características dos indivíduos que os conduzem.

Fazemos a experiência. Basta levantar um braço no ar e logo um bicho amarelo pára perto de nós. Acho que nunca calhou experimentar à chuva em hora de ponta. Talvez não tivesse tanta sorte. Quando percebemos o que acontece sempre que levantamos um braço, pomo-nos a brincar com aquilo, como se de arrumadores nos tratássemos. Claro que os taxistas não acham tanta piada e levamos alguns gritos em americano calão irrepetível. Portanto, não nos podemos queixar com a falta de transporte em Manhattan. Aliás, qualquer doido que tente alugar um carro e conduzir é isso mesmo - doido, só que vai passar a admitir que o é, em vez de apenas ser julgado pelos outros como tal. Aprendei, senhores: em Manhattan nem sequer é de bom tom andar de carro, não é cool ... ou se anda a pé, ou se anda de subway, ou se chama um táxi! Chamar um táxi para ir aqui e ali e acolá, em vez de apenas para trajectos importantes (como ir à ópera) é o máximo da coolada - quem pode, pode.

Outra questão muito diferente são os espécimens que se podem encontrar atrás do volante de um táxi: desde nativos desconfiados, até estrangeiros que não falam inglês e não sabem onde são os sítios para onde queremos ir! Há literalmente de tudo. Aliás, com o andar dos tempos começa a ser difícil encontrar um verdadeiro nativo a conduzir um táxi.
Portanto, se for nativo, ficará calado e aguardará calmamente para ver quem leva atrás de si.  Apenas abrirá a boca se achar conveniente, caso contrário manter-se-á calado que nem um rato e esperará para receber o pagamento do trajecto no final da corrida. Os nova-iorquinos quando querem são absolutamente insondáveis. Mas só quando querem.
Se for estrangeiro, há duas hipóteses. Ou pertence a uma maioria étnica que pulula os cantos da cidade - irish, porto-riquenho, italiano, mexicano, chinoca, japonês, etc. Ou pertence a uma minoria étnica que nem sequer tem poiso ainda certo na cidade. Os da primeira categoria são quase como os nativos, apenas com uma pequena diferença - falam. Aliás, se não falarmos com eles é que ficarão desconfiados. Contar-nos-ão alegremente as últimas da sua cidade, discorrerão sobre o mayor, a criminalidade, os turistas, o Obama, os terroristas, o 9/11 (I'm sure) e tudo o que quisermos. Tudo apimentado com os seus respectivos sotaques americanizados forjados nas ruas dos respectivos bairros a que pertencem - Little Italy, Harlem, Brooklin, Queens, Chinatown, etc.
Os da segunda categoria não falam não porque não queiram, mas porque não sabem. Falar em inglês, isto é. Se souberem o trajecto correcto para o destino que desejamos é uma sorte! Senão, não se importam nada de serem guiados, literalmente, rua a rua, avenida a avenida, número a número. Experimentem fazer isto com um nativo e, se não se mantiver calado, provavelmente expulsar-vos-á do carro. É claro que com outros nativos isto é possível até porque, nativo que é nativo que se preze tem sempre um percurso preferido para ir do ponto A ao ponto B sem apanhar trânsito - "A melhor maneira de ir até X é meter pela Rua nº tal, cortar na Av. Y, seguir até à Rua nº coiso e desembocar em B. Se estiver muito trânsito na Av. Y então abrevie para a Rua nº etcetera e siga pelo rio até B." E o gajo não tem outro remédio senão obedecer. Time is money and you're in the land where time and money have the same value. 
Uff! E pronto. Taxi!!!!!!! To the Empire, please.

domingo, 26 de agosto de 2012

MURMÚRIOS DE MANHATTAN III

The Towers


I miss them. Truly. Although they were not a favorite part of the city, they belonged there, they just were there. I'll never forget when David Bowie said that when he waked up the morning after 9/11 he thought something was strange about his window view - he could see the sun, where before the towers covered it.
Inspite of their humungus height, I remember the towers didn't feel menacing, somehow. They were elegant and tall and slim and when you looked up at them they always seemed to belong some place else, in some kind of ethereal olimpus way above the rooftops of Manhattan, between the earth and the sky.
The view from them was awkward. I have pictures taken from them, which seemed to me taken from the airplane, when I got back home and couldn't quite place them. They were so high you lost the city below and everything seemed like a distant, ethereal dream of some kind.
I remember very distinctly the feeling of coming close to them, stopping in the middle of the square and looking up. My neck would twist all the way to the back and it felt as if my eyes would never, ever stop rising from the ground.
There's a picture of the bulding before it happened which I can never look at in absolute peace. It's a picture of the lobby where we queued to climb in the elevators. I can't look at it because I remember being there just 6 months before.
When they started collapsing I started crying and I don't think I have stopped crying for them ever since.


domingo, 19 de agosto de 2012

MURMÚRIOS DE MANHATTAN II

Empire State of Mind


A primeira coisa que chama por mim é sempre o Empire. Mesmo quando havia as torres, o meu pedaço de altura preferido era e continua a ser o Empire. A sua cúpula em bico é o símbolo da cidade para mim. Podem vir mais 20 torres com o dobro da altura do Empire, que continuará a estar no topo para mim. Quando avisto a cúpula a espreitar por entre os outros prédios, à saída do metro, fico com a garganta apertada. He's waiting for me.

Sobe-se ao Empire duas vezes, pelo menos, uma de dia e uma de noite.
De dia consegue-se ver na perfeição a vista toda da ilha e do território adjacente. Nunca subi sem lá estarem as torres, mas sei que se subir agora me vou emocionar quando não as vir, lá ao fundo, perto do rio, na ponta sul da ilha, como duas sentinelas guardiãs. I miss you.

De dia consegue-se olhar para baixo e destrinçar na perfeição o tricô das ruas paralelas e perpendiculares, com a sua cor predominantemente castanha dos prédios e os carros e as formigas das pessoas como peças de tetris tentando desencaixar-se eternamente. As peças que mais se destacam são as amarelas, os táxis.
De noite tem-se uma primeira visão do andar mais baixo, fechado. Depois, quando se chega lá acima, os olhos abrem-se desmesuradamente, tentando engolir sofregamente o espectáculo de luz, cor e veludo que se desenrola diante de nós.

Não gosto da Alicia Keyes, mas esta música é right on the spot:



These streets will make you feel brand new

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

MURMÚRIOS DE MANHATTAN I

Sundays in Manhattan





Ao Domingo a ilha fica vazia. É como se toda a gente fosse sugada subitamente por um gigantesco aspirador para fora de Manhattan, algures para as suas imediações: transeuntes, pedintes, carros, táxis amarelo-vivo, ambulâncias, carros de polícia, sirenes, escapes, the hustle and bustle da cidade mais acordada do mundo.

É possível, então, fazer várias coisas que seriam impossíveis num dia de semana normal:
1. Passear sem dar encontrões em ninguém
2. Atravessar uma rua fora da passadeira e ficar parado no meio da estrada a tirar uma fotografia
3. Andar no metro sem ser esborrachado
4. Deambular por feiras de flores e fruta com calma, como uma borboleta deambulando no seu jardim preferido e pacato
5. Descobrir cantinhos insuspeitos que de outra forma passariam completamente despercebidos no meio da confusão semanal

I like Manhattan on Sundays. It reminds me of a Hopper painting. I think he got inspired there. On Sundays, Manhattan is a different town. But then, Manhattan is many different towns - that is her secret.