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domingo, 21 de novembro de 2010

MORMORIOS DI ROMA XIV

Arrivederci! Roma
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É na Praça de Espanha que se diz adeus a Roma.
Primeiro uma última espreitadela às montras das lojas da Via Condotti.
Depois um café obrigatório no El Greco, consta que o café mais bonito do mundo.
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Misturamo-nos com a multidão que se junta ao pé da fonte e, com sorte, apanhamos um par de noivos a tirar fotografias junto à La Barccacia.
Subimos a escadaria longa de cento e tal degraus,
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até à Igreja de Trinità dei Monti.
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Cá em cima apreciamos a arte de alguns pintores de rua.
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Finalmente, viramo-nos novamente de frente para as escadarias e apreciamos as cúpulas que brotam lá ao longe, sob o fundo intenso do crepúsculo.
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Arrivederci! Roma.
Voltarei sempre.
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domingo, 14 de novembro de 2010

MORMORIOS DI ROMA XIII

Pedro
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Dizem que aqui se escondem os maiores tesouros do mundo.
Que só uma parte deles estará à vista.
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Dizem que o mundo fica mais pobre por causa dos tesouros que aqui se escondem.
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Dizem que os tesouros aqui guardados dariam para alimentar países inteiros.
Dizem que se Ele regressasse, começaria por expulsar aqui os vendilhões do templo.
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Dizem que foi aqui que Pedro morreu.
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Sei que foi aqui que um Pedro morreu.
Chamava-se João Paulo e foi um grande, grande, enorme Pedro.
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segunda-feira, 8 de novembro de 2010

MORMORIOS DI ROMA XII

O Suíço
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O mundo pára aqui. Sim. Ou flui, incessantemente. Olhem para eles. Como ovelhas desaguando mansamente no centro do mundo. Ávidos de qualquer coisa. Ávidos de respostas. De soluções. Como ovelhas. Alguns curiosos. Mesmo esses, sem querer admiti-lo a si próprios, procuram algo aqui. Procuram entender. Ouço-os, também. Expressões de júbilo, de surpresa, de fascínio, de solenidade. Sabem que estão a entrar no centro do mundo. Querem respirar o centro do mundo. Saberão eles, terão noção de quanto o centro do mundo é parecido com o mundo de cada um deles?
O mundo pára aqui. Alguns vêem-me, outros não. A maioria apenas repara nas cores ... Amarelo, encarnado, azul. Muitos pensam que foi Michelangelo quem desenhou estas riscas. Estão errados, é apenas uma lenda. Olhem para eles. De máquinas em riste, tentando roubar-me um olhar, um sorriso, uma reacção. Não posso. Sou o porteiro do centro do mundo. Somos poucos. Mas bons, ou assim nos julgamos. Por vezes parecemos ridículos, mas não brincamos em serviço. As ovelhas nem imaginam que por vezes circulamos mais próximos delas do que alguma vez julgaram possível. Sem as cores, claro. Discretos. Guardamos o centro do mundo com precisão suíça. Não fosse a explosão de cores e seríamos absolutamente invisíveis, inodoros, incolores, talvez um pouco mais insípidos.
Guardo o centro do mundo. E o mundo olha para mim. Mas eu não posso devolver o olhar.
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sábado, 16 de outubro de 2010

MORMORIOS DI ROMA XI

O Tecto
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É, provavelmente, o tecto mais famoso do mundo. É sempre mais baixo e mais pequeno do que estávamos à espera. Mais acolhedor. Mais aconchegado. Mais deslumbrante e mais opulento. Mais simples, também. Mais puro.
Na impossibilidade de o fotografar (é proibido (com ou sem flash) e eu sou uma menina respeitadora de regras (ao contrário do meu irmão que o filmou à sucapa)), tentar-se-á aqui fazer o retrato textual do mesmo.
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Azul, muito, a envolver-nos, a abraçar-nos, a esmagar-nos.
Depois a profusão de cores belas, quentes, harmoniosas, onde nada choca e tudo se dilui suavemente das nossas íris aos nossos sensores nervosos, que respondem vibrando de emoção.
O famoso tocar de dedos entre Deus e Adão será o que os olhos procuram assim que o corpo entra dentro da sala. Será muito provavelmente a imagem, de todas, mais reconhecida pelas míriades de nacionalidade, credos, raças, idades e estratos sociais e culturais que desaguam todos os dias em cachos ávidos na Capela Sistina.
O Vaticano é sádico. Senão vejamos: somos obrigados a percorrer todos os muses, antes de conseguirmos chegar à Capela. Impossível adquirir bilhete apenas para a Capela. E a Capela está precisamente no fim da visita. Aliás, se repararmos, a Capela seria supostamente o início da visita, uma vez que as figuras dos tectos por onde passamos estão todas na direcção oposta à qual avançamos.
Esquina sim, esquina não lá está a setinha a apontar para a direita ou para a esquerda, como uma cenoura que nos acena - "Capela Sistina". E a malta atropela-se, galgando corredores e corredores e corredores atulhados de obras-primas que passarão, muitas, despercebidas à grande maioria das pessoas. Assim de repente, de memória, recordo apenas: os deslumbrantes quartos pintados por Rafael e o famoso "A Escola de Atenas", do mesmo Rafael. Sei que havia muito mais coisas. Não as recordo.
E tectos, tantos tectos, magníficos.
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Finalmente, a Capela Sistina.
Entramos, portanto, ao fim de quilómetros e quilómetros de relíquias com a língua de fora, salivando de expectativa. E a expectativa não é de forma alguma gorada.
Olhamos para cima e rodopiamos de boca aberta, um sorriso estupidificado nos lábios.
Tenho a certeza que pela maioria das cabecinhas passa um pensamento semelhante a este: "Sacana do gajo! Era doido varrido! Como é possível?"
Sim, foi possível. E imagina-mo-lo. Em cima de andaimes, as costas todas viradas, numa posição impossível, durante meses, os seus ajudantes espalhados pelos andaimes dando os retoques no traço do Mestre. Imagina-mo-lo, rugindo entredentes, soltando impropérios, olhando as paredes, pintando, pintando, pintando, numa loucura genial que séculos mais tarde continua a ser uma das maravilhas do mundo.
O Tecto da Capela Sistina.

sábado, 2 de outubro de 2010

MORMORIOS DI ROMA IX

A Festa das Fontes
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Danúbio suspirou. O Prata atrasava-se sempre. Era uma maçada.
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Olhou para o Ganges que consultava o relógio, enquanto o Nilo saltitava de um pé para o outro. Era sempre a mesma coisa.
O Sol já se estava a pôr e nem sinal do Prata. Os cavalos de Neptuno resfolegavam impacientes,
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os tritões sopravam de tédio,
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o golfinho mostrava o nariz de 5 em 5 segundos à superfície da água
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e até as Nereides, sempre a retocarem-se até ao último minuto, já estavam prontas, os seios entumescidos de expectativa.
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Mas do Prata nada.
O polvo pegou em dois megafones e começou a berrar:
"A festa vai começar! A festa vai começar!"
A sua voz de caramelo ouvia-se por toda a praça e arredores, provavelmente até à zona do Panteão.
E nisto o Prata apareceu a correr, no seu passo poderoso mas preguiçoso, desaguando calmamente na Praça, como se tivesse todo o tempo do mundo.
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O Danúbio bufou e olhou para o Prata de lado, enquanto resmungava entredentes "Gringo duma figa ..."
O Prata espraiou-se languidamente, enquanto sorria para as Nereides e piscava o olho ao polvo, que continuava a gritar:
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"A festa vai começar!"
Neptuno deu o mote, empuleirando-se num tritão e lançando-se com toda a força para cima do polvo.
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Este, que apesar de sofrer o ataque todos os dias há 400 anos, nunca se habituara a ser maltratado, surpreendeu-se pela bilionésima vez e procurou contrariar o abraço constritor do senhor dos mares sabendo que, como criatura subalterna que era, mesmo que poderosa e versátil, nunca venceria a contenda.
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O carrossel começou a girar. Depois disso, só as estrelas sabem o que se passou.
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A festa das fontes acontece todas as noites, ao crepúsculo, quando os olhos das pessoas ainda não se habituaram à noite e as luzes ainda não se acenderam. Durante cerca de 30 segundos ninguém sabe que prazeres acontecem na Piazza Navona.
Depois tudo congela de novo, até ao dia seguinte.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

MORMORIOS DI ROMA VIII

O Panteão
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O Panteão, primeiro dedicado aos deuses do panteão romano (daí o nome), e posteriormente aproveitado como templo cristão - o nome significa "pan" - tudo - e "teon" - divino.
Desde o ano 27 a.C. que ali se adoravam os deuses e hoje, com o seu óculo no centro da cúpula gigantesca, continua a ser possível observar o céu azul de dia ou o céu escuro e estrelado da noite.
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Até 1436, esta foi a maior cúpula da Europa. Em 1436 foi suplantada pela cúpula do Duomo de Florença, de Brunelleschi.
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Lá estão sepultados Rafael, Caracci, Peruzzi, os reis Vítor Emanuel II e Humberto I.
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Michelangelo considerou-o uma obra dos anjos e não dos homens.
Gosto do Panteão. É talvez o meu monumento preferido em Roma. Gosto de ir lá espreitar pelo "buraco" o céu diurno e nocturno. E gosto da envolvência do bairro, antigo, apertado, medieval, aconchegado com o calor dos visitantes e dos italianos que inundam sempre as redondezas.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

MORMORIOS DI ROMA VII

Freirazinhas
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As freiras eram um mimo. Pequeninas, a falarem italianinho, com aquelas vestezinhas azulinhas e branquinhas. Atrás do balcãozinho da lojinha do Vaticano, a venderem coisinhas bonitas.
Ele era cruzinhas com Cristo pregado. Ele era rosáriozinhos de pedrinhas coloridas. Ele era estatuetazinhas de anjinhos. Gravurazinhas com as obras-primas do Michelangello. Réplicazinhas da Cúpula de S. Pedro.
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A loja estava atulhada, compreendam. E eu, dentro duma loja atulhada, de coisas religiosas ou não, fico doida. Literalmente. Não consigo sair sem levar nada.
Apaixonei-me pela estatueta do arcanjo Miguel a espezinhar Lúcifer. Tenho uma tara por anjos, já o disse.
E Miguel parecia tão decidido. E Lúcifer tão terrível.
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Era cara, a estatueta. Mas as freiras conquistaram-me.
Saí da loja em triunfo, carregando uma relíquia comprada às freiras do Vaticano que, estava certa, não encontraria igual em parte alguma do mundo.
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No dia seguinte, estava eu a passar toda contente por uma loja de souvenirs daqueles rascas, que toda a gente compra, e a pensar para com os meus botões, ná! mas eu tenho uma relíquia do Vaticano comprada a freiras, senhores!
Eis senão quando meus olhos caem precisamente numa estatueta do Arcanjo Miguel a espezinhar Lúcifer, igualzinha sem tirar nem pôr à das freiras, mas com uma pequena diferença - mais barata aí umas 3 vezes!
Entrei na loja, seguida de meus compinchas que se riam a bom rir com a minha indignação.
Não! Proferi, com determinação. Vão ver como esta deve ser um pechisbeque em muito inferior à outra. A outra tem o selo do Vaticano, porra!
Pego na estátua, tomo-lhe o peso, inspecciono-a de frente e de costas e de todos os ângulos possíveis e imagináveis. Verifico a proveniência. Made in China. Aha! Digo, triunfante. Pois que a minha dirá com toda a certeza Made in Vaticano.
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Final do dia. Chego ao hotel e vou a correr inspeccionar a dita cuja.
Made in China ...
Rais parta as ...inhas !
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quinta-feira, 2 de setembro de 2010

MORMORIOS DI ROMA VI

Fellini e a Fonte
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Fellini reside na Fontana di Trevi. É lá que dorme, sonha, faz as suas necessidades, come e ocasionalmente se deita efervescentemente com Giulietta. Também é sabido que costuma banhar-se nas suas águas.
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À noite, quando a escuridão toca a madrugada, Fellini faz fonambulismo na borda da Fontana e depois apanha as moedas que as pessoas atiram lá para dentro durante o dia. É certo que deixa algumas, para manter as aparências.
Fellini gosta de chapinhar com as mãos e os pés, sobretudo os pés, sentado na borda da Fontana, enquanto Giulietta enfeita o cabelo com flores.
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Pausa. Entra a banda.
Marcello é um dos convidados regulares, bem como Anita que, obviamente ainda apenas aparece durante o dia, sozinha, muito de vez em quando.
Corte para vista aérea de Roma. Surge Fellini em grande plano, envolvido por uma fita encarnada e verde, rodopiando inconsequentemente. Ouve-se a voz de Giulietta a chamá-lo, rouca, insistente:
"Federico! Federico! Ma que cosa faci?! Federico!"
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Corte para grande plano da Fontana que estrebucha água pornograficamente.
Por baixo de uma das cascatas Fellini dança entre Anita e Marcello.
"Chamar-lhe-emos 7.", diz Fellini.
"Sette!", frisa Marcello.
"As sete maravilhas, a sétima arte, os sete mares, etcetera, etcetera, etcetera."
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Dedicado a Federico Fellini

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

MORMORIOS DI ROMA V

O Gladiador
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Entrou na arena.
O Sol quente da Primavera romana queimava-lhe a pele e trazia-lhe grossas gotas de suor à testa, que sentia escorrerem dentro do capacete de ferro, pelo rosto, até ao pescoço. Tudo lhe pesava, apesar de já estar habituado a tudo o que trazia no corpo. O capacete, a armadura, as correias e sandálias de couro, as armas, uma em cada mão.
Deu uma volta sobre si próprio e a multidão inundou-o, entonteceu-o, sufucou-o. Tudo lhe pesava porque se sentia ali, mesmo na arena aberta sob a torreira do sol, como se encapsulado, preso numa gaiola transparente. Respirou fundo. O som da respiração era pesado, debaixo do capacete.
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A multidão zurrava, ululava, apupava, aplaudia, gritava, cantava. Era um som ensurdecedor, assustador, opressor. Se, por um qualquer acaso do destino, uma porta do Coliseu se abrisse e ele tivesse conseguido iludir a guarda pretoriana, não escaparia certamente à torrente de multidão que se precipitaria sobre si.
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Roma amava as lutas, o choque das armas no ar seco, o sangue ensopando a terra branca da arena de vermelho negro, o odor a medo e morte. Roma lambuzava os beiços de prazer com o sabor da morte. Os jogos eram dos poucos entetenimentos da populaça, cansada de ser explorada e sedenta de festa. E se a festa se fazia à custa de alguns poucos inocentes, que importava isso? Roma queria, exigia morte.
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Lá ao fundo, dois cristãos andrajosos tremiam como varas verdes, amarrados a um poste de madeira, enquanto um possante tigre listado de preto e amarelo rondava o perímetro, ainda acorrentado. O animal era gigantesco. Era a primeira vez que estava frente a frente com um. Tal e qual um gato, mas dez vezes maior, o tigre caminhava de um lado para o outro, compassadamente, cheirando as presas, as patas felpudas pousando suavemente no chão, os olhos amarelos vivos, que não deixavam escapar nada. Parou e mirou-o, lá do fundo. Depois continuou a rondar os pobres cristãos.
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Os dois homens frágeis olharam-no como se ele fosse o Messias. À medida que se aproximava percebeu que murmuravam algo, uma ladainha trémula, fervorosa. Oravam, porventura, ao seu Deus, fosse ele quem fosse, por uma salvação miraculosa.
Mas a única pessoa ali que os poderia salvar, seria ele próprio e ele não sabia se toda a força dos seus músculos treinados, nem toda a perícia aprendida em anos de lutas, seriam suficientes para derrubar uma besta de 300 quilos, ágil como um relâmpago e astuto como nenhum outro.
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Lá em cima, na tribuna real, o imperador envolto em vestes brancas e douradas e rodeado por uma nuvem rosa de concubinas vaporosas, levantou-se. Dirigiu-se lentamente até debaixo da tribuna e proferiu as palavras que todos os gladiadores devem dizer:
"Ave Caesar. Morituri te salutamos!" (Avé César. Nós, que vamos morrer, te saudamos.)
Apertou a lança e o escudo nas mãos e virou-se para enfrentar o felino. Um deles não sairia vivo dali.
Quanto aos cristãos, mesmo que conseguisse matar o tigre, a sua sorte dependeria do humor do Imperador nesse dia. Deus, fosse ele quem fosse, fechara os olhos.
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segunda-feira, 2 de agosto de 2010

MORMORIOS DI ROMA IV

Pedro e o Sonho
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Tenho um sonho.
Poder passear pela Praça de S. Pedro completamente sozinha, ou de madrugada ou ao entardecer, quando o mundo ainda está quieto ou se prepara para se aquietar.
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Como se por um instante o mundo se tivesse esquecido da Igreja e dos seus apóstolos e dos seus mandamentos e apenas os pombos soubessem, por hábito, encontrar o caminho até ao esboço grandioso de Michelangelo.
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Devagar, percorreria os corredores de colunas e sentar-me-ia nos seus degraus, estudando minuciosamente cada uma das esculturas que a povoam, silenciosas, seculares, secretas.
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Só o borbulhar das fontes e o frissom das penas esvoaçantes serviria de banda sonora aos meus passos no empedrado.
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Calmamente procuraria a linha branca traçada ao longo da entrada da praça, que delimita o Vaticano do resto da Itália e faria fonambulismo imaginário em cima dela.
E depois, como uma sombra crepuscular, exactamente naquela hora em que os meus olhos míopes vêem menos, a hora que eu mais aprecio porque tudo parece coberto por uma ténue neblina imaginária, o Santo Padre surgiria envolto em vestes carmim do outro lado da praça, aparecendo e desaparecendo por trás das colunas, a brincar às escondidas.
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E eu concluiria que as multidões retiram toda a grandiosidade à Praça de Pedro. Que a diminuem e que toda a gente deveria ter direito a um momento assim, sozinho, com os pássaros, "Deus" e o silêncio.