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terça-feira, 4 de setembro de 2007

OS LIVROS DE ANDRÓMEDA - PARTE I

Livro de Crónicas
António Lobo Antunes
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"O grande homem
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Soube que era um génio quando comecei a encontrar o romance nas montras das livrarias: quando o retrato principiou a aparecer nos jornais; quando dei a primeira entrevista à televisão. Consciente da minha celebridade e do meu talento pareceu-me injusto não sair para a rua de pé, em carro descoberto, cercado por guarda-costas de óculos ray-ban, a mostrar-me e a abençoar.
Decerto que ao passar, num cortejo lento com motociclistas à cabeça, os homens tirariam o chapéu a persignarem-se, vergados de respeito, decerto que algumas velhotas ajoelhariam a rezar. Convicto da minha fama e da admiração dos contemporâneos resolvi, como era agosto, oferecer à Praia das Maçãs a dádiva da minha presença, seguro de aplausos, autógrafos, interjeições extasiadas e gritos de fãs à beira do desmaio.
Cheguei por alturas do almoço após horas e horas numa bicha de automóveis domingueiros obviamente repletos de leitores entusiastas e parei no restaurante do Augusto onde uma multidão de súbditos se debruçava para o cherne, pronta a aclamar-me no fervor das paixões ilimitadas. Ninguém pareceu dar pela minha entrada: nem um maxilar deixou de mastigar o bitoque, nem um nariz emergiu do galheteiro para me observar com pasmo, e quando eu, agastado com a incompreensível distracção das pessoas, tossia a chamá-las, a voz do Augusto veio lá do fundo, do balcão, a apontar-me num brado que fez tilintar de susto os copos de Colares e sobressaltou a hibernação das lagostas a mancarem nos calhaus do aquário
- Olha o Antoninho! Dei tanto pontapé no cu daquele gajo!
Meia dúzia de pálpebras subiram dos grelos, desinteressadas, e o Augusto a aplicar-me palmadas que me desconjuntavam as costelas
- O menino a entrar na piscina pelo arame para não pagar e eu que fazia a segurança a correr atrás de si que é lá isso seu sacana? Ricos tempos.
Apesar do precedente de colegas ilustres
(Villon, Genet)
embatuquei. E o Augusto, a empurrar-me com as palmas gigantescas para a mesa, ao lado dos caranguejos e das lagostas, de um careca enfezado
- E aquela tarde em que você me deu uma sova aqui no Zé Tó no ringue de patinagem? O menino era lixado. Muito pontapé lhe dei eu nesse cu. Ricos tempos."
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Termino este ABC com o Meu Escritor. Estou longe de ter lido tudo o que escreveu, até porque a sua escrita é difícil e exige do leitor quase o mesmo trabalho que lhe dá a ele a escrever. Do pouco que li, nasceu uma admiração sem limites. Das poucas entrevistas que dá, um sorriso no canto da boca pelo seu discurso sem rodeios e sem misericórdia. Se o visse algum dia perto de mim teria vontade de lhe beijar as mãos, os dedos que escreveram palavras e as juntaram e as esculpiram muitas delas de formas que eu mal consigo ainda compreender.
Fica este Livro de Crónicas, de leitura muito mais fácil e divertidíssima.
Ele é o único escritor que até hoje conseguiu provocar em mim (e suponho que em muitas outras almas) este efeito absolutamente deslumbrante: fazer-me rir até às lágrimas num parágrafo e no parágrafo logo a seguir fazer-me comover até às lágrimas.
Não direi mais, porque tenho medo de dizer coisas absurdas ou erradas sobre o Escritor que foi responsável por um bloqueio de 4 anos que tive, quando tinha 23. 12 anos mais tarde e com o bloqueio perfeitamente ultrapassado, consigo compreender por que o tive e até agradecer-lhe: se não fosse ele eu não teria tido a certeza de que era isto que queria mesmo fazer. Por vezes, é preciso levarmos valentes tabefes para percebermos se é mesmo isso que queremos continuar a fazer - se depois do tabefe quisermos mesmo assim continuar, então é porque é mesmo isso.
Hoje em dia, António Lobo Antunes continua a ser o meu barómetro. Sempre que acho que escrevi alguma coisa de jeito, vou ler uma coisa dele. Já não bloqueio, mas remeto-me imediatamente à minha insignificância.
Obrigada, António.
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1942-

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

OS LIVROS DE ANDRÓMEDA - PARTE I


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Wuthering Heights
(O Monte dos Vendavais)
Emily Brontë
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"Chapter I
I have just returned from a visit to my landlord - the solitary neighbour that I shall be troubled with. This is certainly a beautiful country! In all England, I do not believe that I could have fixed on a situation so completely removed from the stir of society. A perfect misanthropist's Heaven: and Mr. Heathcliff and I are such a suitable pair to divide the desolation between us. A capital fellow! He little imagined how my heart warmed towards him whem I beheld his black eyes withdraw so suspiciously under their brows, as I rode up, and when his fingers sheltered themselves, with jealous resolution, still further in his waistcoat, as I announced my name.
'Mr. Heathcliff?' I said.
A nod was the answer.
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O Monte dos Vendavais não é, como se poderia pensar, uma história de amor. Pelo menos para mim não é. É uma história de um amor que tudo consome, que tudo destrói, que se consome e aos que o sentem e rodeiam de uma forma atroz, maldita, terrível, diabólica por vezes. É a história de um amor-ódio ou de um ódio-amor ou de algo que não é nem ódio nem amor.
Para mim, Emily Brontë inventou com este romance um novo sentimento, se é que isso é possível. Heathcliff é provavelmente o apaixonado mais negro de toda a história da literatura.
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Um romance intenso e maldito.
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1818-1848

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

OS LIVROS DE ANDRÓMEDA - PARTE I


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O Velho e o Mar
Ernest Hemingway
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"He was an old man who fished alone in a skiff in the Gulf Stream and he had gone eighty-four days now without taking a fish. In the first forty days a boy had been with him. But after forty days without a fish the boy's parents had told him that the old man was now definitely and finally salao, which is the worst form of unlucky, and the boy had gone at their orders in another boat which caught three good fish the first week. It made the boy sad to see the old man come in each day with his skiff empty and he always went down to help him carry either the coiled lines or the gaff and harpoon and the sail that was furled around the mast. The sail was patched with flour sacks and, furled, it looked like the flag of permanent defeat."
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Sobre o conto que os críticos disseram não ter uma única palavra supérflua e em que cada palavra conta, apenas posso dizer três:
Autêntico
Essencial
Vivo
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1899-1961

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

OS LIVROS DE ANDRÓMEDA - PARTE I



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O Universo Numa Casca de Noz
Stephen Hawking
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"CAPÍTULO I
Breve História da Relatividade
Como Einstein lançou os alicerces das duas teorias fundamentais do século XX: a relatividade generalizada e a teoria quântica.
Albert Einstein, o descobridor das teorias da relatividade restrita e generalizada, nasceu em Ulme, na Alemanha, em 1879. No ano seguinte, porém, a família mudou-se para Munique, onde o pai e o tio de Einstein, Hermann e Jakob, fundaram um pequeno e não muito próspero negócio de electricidade. Albert não foi uma criança sobredotada, mas será exagero afirmar que terá sido mau aluno. Em 1894 o negócio do pai de Einstein faliu e a família mudou-se para Milão. Os pais de Einstein decidiram que este permaneceria em Munique até terminar a escola secundária, mas o autoritarismo desta não lhe agradava e poucos meses mais tarde reunir-se-ia à família em Itália. Foi em Zurique que Einstein concluiu os estudos, tendo-se diplomado pela prestigiosa Escola Politécnica Federal, a ETH, em 1900. O seu temperamento contencioso e o desagrado que a autoridade lhe despertava não caíram bem entre os professores da ETH e nenhum deles lhe ofereceu lugar de assistente, que era então a porta de entrada para uma carreira académica. Só dois anos mais tarde conseguiu um emprego, modesto, na Repartição de Patentes suíça em Berna. Foi enquanto ocupava esse cargo que Einstein escreveu três artigos que, simultaneamente, o estabeleceram como um dos maiores cientistas de todo o mundo e iniciaram duas revoluções conceptuais - revoluções estas que alteraram a nossa compreensão do tempo, do espaço e da própria realidade."
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Este livro é, para quem se deslumbra com as estrelas e os seus mistérios, um verdadeiro tesouro repleto de informação entusiasmante, imagens e gráficos fabulosos e polvilhado com o humor muito especial e a genuína capacidade de explicar conceitos abstractos complicados de Stephen Hawking, um dos maiores divulgadores de ciência de todos os tempos e um cientista teórico fundamental por direito próprio.
Digno sucessor de Breve História do Tempo, o outro lássico que escreveu na década de 80, O Universo Numa Casca de Noz actualiza uma série de conceitos que nos últimos 20 anos sofreram modificações e avanços importantes e apresenta as mais recentes teorias para a explicação da origem do universo e para a tão procurada Teoria de Tudo - o velho sonho de Einstein - uma teoria que conseguisse unificar finalmente as duas grandes teorias irreconciliáveis até ao momento - A Teoria da Relatividade e a Teoria Quântica.
Para além disso, em todo o livro está presente uma coisa muito bonita - a incrível capacidade do espírito humano em superar os maiores obstáculos - Stephen Hawking sofre desde muio jovem de uma doença terrível e fisicamente incapacitante, que não o impediu, mesmo assim, de se tornar numa das mentes mais brilhantes do planeta.
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1942-

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

OS LIVROS DE ANDRÓMEDA - PARTE I


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A Trilogia de Nova Iorque
Paul Auster
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"Cidade de Vidro
1
Foi uma chamada para o número errado que despoletou tudo, o telefone a tocar três vezes no silêncio da noite, e a voz do outro lado da linha a perguntar por alguém que não era ele. Muito mais tarde, quando foi capaz de pensar nas coisas que lhe aconteceram, concluiria que nada era real excepto o acaso. Mas isso foi muito mais tarde. No início, houve apenas o acontecimento e as suas consequências. Não se trata de uma questão de tudo poder ter acontecido de um modo diferente, ou de tudo estar já predestinado desde a primeira palavra proferida pela boca do interlocutor desconhecido. A questão é a história propriamente dita; e se tem ou não algum significado, não é à história que compete revelar isso."
(...)
Fantasmas
Antes de mais há o Blue. Mais tarde virá o White, depois o Black, e antes de começar há o Brown. Brown domou-o, ensinou-lhe o ofício, e quando Brown envelheceu, Blue substituiu-o. É assim que começa. Passa-se em Nova Iorque, nos tempos presentes, e nenhum destes aspectos alguma vez mudará. Blue vai todos os dias para o seu escritório e senta-se à sua secretária, à espera que aconteça alguma coisa. Durante muito tempo nada acontece, mas depois um homem chamado White entra pela porta, e é assim que tudo começa."
(...)
O Quarto Fechado
1
Parece-me agora que Fanshawe esteve sempre lá. Ele é o sítio onde tudo começa para mim, e sem ele dificilmente saberia quem sou. Conhecemo-nos antes de sabermos falar, bebés a gatinhar de fraldas pela relva, e quando tinhamos sete anos de idade já havíamos picado os dedos com um alfinete para nos tornarmos irmãos de sangue para toda a vida. Sempre que penso na minha infância, vejo Fanshawe. Era aquele que estava comigo, aquele que compartilhava dos meus pensamentos, aquele que eu via sempre que levantava os olhos de mim."
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São 3 contos - Cidade de Vidro, Fantasmas e O Quarto Fechado. E um universo. O estranho universo de Paul Auster. Aparentemente, as três histórias nada têm que ver umas com as outras. Mas isso é só aparentemente.
A Nova Iorque de Paul Auster consegue ser ainda mais perturbante do que a verdadeira Nova Iorque. Paul Auster cria universos na ponta dos dedos, sem fim nem princípio, labirínticos, claustrofóbicos, com regras surrealistas, muito diferentes daquelas a que estamos habituados.
É extremamente difícil explicar a escrita de Paul Auster, ou então sou eu que não consigo. Só mesmo lendo.
Um dos meus autores mais do que preferidos.
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1947-

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

OS LIVROS DE ANDRÓMEDA - PARTE I


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Salto Mortal
Marion Zimmer-Bradley
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"Livro I
O Voador (1944-1947)
Capítulo I
Quando mais tarde na vida perguntavam a Tommy Zane qual a sua memória mais antiga, ele nunca hesitou. Era a da queima da Tenda Grande do Circo Lambeth.
Lambeth não era, nem de longe nem de perto, o Maior Espectáculo do Mundo. Tanto quanto ele sabia, seria mesmo um daqueles pequenos circos itinerantes que actuam sobretudo nas aldeias e pequenas cidades rurais do Midwest. A memória que Tommy tinha dos espectáculos realizados na Tenda Grande eram muito vagos, dos tempos em que era tão pequeno que não o deixavam entrar na pista com medo que o pisassem."
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Uma história intensa e muito bonita sobre dois trapezistas de circo - o pupilo e o seu mestre - na América profunda da década de 40-50. É a história de um amor proibido entre dois homens, numa época e num meio em que isso era absolutamente condenado.
Marion Zimmer Bradley é mais conhecida pelas Brumas de Avalon. Foi depois de ler essa saga que vim parar a este livro, já lá vão uns quantos anos. O que ficou foi um sentimento intenso e apaixonante e o rodopio fascinante da vida dos artistas de circo.
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1939-1999

sábado, 11 de agosto de 2007

OS LIVROS DE ANDRÓMEDA - PARTE I


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A Relíquia
Eça de Queiroz
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"Sob a nudez forte da verdade
- o manto diáfano da fantasia
de acordo com a 1ª Edição (1887)
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Decidi compor, nos vagares deste Verão, na minha Quinta do Mosteiro (antigo Solar dos Condes de Lindoso), as memórias da minha vida – que neste século, tão consumido pelas incertezas da Inteligência e tão angustiado pelos tormentos do dinheiro, encerra, penso eu e pensa meu cunhado Crispim, uma lição lúcida e forte.
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Em 1875, nas vésperas de Santo António, uma desilusão de incomparável amargura abalou o meu ser: por esse tempo minha tia, Dona Patrocínio das Neves, mandou-me do Campo de Santana, onde morávamos, em rumagem a Jerusalém: dentro dessas santas muralhas, num dia abrasado do mês de Nizam; sendo Pôncius Pilatus procurador da Judeia, Elius Lamma legado imperial da Síria e J. Kaiapha sumo pontífice, testemunhei, miraculosamente, escandalosos sucessos: depois voltei – e uma grande mudança se fez nos meus bens e na minha moral.”

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Um jovem solteiro vai, com o consentimento da sua titi de quem pretende herdar a choruda fortuna, a Jerusalém e esta pede-lhe que lhe traga uma recordação. Mas o que o jovem acaba por trazer, por engano, é a combinação de uma inglesa com quem se envolveu na viagem :) E mais não digo … :) Mas já se adivinha, não é? Vindo da pena de quem vem … :)
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Bem … que dizer deste senhor? Que é imprescindível, claro! Que a sua ironia é tão acutilante e deliciosa que não podemos passar sem ela. Que a sua escrita é tão actual que até faz confusão. Com Eça percebe-se que Camões estava completamente errado – qual mudam-se os tempos mudam-se as vontades, qual quê! O Portugal de Eça continua a ser o mesmo Portugal de agora, com uma única diferença – as hipocrisias são as mesmíssimas, a inveja do tuga é a mesmíssima, o fadinho do coitadinho é o mesmo, o culto da mediocridade é igual, as titias são as mesmas, só mudaram de cores e altura dos saltos, enfim, a única coisa que mudou foi que infelizmente já não existe Eça. Foi-se! Puf!
Ficou a escrita impecável, capaz de provocar as maiores gargalhadas, as maiores exclamações de espanto, as maiores indignações e os maiores choques. Eça é tão capaz de nos fazer rir com a incrível acutilância com que "apanha" os diversos tipos portugueses, como é capaz logo a seguir de nos cravar um estalo tremendo na cara, chocando-nos com a não menos acutilante forma como descreve as características mais abjectas do carácter humano.
ºçkfºçdl
Os Maias, O Crime do Padre Amaro e o Primo Basílio são outras obras imprescindíveis, obviamente. Mas a Relíquia é uma deliciosa e menos falada trágico-comédia.
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Quando for grande, quero ser como tu, Eça :) Posso? Posso? Posso? Vá lá, deixa lá …

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1845-1900

terça-feira, 7 de agosto de 2007

OS LIVROS DE ANDRÓMEDA - PARTE I


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Quinze Poetas Portugueses do Século XX
Vários
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"No Poema
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Transferir o quadro o muro a brisa
A flor o copo o brilho da madeira
E a fria e virgem limpidez da água
Para o mundo do poema limpo e rigoroso
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Preservar da decadência morte e ruína
O instante real de aparição e de surpresa
Guardar num mundo claro
O gesto claro da mão tocando a mesa."
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Sophia de Mello Breyner Andresen
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Para descobrir a nossa poesia.
Um bom preâmbulo para mais profundas descobertas destes 15 poetas: Camilo Pessanha, Fernando Pessoa (e seus heterónimos), Mário de Sá-Carneiro, Vitorino Nemésio, Jorge de Sena, Sophia de Mello Breyner Andresen, Carlos de Oliveira, Eugénio de Andrade, Mário Cesariny, António Ramos Rosa, Alexandre O'Neill, Herberto Helder, Ruy Belo, Fiama Hasse Pais Brandão e Luiza Neto Jorge

sábado, 4 de agosto de 2007

OS LIVROS DE ANDRÓMEDA - PARTE I



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Peter Pan
J. M. Barrie
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"Chapter I
Peter Breaks Through
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All children, except one, grow up. They soon know that they will grow up, and the way Wendy knew was this. One day when she was two years old she was playing in a garden, and she plucked another flower and ran with it to her mother. I suppose she must have looked rather delightful, for Mrs. Darling put her hand to her heart and cried, 'Oh, why can't you remain like this for ever!' This was all that passed between them on the subject, but henceforth Wendy knew that she must grow up. You always know after you are two. Two is the beginning of the end."
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Outro início de livro brilhante. Com uma frase extraordinariamente simples Barrie deixa-nos agarrados, não só até ao fim do livro, mas para o resto da vida. Eternamente.
Esta é a história de um menino que decidiu não crescer. Mas, como todas as histórias infantis intemporais, Peter Pan tem muito que se lhe diga ...
kfçdkf
Peter Pan é para ser lido pelo menos duas vezes na vida - quando somos crianças e quando somos adultos. Porque existem duas histórias e não apenas uma. A segunda está escondida e só a conseguimos descobrir precisamente quando já somos crescidos.
Por trás da história simples de uma família cujas três crianças, Wendy, John e Michael conhecem um rapaz que voa e fogem com ele para a Terra do Nunca onde irão conhecer um mundo de sonho habitado por sereias estranhas, piratas malucos, grutas misteriosas, fadas mágicas e crocodilos perigosos, existe uma outra história muito mais triste e trágica.
lfkld
Todas as crianças, quando crescem, descobrem um outro Peter Pan. Um menino solitário, triste e sem mãe, que se esconde por trás de aventuras incríveis e sentimentos de faz de conta, um menino que finge todos os sentimentos porque não os conhece e que quer à viva força contrariar a lei natural das coisas.
lfkld
E à medida que se vai lendo Peter Pan, ao longo das páginas e ao longo da vida, o maravilhoso conto que nos fez sonhar e espelhou os nossos sonhos de infância torna-se lentamente cada vez mais trágico e Peter Pan deixa de ser um herói voador para passar a ser alvo de uma pena imensa. Porque Peter Pan quando se recusou a crescer, recusou-se na verdade a viver.
lfkld
E depois, a forma como Barrie conta a história é como se estivéssemos a ouvi-lo recitá-la - Peter Pan foi escrito para ser lido em voz alta a alguém, normalmente alguém pequeno, de olhos esbugalhados, preso de cada palavra nossa :)
lfkld
Um romance genial.
lfkgçlfkg
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1860-1937

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

OS LIVROS DE ANDRÓMEDA - PARTE I


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Orlando
Virginia Woolf
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"Chapter I
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He - for there could be no doubt of his sex, though the fashion of the time did something to disguise it - was in the act of slicing at the head of the Moor which swung from the rafters. It was the colour of an old football, and more or less the shape of one, save for the sunken cheeks and a strand or two of coarse, dry hair, like the hair on a cocoanut. Orlando's father, or perhaps his grandfather, had struck it from the shoulders of a vast Pagan who had started up under the moon in the barbarian fields of Africa; and now it swung, gently, perpetually, in the breeze which never ceased blowing through the attic rooms of the gigantic house of the lord who had slain him."
klfçldºkf
O primeiro parágrafo deste livro podia, só por si, ser considerado uma obra-prima. Mas há outros, muitos mais.
Como aquele em que Virginia Woolf consegue em apenas um punhado de frases laboriosamente urdidas oferecer-nos o retrato completo de um século inteiro, como se passasse diante dos nossos olhos num velho cinematógrafo mudo.
Virginia considerou esta obra, descrita como uma "carta" de amor escrita à sua amiga e amante Vita Sackville-West, uma "mera brincadeira de criança" ...
E eu digo-lhe, respeitosamente, Virginia, vá gozar com a sua titia ... não há direito de fazer pouco dos que não têm um pingo do seu génio chamando a esta obra-prima uma brincadeira ... :) Hmmmpf!!!
klfºdklfºç
Um romance M-A-G-I-S-T-R-A-L.
klfºdklfºç
klfºdklfºç

1882-1941

domingo, 29 de julho de 2007

OS LIVROS DE ANDRÓMEDA - PARTE I



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Nenhum Olhar
José Luís Peixoto
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"Livro I
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Hoje o tempo não me enganou. Não se conhece uma aragem na tarde. O ar queima, como se fosse um bafo quente de lume, e não ar simples de respirar, como se a tarde não quisesse já morrer e começasse aqui a hora do calor. Não há nuvens, há riscos brancos, muito finos, desfiados de nuvens. E o céu, daqui, parece fresco, parece a água limpa de um açude. Penso: talvez o céu seja um mar grande de água doce e talvez a gente não ande debaixo do céu mas em cima dele; talvez a gente veja as coisas ao contrário e a terra seja como um céu e quando a gente morre, quando a gente morre, talvez a gente caia e se afunde no céu. Um açude sem peixes, sem fundo, este céu. Nuvens, veios ténues. E o ar a arder por dentro, chamas quentes e abafadas na pele, invisíveis. Suspenso, como um homem cansado, ar.
Há-de ser um instante em que não se veja um pardal, em que não se ouça senão o silêncio que fazem todas as coisas a observar-nos. Chegará. Hei-de distingui-lo no horizonte. Tão bem quanto sei isto agora, sabia-o ontem quando entrei na venda do judas e pedi o primeiro copo e pedi o segundo e pedi o terceiro. Mais, sabia que por toda a planície se calarão as cigarras e os grilos. De encontro ao céu, as oliveiras e os sobreiros hão-de parar os ramos mais finos; num momento, hão-de tornar-se pedra."
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Um jovem grande autor português, com uma "voz" doce, imensamente poética e verdadeiramente tocante.
Mais palavras para quê? Nenhum Olhar entra-nos na pele, percorre as veias e guarda-se num canto da alma para voltar a "ouvir" de vez em quando, como um eco longínquo, primitivo e sábio.
ºsçº~sçº
1974 -

quinta-feira, 26 de julho de 2007

OS LIVROS DE ANDRÓMEDA - PARTE I

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A Metamorfose
Franz Kafka

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“I
LºÇDLG
Certa manhã, ao acordar de sonhos inquietos, Gregor Samsa viu-se transformado num gigantesco insecto. Estava deitado na cama, sobre a sua carapaça dura, e sempre que levantava um pouco a cabeça via a barriga abaulada, castanha, subdividida em escoras arqueadas, no cimo da qual o cobertor, prestes a resvalar para o chão, se mantinha a custo. As suas muitas pernas, lastimosamente magras em comparação com o resto do corpo, tremeluziam-lhe, impotentes, diante dos olhos.
“Que se passa comigo?” – pensou. Não era um sonho.”
FºÇDLGF
O mundo de Kafka é estranho, sufocante, irónico, absurdo e terrivelmente acutilante.
Um belo dia, um jovem caixeiro-viajante acorda no seu quarto, na casa apertada onde mora com os pais e a irmã, de quem é o único sustento, e vê-se transformado num horrível, enorme e inútil insecto que não é especificado e cuja natureza Kafka deixa ao critério de cada leitor.
Aos poucos a transformação de Gregor afecta a família de formas inusitadas e positivas, o que o leva a sentir-se ainda mais inútil e desesperado com a sua situação.
A Metamorfose é uma alegoria extraordinária à solidão, à sensação de impotência e ao absurdo aleatório da vida. Uma alegoria construída como só Kafka soube fazê-lo, porque os seus mundos são únicos e verdadeiramente inimitáveis.
ÇDKLGFºÇDL
Um romance kafkiano :)
ÇDKLGFºÇDL
1883-1924




segunda-feira, 23 de julho de 2007

OS LIVROS DE ANDRÓMEDA - PARTE I

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Os Lusíadas
Luís Vaz de Camões
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"Canto Primeiro
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As armas e os barões assinalados
Que da Ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes navegados
Passaram além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;
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E também as memórias gloriosas
Daqueles Reis que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando,
E aqueles que por obras valerosas
Se vão da lei da Morte libertando:
Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte."
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Sempre que leio algumas passagens dos Lusíadas sinto-me privilegiada por ter nascido portuguesa, por poder ter fluência numa das línguas mais difíceis do mundo, mas a mais bela de todas.
E a forma como Camões a utiliza é incomparável n’Os Lusíadas. Do primeiro verso ao último, a boca de quem o lê enche-se de flores, que brotam ininterruptamente, transbordando, fluindo, enchendo o espaço à nossa volta de uma floresta encantada de palavras belas, palavras fortes, palavras apaixonadas, palavras guerreiras, palavras coloridas, palavras, palavras, palavras que como jóias preciosas enriquecem a alma.
gºçlºgl
Os Lusíadas é para ser lido quando nos sentimos pequenos e estúpidos e esquecidos do mundo. Nós somos os descendentes dessa grande raça que deu novos mundos ao mundo e que abriu o caminho que agora ruma às estrelas longínquas das fronteiras da Via Láctea.
çglºçgl
E é bom que não nos esqueçamos nunca disso :)
flçºfçf
gkçlgk
c. 1524 - 1580

sexta-feira, 20 de julho de 2007

OS LIVROS DE ANDRÓMEDA - PARTE I


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Kama Sutra
Vatsyayana
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"Capítulo I
Preâmbulo
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Saudação a Dharma, Artha e Kama
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Ao princípio, o Senhor dos Seres criou os homens e as mulheres e, sob a forma de mandamentos codificados em cem mil capítulos, estabeleceu as normas que deverão regular a sua existência em relação a Dharma (obtenção de mérito religioso), Artha (aquisição de riquezas, bens, etc) e Kama (amor, prazer, satisfação sensual). Alguns destes mandamentos, nomeadamente aqueles que dizem respeito a Dharma, foram redigidos em separado por Swayambhu Manu, aqueles que se referiam a Artha foram compilados por Brihaspati e os que se relacionavam com Kama foram apresentados por Nandi, discípulo de Mahadeva, em mil capítulos."
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Para além do óbvio, um pormenor interessante - aqui se apresenta um esmiuçamento pormenorizado dos intrincados caminhos que levam ao desejo feminino, algo que muitas vezes nem homens, nem as próprias mulheres entendem.
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Didáctico (por vezes torna-se mesmo entediante com tanta regra) e curioso do ponto de vista histórico.
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Obrigatório, para quem deseja conhecer todas as perspectivas do prazer sexual.
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Séc. IV - VI a.C.

terça-feira, 17 de julho de 2007

OS LIVROS DE ANDRÓMEDA - PARTE I


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Jane Eyre
Charlotte Brontë
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"Chapter I
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There was no possibility of taking a walk that day. We had been wandering, indeed, in the leafless shrubbery an hour in the morning; but since dinner (Mrs Reed, when there was no company, dined early) the cold winter had brought with it clouds so sombre, and a rain so penetrating, that further outdoor exercise was now out of the question.
I was glad of it; I never liked long walks, especially on chilly afternoons: dreadful to me was coming home in the raw twilight, with nipped fingers and toes, and a heart saddened by the chidings of Bessie, the nurse, and humbled by the consciousness of my physical inferiority to Eliza, John and Georgiana Reed."
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As irmãs Brontë são uma afronta a qualquer um. Eram três (havia também um irmão que escrevia), todas escritoras e todas marcantes para a literatura inglesa, cada uma delas com um único romance (apesar de terem escrito mais): Charlotte Brontë com "Jane Eyre", Emily Brontë com "O Monte dos Vendavais" e Anne Brontë com "Agnes Grey", todos publicados no mesmo ano - 1847.
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Jane Eyre é uma lindíssima história de amor, cheia de desencontros, mal entendidos, sofrimento e enormes obstáculos até ao fim, na verdadeira tradição do romance gótico. É também um dos primeiros romances em que um personagem feminino se destaca e assume o protagonismo, numa época em que o papel da mulher se resumia a casar e assumir o estatuto de senhora de ..., sem direito sequer a instrução.
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Como todos os grandes romances, "Jane Eyre" retrata de forma magistral uma história ficcionada no pano de fundo da época vivida pelo personagem, oferecendo-nos um retrato realista e riquíssimo da vida de uma mulher solteira e de baixa condição, e por isso impossibilitada de grandes aspirações porque lhe faltava o que de mais importante uma mulher podia ter nessa época - dinheiro e nobreza. "Jane Eyre" foi também um dos primeiros romances a retratar com um enorme realismo a vida nos terríveis orfanatos da época.
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Quando foi publicado pela primeira vez, Charlotte foi forçada a fazê-lo sob um pseudónimo masculino, temendo-se que, caso contrário, não teria quaisquer hipóteses de sobrevivência. As críticas foram imediatamente favoráveis e o público adorou. "Jane Eyre" foi considerado o trabalho de um grande génio.
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É um dos meus romances mais que preferidos.
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1816-1855

sábado, 14 de julho de 2007

OS LIVROS DE ANDRÓMEDA - PARTE I

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A Insustentável Leveza do Ser
Milan Kundera

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"Primeira Parte - O Peso e a Leveza

I
O eterno retorno é uma ideia misteriosa de Nietzsche que, com ela, conseguiu dificultar a vida a não poucos filósofos: pensar que, um dia, tudo o que se viveu se há-de repetir outra vez e que essa repetição se há-de repetir ainda uma e outra vez, até ao infinito! Que significado terá este mito insensato?
O mito do eterno retorno diz-nos, pela negativa, que esta vida, que há-de desaparecer de uma vez por todas para nunca mais voltar, é semelhante a uma sombra, é desprovida de peso, que, de hoje em diante e para todo o sempre, se encontra morta e que, por muito atroz, por muito bela, por muito esplêndida que seja, essa beleza, esse horror, esse esplendor não têm qualquer sentido. Não vale mais do que uma guerra qualquer do século XIV entre dois reinos africanos, embora nela tenham perecido trezentos mil negros entre suplícios indescritíveis.”
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Se não se ler mais nenhum livro na vida, que se leia pelo menos este.
Tudo sobre a vida, o ser humano, as emoções, as filosofias, a religião, o amor, o sexo, a doença, a guerra, a paz e até ... cães.
Tudo, enfim, sobre o que é ser humano e carregar a imensa angústia e ao mesmo tempo a maravilhosa aventura de fazer sempre tudo pela primeira vez, sem oportunidade de poder repetir nenhuma experiência depois de aprendermos com os nossos erros.
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Um romance Absoluto e muito, muito bonito.
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1929

quarta-feira, 11 de julho de 2007

OS LIVROS DE ANDRÓMEDA - PARTE I


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Hamlet, Prince of Denmark
William Shakespeare
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"The Scene: Denmark
ACT ONE
Scene 1. Elsinore. The guard-platform of the Castle.
FRANCISCO (a soldier) at his post. Enter to him BERNARDO (officer).
Ber. Who's there?
Franc. Nay, answer me. Stand and unfold yourself.
Ber. Long live the King!
Franc. Bernardo?
Ber. He.
Franc. You come most carefully upon your hour.
Ber. 'Tis now struck twelve; get thee to bed, Francisco.
Franc. For this relief much thanks. 'Tis bitter cold. And I am sick at heart.
Ber. Have you had quiet guard?
Franc. Not a mouse stirring.
Ber. Well, good night. If you do meet Horatio and Marcellus, the rivals of my watch, bid them make haste."
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Quem não conhece o famoso "To be or not to be, that is the question."? Mas ... o que se segue a esta interrogação e o significado dela? ... :)
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A história é simples: Hamlet, o príncipe da Dinamarca, retorna ao reino após saber da morte do rei seu pai e descobre, pela boca do próprio que o visita sob a forma de uma aparição, que os seus assassinos foram nem mais do que a própria mãe e o tio, agora o novo monarca do reino, unidos em adultério.
O que faz um homem nestas circunstâncias? Vinga-se, claro.
E como é que ele faz isso? Finge estar a enlouquecer, enquanto arquitecta com requintes de sadismo a sua cruel vingança.
Esta é provavelmente a peça de Shakespeare mais famosa, mais representada e certamente um dos papéis masculinos mais cobiçados por qualquer actor. É também uma das mais extraordinárias obras de todos os tempos.
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Qualquer peça do tio Shakes é obrigatória, porque a obra do Bardo percorreu todo o espectro das emoções humanas com uma pena exímia. Todas as formas de respirar e de sentir à face da Terra, foram fonte de inspiração para Shakespeare. Ele era a “telenovela” do seu tempo (até porque foi muitíssimo popular enquanto ainda era vivo, felizmente) e há peças que parecem verdadeiras telenovelas mexicanas, no que diz respeito à panóplia de enredos intercruzados que apresentam.
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P.S. O tio Shakes deve ser lido na sua língua original, para quem se sentir com coragem suficiente para isso. Não é preciso entender todas as palavras de uma frase, até porque isso implica 50 idas ao dicionário por parágrafo, mas é suficiente apanhar o sentido geral. A língua inglesa do tempo do Bardo e a forma como ele a utilizou é belíssima e por melhor que seja a tradução, muito se perderá.
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Um mergulho ao mesmo tempo belo e terrível pelo interior da mente de um homem perdido no desejo obssessivo da sua própria vingança.
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1564 - 1616

domingo, 8 de julho de 2007

OS LIVROS DE ANDRÓMEDA - PARTE I


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Gente de Dublin
James Joyce
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"Irmãs
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Não havia esperança para ele, desta vez: era o terceiro ataque.
Todas as noites, ao passar por casa dele (era em tempo de férias) eu me punha a observar o rectângulo luminoso da janela e todos os dias reparava em como aquela luz era mortiça e sempre igual. Se ele tivesse já morrido - pensava eu - havia de se ver na cortina obscurecida o reflexo das velas. Por essa altura, já eu sabia que era costume colocar duas velas à cabeceira dos mortos. Muitas vezes ele me dissera: "Já não duro muito", mas supunha que dizia aquilo por dizer. Agora sei que tinha razão. Todas as noites, quando olhava para a janela, murmurava mansamente para comigo próprio a palavra paralisia, que soava então aos meus ouvidos como um termo singular, tal como me acontecia, na geometria euclidiana, com a palavra gnómon e no catecismo com a palavra simonia. Mas, agora, soava dentro de mim como se fosse o nome de um ser maligno e tresandando a pecado. Enchia-me de terror e, contudo, ansiava por me aproximar dela e por contemplar o seu mortal poder de destruição."
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Viver sem ler um parágrafo que seja escrito por James Joyce, esse colosso brutal da literatura mundial, é como viver sem nunca ter realizado nenhum dos míriades de pequeninos, insignificantes, naturais gestos que nos tornam humanos. Ou seja, é contrariar a ordem natural das coisas. Porque foi sempre sobre isso e nisso e com isso que Joyce construiu a sua arte única.
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Gente de Dublin podia ser gente de qualquer lado, de qualquer cidade, vila, aldeia, país deste mundo. Gente de Dublin é sobre pessoas, é sobre a condição humana. E ler a condição humana através dos olhos e dos dedos de Joyce é um privilégio avassalador. Desenganem-se os que pensam que vão encontrar histórias fantásticas, repletas de ideias ultra originais, com finais surpreendentes. Não … Joyce escreve sobre a vida, a vida do dia-a-dia, a vida de todos nós, levando-nos numa viagem que espreita por janelas e ouve conversas, palavra por palavra, tecendo um retrato meticuloso, profundo e maravilhoso na sua simplicidade quase científica, da vida corriqueira, das pessoas que não são heróis, mas apenas pessoas comuns, de nós. Mas a forma como ele escreve estes pequenos nadas que são a nossa vida é … como se reconstruísse o mundo com palavras.
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Mais tarde, aí sim, Joyce escreveu dois romances impossíveis – Ulisses e Finnegans Wake. São dois trabalhos portentosos, arrasadores, revolucionários e muito controversos. Neles ele desconstruiu todas as regras que havia para destruir e tornou a reconstruir as suas próprias regras, inconcebíveis, inimitáveis, ainda hoje incompreensíveis em muitos sentidos, porque julgo que estavam muito à frente ainda até do nosso tempo. Com Ulisses ele próprio disse que se uma catástrofe arrasasse Dublin subitamente, seria possível reconstruí-la meticulosamente com base apenas nas descrições do seu livro.
A sua escrita inovadora foi já comparada ao que Einstein fez na ciência com a Teoria da Relatividade e diz-se dela que é como um organismo vivo, que se move literalmente, transformando-se e renovando-se de cada vez que é lido, como se as suas palavras e a forma como ele as utilizou estivessem imbuídas de uma seiva orgânica que brota das páginas e cresce juntamente com o leitor - ele foi um dos expoentes máximos da técnica literária "fluxo de consciência" que utiliza precisamente o pensamento do personagem interconectado com a narrativa, de forma que muitas vezes não se distinguem.
Para mim (do que li até agora), ele foi quem mais se aproximou daquela que eu penso ser a utupia das utupias na literatura – tornar o espaço entre a ideia pensada e a ideia que acaba gravada pela mão no papel, o menos distante possível. Existe sempre um elemento de corrupção nessa passagem, porque a linha de construção do pensamento no interior da nossa mente é totalmente diferente da linha construída no papel (para perceber isto, basta fazer uma simples experiência – tentar traduzir um pensamento subitamente para uma folha de papel – quando acabamos de escrevê-lo, percebemos que já não é exactamente o que acabámos de pensar, perdeu-se algo). Gabriel Garcia Marques diz que os melhores livros são sempre aqueles que nunca foram escritos :) (talvez porque permanecem intactos dentro da mente).
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Arrisco dizer que James Joyce foi o Escritor de todos os escritores e que a literatura lhe deve coisas que ainda mal consegue compreender - e não digo isto só porque ele era irlandês ;)
E vou—me calar porque seria preciso um ABC inteiro só para Joyce.
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Este livro de contos é uma delicada, pequena e preciosíssima jóia de um escritor mais do que genial, não há palavra para o descrever. E por isso vou usar uma das muitas palavras que James inventou – farfar (feiticeiro) :)
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1882-1941