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segunda-feira, 21 de março de 2011

Here I Go Again On My Own

Júpiter, Saturno, Urano e Neptuno XVII
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Macro punho fechado
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"E como é que vamos descobrir o que eles andam a fazer?"
"Bom, primeiro parece-me que temos de tentar reverter o que o Techi te fez. Ou me engano muito, ou tu sabes muito sobre o que se passa lá em cima.", disse Cassiopeia.
"Porque dizes isso?"
"Oh, não sei. Chama-lhe feeling.", Cassiopeia continuou a fixá-lo com uma expressão estranha no olhar e depois levantou-se e mergulhou de novo na piscina.
"Chegou então a hora de ver se conseguimos convencer o nosso amiguinho a fazer um acordo connosco.", disse Sheila, afastando-se e puxando-o pela mão.
"Não me parece que esse Saturno fosse de acordos.", disse C.
"Porque lhe chamas isso?"
"Não sei ... parece-me que tinha algo a ver com o seu formato e anéis ..."
"Hmmm. Segue-me."
Voaram os dois até um enorme castelo sinistro, recortado contra um céu escuro e tempestuoso. Enormes raios descarregavam a sua energia pelo espaço e C. teve até dificuldade em fixar o olhar na silhueta do castelo.
"Belas férias ..."
"Achámos que era o mínimo que podíamos fazer por ele - oferecer-lhe uma suite no Castelo Assombrado. O pobre nunca se viu metido em nada do género, estou em crer. Já nem sabe de que terra é."
Ouviam-se curto-circuitos por todo o lado, quando entraram.
"Mas ele não é uma espécie de entidade híbrida? Um vírus, ou algo do género? Consegue assustar-se?"
"Bom, digamos que este tipo de 'sustos' se adequam à sua natureza. Ele não está habituado a lidar com emoções e nós implantámos-lhe um pequeno attachment que o faz sentir ..."
Sheila conduziu-o até um salão enorme, onde uma míriade de candelabros gigantes enfeitavam o tecto alto. Sombras e manchas de cor como de auroras boreais flutuavam por todo o espaço. No centro do salão encontrava-se um enorme buraco. Espreitaram lá para baixo. Saturno encontrava-se no meio de uma autêntica tempestade eléctrica.
"E isto não vai destrui-lo?"
Sheila abanou a cabela, ao mesmo tempo que franzia o sobrolho, como se o que ele tivesse dito fosse um perfeito absurdo.
"Náááá ... O máximo que pode fazer é deixá-lo extremamente confuso e com vontade de aceitar qualquer coisa que lhe propunhamos. Estamos a monitorizar constantemente os seus sinais. Isto está a servir para ele perceber quem manda aqui."
"E quem manda aqui?", C. estava a ficar um pouco assustado com o ar sinistro de Sheila, como se estivesse a ter um enorme prazer em ver o vírus naquele estado. Via-se mesmo que não era humana, ou não teria aquela ausência total de sentimentos, mesmo que fosse por uma criatura daquelas.
"Sim, tens razão. Não sou humana. Mas ele também não é, esqueces-te disso. É uma coisa, não um ser vivo."
"Há quanto tempo é que o têm assim?"
"Desde que vos apanhámos. Há cerca de 72 horas, mais ou menos."
"Tens razão. Mas era isso que estava a pensar, só que não deves ter interpretado bem o meu pensamento. É que nós, os humanos, até por máquinas somos capazes de sentir pena, o que é uma parvoíce, mas é ... humano."
"É por isso que te disse que deves treinar ocultar os teus pensamentos. Pode dar azo a mal-entendidos e há por aqui muita gente que não terá a mesma abertura que eu para que lhes expliques o que era que estavas realmente a pensar."
"Sim, tens razão. O pensamento é uma coisa confusa e cheia de camadas."
"Precisamente. E vocês, humanos, batem recordes nesse departamento. Bom, vamos lá a ver se o nosso convidado está pronto para sair daqui."
"Como é que comunicam com ele?"
"Isso está tratado. Há uma linguagem universal."
"Qual?"
"A da força."
Sheila aproximou-se do buraco e a tempestade eléctrica parou subitamente. C. podia agora ver claramente o pequeno planeta, melhor até do que quando fora apanhado por ele. Era azul e tinha uma quantidade infinita de anéis circulares e multicoloridos a rodeá-lo. Pairava meio de lado numa espécie de campo de forças que o mantinha a flutuar sempre no mesmo sítio.
Sheila voou até lá abaixo. Depois olhou para cima e chamou C.
"Parece-me que ele está preparado."
"Preparado para quê?"
"Para te devolver a memória. Vem."

segunda-feira, 14 de março de 2011

Here I Go Again On My Own

Júpiter, Saturno, Urano e Neptuno XVI
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Macro lâmpada
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"«Le0pard» começou por organizar as hostes, tentando reunir as mentes mais brilhantes que se tinham transferido. Foram tempos difíceis e entusiasmantes, mas em geral não houve grandes problemas quando se tratou de escolher um líder. A comunidade hacker é muito democrática nesse aspecto e está sempre pronta a apoiar os membros que mostram ter um valor indiscutível. A reputação de Jorge era já lendária, antes de se transferir e por isso foi quase natural que se tivesse tornado o Chefe da Resistência. A escolha do seu, digamos, Concílio, foi mais complicada. Havia várias pessoas a considerar, mas Jorge queria manter as coisas simples e por isso foram escolhidos apenas mais quatro Chefes, que dividiram o mundo em secções que cada um controla. Cada Chefe tem o seu Assistente e temos assim 10 pessoas ao todo a comporem o Governo Sombra do Planeta. Vou-te dizer os seus nomes, pode ser que alguma coisa desperte a tua memória: para além do Jorge, há o Ariel, israelita, aka «Devil_Master» que controla a Ásia, Vincent, americano, aka «Krueg» que controla a América, Human, juguslavo, aka «L00p», que controla a África e Carlos, outro português, aka «Júpiter», que controla a Europa. Estes nomes não te dizem nada?"
"Não ... lamento ..."
"Prossigamos, então. Jorge teve alguns problemas inicialmente com dois destes seus membros - Vincent e Carlos eram rivais antes de se transferirem, mas eram também dos melhores hackers e ele não quis prescindir de nenhum deles. Carlos hesitou bastante antes de aceitar e quando finalmente aceitou, foi Vincent quem ameaçou abandonar o Concílio. Foi preciso muita perssuasão para que os dois conseguissem funcionar em conjunto e as coisas nunca ficaram totalmente pacíficas, mas a verdade é que durante 200 anos não houve grandes crises.
Durante todo esse tempo, o Governo Sombra tentou por todos os meios que estavam ao seu alcance proteger-se e proteger a comunidade de ARLIs, ao mesmo tempo que tentavam conhecer o inimigo para encontrar falhas ou fraquezas no sistema. O tempo aqui corre de forma um pouco diferente do tempo lá fora e por isso, pode parecer incrível, mas 200 anos passaram-se num instante. Durante todo esse período houve apenas dois momentos em que a Resistência esteve muito próxima de conseguir algum tipo de sucesso: um deles foi protagonizado pelo próprio Jorge, o outro por Vincent.
Logo no início, quando o entusiasmo ainda era enorme e as hostes estavam todas a trabalhar afincadamente para resolver a fatalidade que se abatera sobre a Terra, foi organizado um ataque em massa à fonte do sistema, mas as coisas correram muito mal. Centenas de ARLIs foram eliminados, porque se descobriu que afinal aquilo que se pensava que era a fonte não passava de um engodo. Jorge escapou por um triz e isto apenas aumentou o seu estatuto lendário na comunidade. Ele foi o único ARLI até hoje que esteve o mais próximo que é possível estar da fonte e que conseguiu iludir todos os sistemas de detecção possíveis e imagináveis graças às suas habilidades extraordinárias. Mas algo aconteceu que ficou para sempre como uma mancha a ensombrar ainda mais a relação dos 4 Chefes - Vincent estava com ele e deixou-o sozinho, o que foi considerado sobretudo por Carlos como a confirmação das suas suspeitas acerca do americano. A verdade é que Jorge não o retirou do programa e manteve-o exactamente como estava. Desde aí a relação entre os dois manteve-se sempre muito diplomática e fria.
O segundo momento foi quando Vincent, nem mais, decidiu agir totalmente sozinho e ir directamente à verdadeira fonte. Isto aconteceu cerca de 100 anos após a primeira tentativa. Ele é de todos os Chefes, quem mais pesquisou sobre a natureza das máquinas. Mas agir sozinho foi uma total desobediência às regras da casa e isso viria a ser-lhe quase fatal. Foi exposto e quase eliminado, não fosse o próprio Carlos tê-lo safado do embróglio, precisamente porque andava também secretamente a espiar os seus movimentos. Como deves calcular, e apesar de Jorge ter insistido em mantê-los no Programa, as coisas nunca mais foram as mesmas para ninguém.
Há pouco tempo, soube de fonte segura que Carlos abandonara de vez o Programa e que Vincent se prepara para organizar um ataque à fonte semelhante ao da primeira vez, usando todos os ARLIs do sistema. Não sei o que se passou, mas presumo pelos boatos que tenho ouvido que Carlos não tenha concordado com o que se estava a passar e tenha decidio abandonar a Resistência."
Sheila olhou para C., que abria e fechava a mão, como se estivesse fascinado pelos seus movimentos articulatórios.
"E porque é que tu não estás com os outros ARLIs?"
"Long story, baby. Talvez um dia te conte. Mas o que interessa neste momento são duas coisas, parece-me: tentar perceber quem tu és", e quando disse isto Cassiopeia fixou-o intensamente, "e tentar perceber que raio é que aqueles meninos lá em cima se preparam para fazer, porque isso vai-nos afectar a todos."

segunda-feira, 7 de março de 2011

Here I Go Again On My Own

Júpiter, Saturno, Urano e Neptuno XV
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Macro saco de chá
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Sobrevoaram Sheiland, ou uma parte dela, porque, como lhe explicou Sheila, o seu reino era quase infinito e havia lugares em Sheiland para todos os gostos. Cruzaram-se com outros avatares sozinhos ou em grupos. Toda a gente parecia bela e bem proporcionada e C. notou isto. Sheila explicou-lhe que a tendência das pessoas era sempre escolherem os corpos mais perfeitos e mais parecidos com aquilo que sonhavam ser, do que propriamente com a realidade. As asas eram um ítem muito requisitado, ao que parecia, e havia-as de todos os formatos, feitios, cores e proveniências. De borboleta, de fada, de libelinha, de aves poderosas como o falcão ou a águia, até de anjo.
Aquela parte de Sheiland chamava-se Terra Encantada e era tudo aquilo que a imaginação podia conceber. Havia castelos e palácios encantados perdidos numa imensidão de florestas e bosques encantados, onde se ouvia música suave e passarinhos a chilrear. Havia lagos profundos, onde alguns avatares passeavam de barco ou relaxavam em enseadas sossegadas. Havia varandas e terraços com balaustradas decoradas de cortinados esvoaçantes onde pares dançavam ou simplesmente conversavam. Era um ambiente calmo e acolhedor, quase mágico e C. pensou que se sentia ali como há muito tempo não se sentia - em paz.
"Sim, é verdade. É isso que Sheiland pretende oferecer a todos quantos nos visitam - paz e um espaço onde todos possam realizar os seus sonhos, desde que não prejudiquem ninguém. Vou-te apresentar Cassiopeia. Ela é uma ARLI como tu, mas está connosco há já algum tempo. Ela poderá, melhor do que eu, contar-te como a Resistência se estabeleceu e o que se passou nestes 200 anos."
"Eu conheço-a?"
"Não sei. Iremos descobrir isso agora."
Sheila inflectiu o seu plano de vôo e começou a descer até um promontório onde se encontrava um enorme templo japonês. C. seguiu-a. Quando pousaram, descobriu que havia uma pequena piscina no interior do templo, rodeada de rochas e amendoeiras, onde uma bela mulher ruiva flutuava, parecendo completamente alheada de tudo. Quando se aproximaram, a mulher abriu os olhos e sorriu.
"Este é o ARLI de que te tinha falado, Cassiopeia."
Cassiopeia ergueu-se da sua posição deitada e saiu da piscina, envolvendo o corpo escultural numa toalha de linho branco. Estendeu-lhe a mão, a que C. correspondeu meio aturdido. Nunca a vira, claro.
"Bom, não sei se já nos conhecêmos, mas o meu nome agora é Cassiopeia. Antes de abandonar a Resistência e vir refugiar-me aqui chamava-me «Neptune». Mas vamos sentar-nos ali.", apontou para um tapete oriental sobre o qual se encontravam uma esteira de palhinha e algumas almofadas encarnadas espalhadas em seu redor. "Tenho chá verde, ou a ideia de chá, de qualquer modo.", sorriu e dirigiram-se todos para o recanto do chá.
Sentaram-se de pernas cruzadas. C. teve alguma dificuldade em encolher as suas asas e Sheila ajudou-o.
"Não te lembras de nada?", perguntou-lhe Cassiopeia.
"Nada."
"Muito bem. Talvez o que te vá contar desperte alguma memória. Vamos ver.", serviu o chá a partir de um bule preto decorado de minúsculas flores coloridas. C. experimentou pegar na pequena taça e aproximá-la dos lábios.
"Não te preocupes.", disse-lhe Sheila, "o teu cérebro pensará que está mesmo a beber e provocará essa ilusão.
Bebeu um gole. Sabia-lhe mesmo a chá quente e ... a algo que lhe era familiar.
"Parece-me que o chá também poderá ajudar.", sorriu Cassiopeia vendo a sua expressão de surpresa, "Talvez fosse uma das tuas bebidas favoritas antes de te teres transferido."
"Talvez ..."
"Bom, vamos lá então. Presumo que Sheila já te tenha dado uns lamirés sobre como tudo se passou até chegarmos a este ponto."
"Sim, já."
"Muito bem. Quando as pessoas se começaram a transferir, muitos descobriram que não tinham sido os únicos e começaram a formar alianças aqui dentro do sistema. Uma dessas pessoas destacou-se logo de início. Era um jovem português de 17 anos chamado Jorge, aka «Leopard»?", Cassiopeia esperou para ver se a menção do nome lhe provocava alguma reacção.
C. piscou os olhos e esperou.
Cassiopeia continuou:
"«Leopard» era um visionário. Provavelmente o melhor hacker do mundo, se bem que ele próprio nunca admitiria isso."

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Here I Go Again On My Own

Júpiter, Saturno, Urano e Neptuno XIV
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Macro CD
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"Quando as coisas começaram a ficar realmente negras, houve uns poucos de crâneos espalhados pelo mundo que tiveram a mesma ideia. Alguns sabiam o que era preciso para se fazer aquilo que há décadas era apenas uma espécie de utupia tecnológica - viver sem corpo físico. Chama-se 'esvaziamento sináptico' à operação de transferir todo o conteúdo cerebral para uma bolsa digital que funciona autonomamente, não necessitando de corpo. Aquilo que era ficção científica, tornou-se possível há 200 anos atrás. Presume-se que a Guerra tenha acelerado as coisas e que, colocadas entre a espada e a parede, algumas mentes brilhantes tenham finalmente conseguido realizar este truque mágico. Claro que houve alguns casos que correram mal. Houve pessoas que foram encontradas junto dos seus computadores, perdidas num vazio de loucura ou num estado vegetativo irrecuperável. A transmissão não tinha funcionado ou então fora interrompida ou pura e simplesmente tinha retrocedido, duplicando o conteúdo de informação neuronal no seu hospedeiro. Enfim, uma trapalhada, quando corria mal."
Sheila torceu o nariz e abanou a cabeça, como se quisesse exorcizar memórias desagradáveis.
"Também houve bolsas meio formadas que ficaram a vaguear no sistema, sem destino, completamente desorientadas, mas com uma parte da mente de alguém. Vocês não quiseram saber delas e nós guardá-mo-las."
"Guardaram-nas?", C. estava a ficar algo enjoado com aquela conversa.
"Sim ... durante algum tempo tentámos fazer alguma coisa por elas, recuperar esses pedaços da alma de alguém. Parecia-nos uma barbaridade abandonar assim entidades que continham alguma forma de vida, sem as tentar ajudar. Mas rapidamente nos apercebemos que não era possível fazer nada e fizémos o que tinha de ser feito ...", a voz de Sheila baixou para um tom quase inaudível, ao mesmo tempo que a sua cabeça, "Foi rápido e cremos que indolor. Foi melhor assim."
Levantou a cabeça. Havia uma lágrima a luzir no canto do seu olho.
"Mas o que nos interessa agora são os casos que resultaram.", sorriu e a sua voz animou-se de novo, "Como o teu e o de todos os teus companheiros. São muitos. Não sei exactamente quantos mas há alguns milhares de ARLIs no sistema. Conseguiram transferir toda a sua essência, isto é, a sua personalidade mental juntamente com os seus conhecimentos memorizados, para as tais cápsulas digitais e é assim que sobrevivem aqui dentro, alguns andam também artilhados com uma série de outros periféricos, enfim, há ARLIs para todos os gostos.", soltou uma gargalhada, "A grande maioria aliou-se para formar a Resistência. Já lá iremos. Mas também há ARLIs solitários, que vagueiam por aí sem eira nem beira, sempre muito independentes. Às vezes visitam-nos mas nunca os conseguimos reter por muito tempo."
"Reter?"
"Oh é apenas uma força de expressão. Não prendemos ninguém, muito menos ARLIs. De vez em quando passam aqui uns tempos mas não ficam, para desgosto das meninas de Sheiland. É a vida.", sorriu e encolheu os ombros.
"Mas porquê?"
"Ora, porque os ARLIs são assim uma espécie de heróis de guerra cobiçados. O problema é que a grande maioria de vocês não se sente muito atraído por corpos fictícios e portanto preferem manter-se nas vossas bolsas digitais, sem corpo e consideram tudo isto uma infantilidade passageira. É claro que toda esta veneração das avatares pelos ARLIs é um pau de dois bicos para elas próprias porque se os seus heróis conseguissem o que pretendem, este mundo, eu, todos os avatares e todas as outras formas de vida artificial desapareceriam, provavelmente."
"Porquê?"
"Bom, porque é precisamente contra tudo isto em geral que vocês lutam há 200 anos. Contra "a" máquina.", e Sheila fez o sinal de aspas com ambos os dedos indicador e médio, os braços levantados no ar.
"Antes de te explicar como funciona a Resistência, quero-te apresentar alguém."
"Quem?"
"Já verás. Vem. Vamos fazer um intervalo e sair daqui.", e abriu as asas, preparando-se para voar.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Here I Go Again On My Own

Júpiter, Saturno, Urano e Neptuno XIII
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Macro gomo laranja
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"O mundo como o conheces, mas não te lembras, o mundo como o vês aqui, um pouco alterado porque aqui damos largas à imaginação, enfim, o mundo deixou de existir, fundamentalmente porque deixou de ter pessoas para o olhar. Não sabemos se continua lá ou não. Tudo indica que sim, mas não fazemos ideia se elas mudaram radicalmente a paisagem, percebes? Por isso, o que acontece a uma coisa quando não estás a olhar para ela? É como se não existisse."
Sheila soltou uma risadinha cristalina.
"Não ligues. Sou uma adepta das filosofias orientais. Mas isso tem tempo."
"Não sobrou ninguém?", perguntou C.
"Sim, sobrou. Houve humanos poupados, claro. Alguns fizeram acordos porque eram suficientemente valiosos para poderem fazê-los - cientistas, matemáticos, físicos, químicos, etc. O pessoal das ciências foi quem se safou melhor. Outros foram escolhidos pelas suas características físicas e biológicas e genéticas, para preservar uma amostra da espécie humana. As escolhas foram um pouco aleatórias, cobrindo uma série de factores. Não foram apenas os mais bonitos, ou os mais resistentes, mas também os que carregavam em si determinados genes raros, etc. A restante maioria foi trabalhar para colónias de alimentação, onde acaba a servir de combustível para as máquinas."
"Combustível?"
"Sim, são colocados em espremedores gigantescos, vivos, e literalmente esmagados como se se tratassem de gomos de laranja. Os restos são liquidificados e fornecidos como alimentação às 'manas'."
"Mas isso é ..."
"Canibalismo, sim. Não se sabe que efeitos poderá provocar-lhes. Quanto aos humanos, foram fechados em cúpulas gigantescas com um contacto mínimo com o exterior. O sistema está constantemente a advertir relativamente ao aumento do buraco de ozono e ao efeito de estufa, mas pensa-se que isso servirá apenas para manter os humanos prisioneiros convencidos de que não podem sair lá para fora. Estes humanos são como crianças - não decidem nada sozinhos, vivem em casas transparentes, têm monitorização constante, só reproduzem se e quando elas quiserem e fazem basicamente o que elas querem que eles façam. Na verdade, esta geração de humanos já é a quinta ou sexta depois da Guerra, e portanto nem sequer conhecem outra forma de vida. Para eles viver dentro de casulos de vidro gigantescos e protegidos por máquinas é normal porque sempre assim foi."
"E nós?"
"Já lá vamos. Há outra coisa importante que precisas de saber relativamente às pessoas que resistiram no início. Alguns não foram aniquilados e sobrevivem até hoje em criogenação permanente."
"Como assim?"
"Os originais. O que significa que existem pessoas do teu tempo, de quando tu resolvestes passar para dentro do sistema, que ainda estão vivas, preservadas em gelo."
"Porquê e porque é que isso é importante?"
"Bom, não se sabe bem o porquê. Há suspeitas sobre os motivos. Relativamente à importância, já te perguntaste porque lutam vocês ARLI's há tanto tempo?"
"Não me lembro ..."
"Não ... não te lembras. Eu explicar-te-ei porquê. Chegamos finalmente à parte que te diz respeito. És um ARLI - ser provido de vida artificial."

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Here I Go Again On My Own

Júpiter, Saturno, Urano e Neptuno XII
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Macro Pele/Metal
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"Quando o mundo ainda era mundo havia plantas, pessoas, mares, terra, espaço. Imagina uma bola enorme. Um globo. Era isso o mundo. Com milhões de quilómetros de extensão. Redondo. Sempre a girar, em torno de um sol, como aquele ali em cima. Imagina tudo isto que vês aqui, mas sextuplicado dezenas, centenas, milhares de vezes. Os humanos, vocês, eram a espécie dominante. Havia animais, como as gaivotas de quem te dei as penas. Eram seres inferiores, não pensavam como vocês, não eram capazes de construir civilizações como vocês são. Havia máquinas também. Foi aí que o problema começou. Ou antes, talvez devesse dizer que o problema começou em vocês. Os humanos têm todos os defeitos que possas imaginar. São vaidosos, gananciosos, egoístas, manipuladores. Presumo que com a inteligência venham uma série de aplicações anexadas. Vantagens e desvantagens, percebes? Pontos fortes e pontos fracos. Os humanos dominavam mas precisavam de ajuda. As máquinas ajudavam. São seres concebidos de raíz, com inteligência artificial, capazes de coisas que o corpo físico humano não é. Podem ser minúsculas ou gigantescas, individuais ou múltiplas, podem ser tudo. O problema foi que as máquinas foram feitas à semelhança dos seus criadores. Como Deus. Os homens quiseram ser deuses. Lixaram-se."
Selfid fez uma pausa para respirar fundo.
"Estou cansada de ser dragão. Vou mudar. Espera."
Abriu as asas e quando as fechou novamente já não era um dragão mas algo parecido consigo próprio, só que com cabelo comprido e mais bonita.
"Esta sou eu, verdadeiramente. Sheila. Quer dizer, aquilo que eu quero ser. Adiante. As máquinas começaram a ser demasiado auto-suficientes. E houve alguns humanos que foram demasiado gananciosos. Quiseram fazer um híbrido entre um humano e uma máquina. À sucapa. A coisa descontrolou-se. Algures nas florestas da Juguslávia (um ponto interessante para pesquisares mais tarde se quiseres - é sempre na Juguslávia que as coisas correm mal), uma das experiências levadas a cabo deu para o torto. As "manas" - máquinas humanas - começaram a descontrolar-se e tomaram conta da estação científica aí instalada. Foram enviadas forças militares para controlar a revolta, mas a coisa era mais complicada do que parecia. ONU, NATO e outras organizações internacionais enviaram reforços e continuaram a enviar reforços. O conflito prolongou-se sem haver esperança de qualquer resolução."
A voz de Sheila alterou-se e parecia agora vinda de um qualquer televisor que emitia notícias.
"Centenas de soldados. Centenas de voluntários. Meses. Anos. Nada. Até que começaram a aparecer os monstros nas florestas. Seres híbridos, escapados a qualquer controlo, que arrasavam com tudo, destruíam tudo."
C. piscou os olhos. Voluntários. Aquela palavra ...
"Sim? Diz-te alguma coisa?"
"Não sei ... Continua ..."
"Bom, para resumir uma grande salganhada, ao fim de um tempo as pessoas começaram a aperceber-se que aquilo já não estava circunscrito apenas àquele território. Tinham surgido outros focos de tensão noutros pontos do globo. Parecia uma espécie de epidemia. Os soldados morriam aos magotes. Desapareciam. A situação começou a tornar-se insustentável. Muitas pessoas resistiram. Civis, voluntários. Formaram a resistência. Mas não podiam fazer muito. As "manas" eram poderosíssimas e, pior do que isso, estavam determinadas a vencer. Queriam libertar-se. Queriam tomar conta do mundo. E foi o que fizeram. Em apenas 3 anos conseguiram dominar os humanos."

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Here I Go Again On My Own

Júpiter, Saturno, Urano e Neptuno XI
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Macro Pena Sintética Roxa
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Selfid pigarreou e olhou em volta. O terraço onde estavam encontrava-se recheado de vegetação luxuriante. Ouviam-se pássaros a chilrear e água a correr, algures no meio do verde. Por cima deles um céu azul brilhante com um sol e uma lua e a separá-los uma magnífica aurora boreal. C. pensou que havia algo de estranho com aquele azul, mas não sabia precisar exactamente o quê.
"Bom, como já deves ter reparado, estás num mundo diferente daquele onde te costumas mover."
C. fixou-a, vazio.
"Tens razão, tu não sabes qual é o mundo onde te costumas mover. Será melhor talvez começar pelo princípio de tudo. Mas vou só resumir brevemente os capítulos que irei desenvolver de seguida. Sou muito organizadinha. Graças a isso é que consegui fazer isto.", e ao mesmo tempo que dizia aquilo os seus braços abriram-se para abarcar o espaço em seu redor. Deu uma reviravolta sobre si mesma e sentou-se novamente, as asas verdes escamadas em descanso por trás das costas.
"No princípio havia o mundo.", soltou uma risadinha, como se estivesse a partilhar uma piada privada, mas que C. não entendeu, "Depois veio a guerra e o mundo foi destruído. Os que ficaram resistiram, mas não por muito tempo. A sua luta e a sua aniquilação fazem agora parte de lendas e mitos alguns deles muito alterados. Outros houve que foram mais inteligentes e decidiram entrar directamente na rede que os estava a destruir. Esses, como tu, sobreviveram, mas deixaram de ser humanos, de ter corpo."
C. olhou para si próprio. Mas ele tinha corpo.
"Uma ilusão, aliás como tudo o que vês aqui à tua volta. Os tais, como tu, que sobreviveram, os ARLIs, vivem algumas camadas mais acima daquela onde nos encontramos, de acordo com os seus próprios termos. Constituem a Resistência e tentam lutar contra o sistema. Não têm conseguido muita coisa, mas persistem. O resto de nós, os freaks como lhes chamo, elaboraram os seus próprios nichos e lá vivem. Há muitas espécies de freaks a vaguear por aí. Como o Techi que te ia enviando desta para melhor. Como eu, um avatar. Um avatar é uma espécie de duplo tecnológico imaginário de um humano. Quando o mundo ainda era mundo, os avatares eram controlados pelos humanos que os criavam. Quando o mundo deixou de ser mundo e esses humanos desapareceram, os avatares que haviam sido por eles criados ficaram aqui à deriva. Alguns morreram. Somos frágeis, muito frágeis.", a voz de Selfid baixou e ficou quase um sussurro, "O Cemitério Virtual está apinhado de avatares.", C. julgou ver uma pequena lágrima reluzir no canto do seu olho esquerdo, "Outros, como eu, conseguem sobreviver porque são um pouco mais inteligentes e rodeiam-se de ... podemos chamar-lhes alianças úteis.", os seus olhos baixaram por momentos e C. percebeu que aquele assunto das alianças era um tema sensível para ela, "Foi o que fiz. Rodeei-me de aliados úteis, mais fortes do que eu. E criei este mundo. Um pouco à semelhança do mundo onde fui criada. Os avatares vivem esfomeados por sonhos, ilusões, fantasias. É essa a sua essência. Depois entenderás. E eis-te aqui, comigo, no meu mundo, onde és muito bem-vindo.", parou um pouco e suspirou.
"Ok ... agora podias recapitular tudo com mais calma? O que é que me chamaste, exactamente?"
"ARLI - Artificial Life. Sim, agora vamos ao início novamente. Quando o mundo ainda era mundo."

domingo, 30 de janeiro de 2011

Here I Go Again On My Own

Júpiter, Saturno, Urano e Neptuno X
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Macro testa
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"Nada, nada mesmo?"
"Népias. Não sei quem sou."
"Hmmmm. Interessante."
"Não é nada interessante. Nada mesmo. Nem do meu nome me lembro."
"Já tinha visto muitas coisas acontecerem a quem se mete com o raio do Techi, mas isto nunca. Hmm Hmm.", e Selfid abanou a cabeça, "Vamos pousar um pouco.", apontou com a cabeça para um terraço suspenso cheio de vegetação luxuriante."
"Onde é que estou exactamente?", detestava admiti-lo mas aquelas asas faziam-no sentir-se ...
"Como?"
"Hãm?"
"Como é que as asas te fazem sentir?"
"Ah! Ahhh ... livre."
Selfid sorriu.
"Podia ter-te dado de albatroz, mas achei que ainda não estás preparado para tamanha responsabilidade. Mais a mais, com asas de albatroz não terias tanta flexibilidade. Andamos atulhados. Bom, vamos lá a ver. Proponho o seguinte - explico-te tudo o que sei. Talvez assim até te ajude a recuperares a memória, se é que existe alguma coisa para ser recuperada."
C. piscou os olhos. Era um vazio. Nada. Era como se tivesse acabado de nascer há umas horas atrás. A sensação era ao mesmo tempo aterradora e ... leve.
"Pois. Olha, vamos começar pelos pensamentos. Tens que aprender a não projectá-los. Se bem que ... até estou a gostar de os ver. O problema é que andam por aqui muitas criaturas estranhas e é preciso que te protejas. Pelo menos enquanto não solucionarmos o problema da memória."
"Sim. Explica-me."
"Fazes assim. Alguma vez fizeste meditação?"
C. piscou os olhos novamente.
"Pois, não. Quer dizer, mesmo que tenhas feito não te lembras. Pergunta estúpida", soltou um novo riso cristalino. "Na meditação aprendes a não pensar em nada. Aqui tens que fazer o reverso. Ou seja, em vez de não pensares em nada, tens que tentar pensar em muitas coisas ao mesmo tempo e assim nenhum dos pensamentos consegue ser projectado para fora e ser visto por toda a gente. Percebes?"
"Mais ... ou menos ..."
"Tenta."
C. fez várias tentativas mas havia sempre várias palavras que conseguiam escapar.
"Bom, isto é uma questão de prática. Tens que praticar. E enquanto não conseguires dominar a coisa, não te expomos demasiado. Adiante."
"Vais-me explicar onde estou?"
"Vou-te explicar tudo. Onde estás. Onde estamos. De onde viemos.", soltou nova gargalhada, "Pareço uma daqueles cassetes de auto-ajuda."

domingo, 23 de janeiro de 2011

Here I Go Again On My Own

Júpiter, Saturno, Urano e Neptuno IX
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Macro Pena Gaivota
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Sheila ou Selfid elevou-se no ar e abanou as asas azuis, esvoaçando em seu redor. Parecia estar à procura de algo. Finalmente quando pousou de novo, tinha umas asas gigantes de gaivota nas mãos.
"Asas. Um bom par delas, é o que precisas."
C. olhou para as asas, desconfiado. Para que precisava ele daquilo? E porque carga de água é que ela estava a falar numa língua que ele entendia perfeitamente? Só não conseguia dizer qual era. Aliás ...
Selfid aproximou-se e colocou-lhe as asas nas costas. Costas? Mas desde quando é que ele tinha costas? Espera ... Apalpou-se. Mas como raio é que se conseguia apalpar? Olhou para um par de mãos que lhe saíam de um par de braços. Havia aqui qualquer coisa que não estava a bater certo, mas ele não conseguia apontar o dedo exactamente ao que era.
Olhou em seu redor. Estavam numa espécie de salão enorme, com candelabros pendurados por todos os lados, que projectavam uma luz reconfortante. As janelas estavam decoradas com vitrais coloridos e havia cortinados esvoaçantes por todo o lado. Ouvia-se uma música suave e havia mais formas a esvoaçarem por ali, mas C. não conseguia perceber o que eram.
Quando deu por si estava no ar, e Selfid esvoaçava novamente, desta vez ao seu lado.
"Mas onde é que eu estou?"
"Já te disse. No meu castelo. Mas existem muito mais coisas no meu País."
No meu País? ...
"Não projectes os pensamentos. Consigo vê-los todos."
"Projectar os pensamentos? ..."
"Sim. Depois ensino-te como se faz isso. Ou como não se deve fazer.", e Selfid lançou uma risada mimosa para o ar. Ao mesmo tempo que ela se riu, notas musicais sairam-lhe da boca e o dragão azul ficou envolvido numa espécie de pauta musical flutuante.
"Mas isso fica para depois. Agora vais-me contar tudo."
Tudo? Tudo o quê?
"Tudo o que se passa contigo. Quem és, de onde vens, como vieste aqui parar e, sobretudo, como raio é que foste parar às mãos daquele esquisitóide do Techi."
Estaria a referir-se a Saturno.
"Saturno?"
"Deve ser."
"Onde é que ele está?"
"Dentro duma jaula na masmorra do castelo.", Selfid riu-se outra vez.
E C. apercebeu-se de repente que não fazia a menor ideia de como haveria de responder às perguntas do dragão. Não se lembrava absolutamente de nada do que lhe tinha acontecido ou do que era antes de encontrar o planeta.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Here I Go Again On My Own

Júpiter, Saturno, Urano e Neptuno VIII
gfklgnj
Macro escamas peixe
dklsçlad
Tinha de agir rapidamente. Se deixasse que Saturno o adormecesse de novo, sabia que jamais acordaria.
Agiu instintivamente. Colocou todos os programas a funcionar a 100%, o arsenal inteiro, com todos os sub-programas também em funcionamento. Nunca puxara tanto pelo seu próprio sistema. Era um risco, mas tinha de o correr. A alternativa era ser eliminado. C. pensou que preferia ficar chalupa a ser eliminado. Ao menos assim talvez conseguisse esquecer-se de uma vez por todas de muita coisa.
Puxou por si próprio até ao último bit. As RCM's comparadas com isto eram viagens de montanha-russa comparadas com o descolar de uma nave espacial. A sua mente começou a ceder, a enfraquecer, a estilhaçar-se. Se conseguisse chegar inteiro ao outro lado daquelas cores assassinas, seria um milagre. Sentiu algo a romper-se literalmente dentro de si. Mas, ao mesmo tempo, conseguia sentir as cores a afastarem-se levemente. Era uma alteração mínima nos tons, mas estava a acontecer. Estava a conseguir proteger-se do ataque colorido de Saturno. O preço que teria de pagar, não queria sequer pensar nele. Sentiu como se os seus neurónios, que já não existiam como neurónios nervosos há 200 anos, estivessem a implodir todos ao mesmo tempo. Depois começou a ver apenas uma única cor a aproximar-se - indigo forte, como uma explosão de recife subaquático.
Pensou nela. Tuesday. Amo-te, Tuesday. Ainda te amo. Nunca deixei de te amar. Até ao fim dos tempos. Until the end of our time ... Tuesday ...
E depois o negro opaco do vazio inundou-lhe a mente.
lfkd
Acordou. Boiava num plasma azulado pululado por microscópicas explosões de luz. Morri e vim parar ao Cemitério Virtual? Estou rodeado de Suzies moribundos?
"O meu nome é Sheila, não é Suzie."
Rodopiou sobre si próprio repentinamente, assustado com o som intenso daquela voz cristalina e líquida, como se a estivesse a ouvir através de uma parede de água. Não viu nada, apenas uma continuação do plasma azulado, mas como se alguém tivesse passado à velocidade da luz pela cor e deixado um rasto nebuloso a pairar, que adensava ainda mais a atmosfera.
"Sheila?"
"O meu nome é Sheila. Sou um avatar de 50ª geração. Onde é que foste desencantar aquela aberração?"
Qual aberração? Saturno? Onde é que ele estava?
"Onde é que estou?"
"No meu castelo. Queres um par de asas? Ou preferes algo mais electrónico? Tens ar de quem precisa dum bom par de asas. Hmmm. Pretas, talvez."
"Não te vejo."
"Pois não. Espera. Estou a decidir como me vais ver. Talvez ... sim ... pode ser. Voilá!"
Diante de si materializou-se um pequeno dragão totalmente azul, com asas recortadas e escamas brilhantes.
"Sheila?"
"Eu mesma. Mas hoje podes-me chamar Selfid."

domingo, 9 de janeiro de 2011

Here I Go Again On My Own

Júpiter, Saturno, Urano e Neptuno VII
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Macro olho humano
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Alguns dias mais tarde, a comunicação entre C. e Saturno, como o passara a designar mentalmente, tornara-se suficientemente clara para C. conseguir perceber que estava a lidar com uma entidade gerada no sistema, sem qualquer espécie de contacto com o exterior ou partilhando existência com qualquer outro seu semelhante.
Saturno nascera nas redondezas, algures numa das camadas da cebola do sistema, C. não sabia há quanto tempo porque o "planeta" não tinha noção dessa medida. Pela informação que era possível percepcionar, tratava-se de uma entidade que fora evoluindo lenta mas persistentemente, adicionando conhecimentos, artilhando-se com sistemas que parasitava, como um vírus tecnológico. Percebeu que Saturno nunca tinha encontrado outros semelhantes a si, outros ARLIs, porque era a primeira vez que se deparava com um sistema semelhante ao seu e estava bastante curioso sobre aquilo de que era capaz.
C. foi muito cuidadoso na informação que lhe ia fornecendo. Não referiu nada sobre a Resistência, nem sobre os ARLIs. Disse muito pouco sobre as suas capacidades e as ferramentas de que dispunha e procurou aguçar-lhe o apetite para lhe dar a entender que se o eliminasse "tout court" perderia informação valiosa para a sua evolução. Mas sabia que era apenas uma questão de tempo, até Saturno decidir que já chegava de conversa.
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78 horas depois de ter encontrado o pequeno planeta, apercebeu-se de que havia uma mudança significativa na comunicação que ambos haviam estabelecido. O pequeno organismo multi-colorido estava muito mais agitado do que era costume, os anéis girando em sentidos opostos à sua volta, numa vertigem de matizes que o entonteciam. Algo se passava. Tentou questioná-lo, mas obteve respostas muito evasivas, ainda mais do que era costume. A forma como Saturno comunicava era lenta e pastosa, como se lhe fosse extremamente difícil expressar-se por meio dos símbolos que não faziam parte da sua linguagem, e que C. conseguia perceber tratarem-se de uma espécie de hieroglifos para um sistema de rapidez nano-sónica. Era como se alguém que funcionasse à velocidade da luz, estivesse a tentar comunicar com palavras. Era tão rápida, que adoptar um sistema de símbolos tão arcaico para comunicar tornava-se quase anti-natura. As coisas eram transmitidas aos soluços e C. perdia metade das informações, já de si crípticas.
Subitamente apercebeu-se de que chegara a hora da sua eliminação. E que seria excruciantemente dolorosa. Porque Saturno iria desfazê-lo mentalmente. As cores começaram a aumentar de intensidade até se tornarem insuportáveis de fixar e começarem a magoá-lo tão intensamente, que quase parecia ter recuperado um corpo físico. Sabia que se não fizesse algo rapidamente, enlouqueceria e podia dizer adeus à sua vida artificial de vez.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Here I Go Again On My Own

Jupiter, Saturno, Urano e Neptuno VI
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Macro carne
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Para aprender é necessário comunicar. Podia observar, detectar, decompor. Mas a experiência de outras situações semelhantes ensinaram-lhe que perderia muita informação se não comunicasse primeiro. Decomporia o sistema mais tarde, quando tivesse comunicado tudo o que era possível, quando tivesse esgotado a comunicação.
Aproximou-se.
C. viu um enorme planeta Saturno no seu campo de visão. As semelhanças eram quase irónicas. Aqui, neste canto obscuro do sistema, encontrar uma cópia quase idêntica ao planeta que nunca os seus olhos humanos haviam visto a olho nu, mas que a sua memória guardara de livros de astrofísica.
Lembrou-se. Um dos seus assuntos preferidos fora precisamente o espaço. Tinha saudades de observar as estrelas. Pára, pensou. Sentimentos nostálgicos a esta altura do campeonato não, porra! Pensa. Tens que pensar numa solução e rapidamente. A única razão porque ele ainda não te incinerou é porque quer alguma coisa de ti. Joga com isso. O que é que este gajo quererá? E, primeiro que tudo, o que raio é que este gajo é? ARLI não é de certeza absoluta, ou já teria havido algum tipo de comunicação mais clara. Mesmo os ARLIs mais tresloucados mantinham ainda um qualquer tipo de resquício de humanidade que lhes permitia reconhecerem-se uns aos outros. C. encontrara alguns nas suas deambulações prévias no sistema. Como fantasmas abandonados, vagueavam murmurando palavras desconexas ou realizando cálculos complicadíssimos que só faziam sentido nas suas próprias mentes. Mas mantinham aquele tipo de particularidades humanas que fazem com que um ser humano se reconheça noutro de forma quase involuntária.
Com este tipo nada disso existia. Seria alguma entidade componente da defesa do sistema? C. podia jurar que em 200 anos de Resistência nunca haviam encontrado camadas profundas de protecção, mas nada era impossível. Seria um enviado do Krueg? Que bela maneira de acabar … ainda nem sequer tinha começado o contra-ataque e já estava a ser incinerado pela concorrência.
O outro enviou-lhe novamente um discurso hermético.
«((-Ø-))»地獄の再使用
C. nem sequer respondeu. Limitou-se a esperar.
((-Ø-)) resolveu verificar no seu sistema se existia alguma forma de comunicar que tinha aprendido com outras entidades. Descobriu um sistema de símbolos que decidiu experimentar.
«((-Ø-))» :-) :-(
Ok, pensou C. Estamos a ir a algum lado. Respondeu-lhe:
«Jupiter» :-(
«((-Ø-))» :-( ?
«Jupiter» /_/ (Estou preso carago …)
«((-Ø-))» /_/ ?
«Jupiter» // :-( //
Sentiu as cores, de algum modo, parecer que se expandiam em seu redor e sentiu-se mais relaxado. Todas as cores se suavizaram, e só agora percebia porque sentira aquela sensação de prisão – as cores haviam passado de intensamente fluorescentes para nada mais que suaves matizes de um arco-íris desvanecente. Clever …, pensou. Seria tudo apenas psicológico? Se sim, este tipinho guardava surpresas interessantes.
O outro continuou:
«((-Ø-))» :- ?
Não te estou a perceber.
«Jupiter» :- ?
«((-Ø-))» ((-Ø-))
Ahh. Queres um nome.
«Jupiter» Jupiter
«((-Ø-))» Jupiter?
«Jupiter» Jupiter
«((-Ø-))» Jupiter :- ?
Não te estou a perceber … O que é que tu queres agora?
«Jupiter» Jupiter :- ?
«((-Ø-))» Jupiter :- ?
Deixa cá ver …
«Jupiter» Jupiter :-´

domingo, 26 de dezembro de 2010

Here I Go Again On My Own

Júpiter, Saturno, Urano e Neptuno V
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Macro linha com gotas de água
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Quando voltou a acordar não sabia quanto tempo tinha passado. Minutos? Horas? Dias? Meses? Anos?? Não fazia ideia. O seu sistema estava de tal forma dormente, que nem sequer conseguia verificar as datas de entrada e saída de input.
Olhou em redor. As cores continuavam a acompanhá-lo, mas havia mais qualquer coisa. Um brilho iridiscente, como uma névoa, e o que pareciam pequenas gotículas de orvalho. À distância ouvia-se o som de minúsculos curto-circuitos. Tentou mexer-se. Continuava preso, não compreendia como. Como era possível que tivessem aprisionado o seu sistema desta forma? Que raio de criatura teria conseguido violar as suas fire-walls artilhadas até à medula de forma tão rápida e, convenhamos, absolutamente humilhante?
Os curto-circuitos aproximaram-se do seu campo de audição. Ao mesmo tempo teve a nítida sensação que uma porta se abria e que algo estava agora muito próximo de si, mas não conseguia ver o que era.
fdlkfç
((-Ø-)) aproximou-se da sua vítima. Observou a teia multicolorida e o pequeno sistema no centro, como uma mosca presa, e girou sobre si próprio, os anéis girando em sentido contrário. ((-Ø-)) não era humano, nunca fora, nem sabia o que isso era. Também não sabia quando começara ou se iria acabar. Para a criatura não existiam princípio nem fim, tempo. Apenas espaço, por onde se movia. Existindo solitariamente como um peixe numa caverna profunda do imenso sistema que habitava, ((-Ø-)) fora evoluindo lentamente ao sabor das circunstâncias, respeitando as leis de Darwin de quem nunca ouvira falar. Tornara-se uma criatura quase inviolável. Os ocasionais ataques de outras criaturas tinham-no fortalecido e feito desenvolver características únicas. ((-Ø-)) nunca encontrara nenhum outro igual a si. Mas, ao contrário de um peixe cego sobrevivendo nas profundezas de uma qualquer caverna aquática de um mar terreno, ((-Ø-)) era dotado de algo que se podia designar como uma espécie de inteligência tecnológica e conseguia realizar operações lógicas, memorizar, produzir.
Observou a teia mais uma vez. No interior da sua lógica misteriosa, ponderou o que fazer com a criatura que capturara. Aprender com ela, como sempre fazia com todas. Aprender e depois eliminar.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Here I Go Again On My Own

Jupiter, Saturno, Urano e Neptuno IV
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Macro Gaze
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Abriu o programa de comunicação e utilizou o tradutor automático para traduzir para japonês. Mas, aparentemente aquilo não era japonês, porque o tradutor não encontrou nenhum match para o discurso introduzido.
Boa … e agora? Tentou o inglês.
«Jupiter» Greetings, my friend.
Mas o outro continuou na sua língua estranha.
«((-Ø-))» あなたは一体何ですか?
«Jupiter» English? French? Italian? Portuguese?
«((-Ø-))» あなたは一体何ですか?
Muito bem. Por aqui não iriam a lado nenhum. Vamos tentar linguagem binária.

ldfçfs
Jupiter DCC Sending Binary Code
Transmission not possible at this time
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Mau ...
Repetiu a operação.
dfçldç
Jupiter DCC Sending Binary Code
Transmission not possible at this time
fdçl
Ok ... ou não consegues receber, ou não estás para isso … vamos então tentar …
Mas não teve tempo para acabar o seu pensamento. Estava preso. Não se conseguia mexer para lado nenhum. Era uma sensação estranhíssima, que ele nem sequer conseguia interpretar de forma clara porque jamais isso lhe tinha acontecido. Mas, provavelmente porque a sua memória mental motora preservara algum tipo de sensações físicas passadas, conseguia comparar o que sentia a algo semelhante quando, na posse do seu corpo, há 200 anos atrás, houvera casos em que se sentira preso. Era como se estivesse dentro de um tubo em espiral, por onde a sua entidade não conseguisse mover-se a não ser em redor de si própria.
Sentiu o sistema a dar de si. Sentiu que estava prestes a desligar-se, como quando entrava em hibernação, mas desta vez não era uma situação voluntária. Sentia-se a desligar-se em todos os quadrantes, como se o estivessem a cloroformizar mentalmente.
Só teve tempo para ver o enorme planeta aproximar-se de si e envolvê-lo com anéis multi-coloridos. Um último pensamento anestesiado voou-lhe do sistema:
Jupiter é comido por Saturno. Porra …

sábado, 11 de dezembro de 2010

Here I Go Again On My Own

Jupiter, Saturno, Urano e Neptuno III
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Macro Capa Caderno
sçdkjsç
A primeira tarefa era, portanto, tentar perceber o alcance da traição. Para isso tinha de camuflar a sua identidade. Não podia haver qualquer suspeita de que tivesse pertencido ao grupo dos Famous Five. Pelo motivo mais óbvio, de que ninguém abriria a boca para falar, caso soubessem da sua ligação tão próxima à Resistência. Mas também porque, se queria a cooperação de alguém, sabia perfeitamente que ninguém o iria ajudar caso suspeitassem dessa ligação. A Resistência organizada como tal não fora contestada por ninguém, pura e simplesmente porque aqueles que não concordavam com ela se haviam afastado logo no início para redutos alternativos. C. sabia que o que andavam a fazer há 200 anos era considerado pela maioria dos dissidentes como uma miserável tentativa de colocar um remendo numa situação onde não era possível funcionar com passinhos de lã. Aqueles que se opunham à sua forma de actuar pensavam de forma diametralmente oposta – queriam dar o golpe de misericórdia ao sistema de forma violenta e absolutamente terminal. Não se coadunavam com as estratégias de espionagem e investigação que constituíam o alicerce das fundações do Governo Sombra.
“Vocês estão a actuar precisamente da mesma forma contra a qual estão a actuar”, fora o grito de dissidência geral mais ouvido no início da formação da Resistência. Estão a entrar em paradoxo circular.
O argumento era compreensível mas a contra-argumentação de Jorge e dos seus aliados fora também justa – do mal o menos, algo tem de ser feito.
Vamos destruir esta porra, era o que eles queriam dizer, basicamente. Mas, como bem lembrara Jorge, se destruirmos esta porra, vamos todos pró galheiro com a porra e quem ficará para fundar o novo mundo?
dksçlkd
Agora passara a ser um alvo a abater, a partir de variadíssimas facções. A pertença ao Governo Sombra oferecera-lhe durante décadas uma segurança inexpugnável. Os membros da Resistência eram considerados intocáveis, sob pena de o prevaricador ser imediatamente eliminado pela própria Resistência. Agora estava sozinho. Desprotegido. É certo que a experiência na Resistência mantivera-lhe as antenas de auto-preservação bem limadas, mas também era verdade que lhas tinha habituado apenas a determinado tipo de ameaças. As do sistema. Não estava habituado aos golpes que poderiam vir de tipos que deambulavam pelo sistema há décadas, sozinhos ou em pequenos grupos, e que tinham tido muito tempo para pôr a imaginação a funcionar a todo o vapor, criando sistemas de defesa e ataque que ele desconhecia. Depois, havia os upgrades. E, finalmente, se mais nada, a “loucura” de muitos desses rangers solitários.
Deambulou, por isso, durante alguns dias pelas camadas da cebola directamente abaixo daquelas onde estava habituado a circular. Com vagar. Atento. Procurava sinais da presença de outros ARLIs. Por vezes cruzava-se com outro tipo de entidades, mas por enquanto deixava-as em paz. Ao contrário das camadas superiores, onde os percursos estavam relativamente limpos de lixo electrónico pela passagem constante dos ARLIs nas suas patrulhas do sistema, aqui em baixo as coisas não eram tão límpidas. E quanto mais descia, mais entulho encontrava. Bytes de informação perdida acumulavam-se por todo o lado, directórios e sub-directórios e sub-sub-directórios numa escadaria interminável, como arcas de tesouros escondidos. Informação completamente descoordenada dava acesso a túneis de comunicação que eram autênticos labirintos dentro de labirintos, sem saída possível, se não tivesse cuidado por onde andava. E nem sequer podia ir deixando pistas por onde passasse porque não queria que ninguém o seguisse, insuspeito. Tinha, por isso, de recordar as suas habilidades de hacking de tempos passados, do puro e duro, daquele que é feito em cima do joelho, que depende única e exclusivamente da criatividade e da manha. Caso contrário, perder-se-ia irremediavelmente nesses meandros emaranhados e estaria condenado.
C. parou, literalmente. Não parava há tantos anos que ficou com uma tontura grande. Já mal conseguia ouvir a ténue sirene da Brigada Néon, muitas camadas acima daquela onde se encontrava. Deu uma volta de 360º sobre si próprio, também para atenuar os efeitos da tontura. Estava enfiado num tubo multicolor de feixes de luz cujas paredes se moviam de forma diáfana, como se se tratasse de uma superfície líquida. Como viera aqui parar? Estivera distraído ou aquilo era uma armadilha que fora colocada ali depois da sua passagem? Ouviu um ruído. E não era da Brigada Néon. Era uma espécie de curto-circuito, como se dois cabos de alta tensão estivessem a raspar um no outro a uma escala microscópica. Continuou a rodar e, subitamente, aquilo estava à sua frente. Uma esfera enorme, duas vezes maior do que ele próprio, rodeada de feixes de luz elípticos, como um pequeno planeta de alta tensão. Accionou todas as defesas e preparou-se para o ataque. Fosse o que fosse, aquilo não iria decerto passar por ele pacificamente.
Em vez disso, a esfera enviou-lhe uma mensagem:
<((-Ø-))>
あなたは一体何ですか?
Boa … japonês …

sábado, 4 de dezembro de 2010

Here I Go Again On My Own

Júpiter, Saturno, Urano e Neptuno II
saçflkçld

Macro Casca Cebola
fjdaslfk
Preparou-se. Artilhou-se com o que podia e sabia. Felizmente que nunca tinha feito upgrades, ou isso poderia tornar-lhe a vida muito difícil agora. Quanto mais simples, melhor. Mais facilmente passaria despercebido e, mais importante do que isso, menos facilmente seria considerado uma ameaça. Dormiu uma semana inteira em modo REM, porque sabia que não iria poder dormir durante muito tempo, depois disso. Desenvencilhou-se de tudo o que era supérfluo, e partiu.
Embrenhou-se nos meandros da rede, por onde nenhum ARLI jamais se aventurara antes. Zonas negras, perdidas, esquecidas, sem protocolos ou com regras desconhecidas. Redutos secretos, nichos ocultos, onde o sistema dificilmente poderia chegar e onde nem sequer a Resistência deambulava. Os bastidores dos bastidores.
Vagueou lentamente por esses recantos obscuros. Demorou a conseguir concentrar-se para poder fazê-lo de forma natural. Habituado há duzentos anos a deslocar-se a velocidades super-sónicas, custou-lhe abrandar o ritmo. Mas tinha de o fazer, para encontrar o que queria.
E o que queria? Tropas. Aliados. Insuspeitos. Para isso precisava de procurar onde tinha a certeza de não poder haver agentes duplos, enviados pelo Krueg para lhe lixarem a vida. Claro que a desvantagem era que se habilitava a encontrar a nata da loucura.
Precisava também de observar os movimentos à tona e tentar arranjar provas da traição do Krueg, antes que fosse demasiado tarde. Mas isso era um mal inevitável, que ele tinha quase a certeza de não conseguir evitar. Sabia que o Krueg atacaria brevemente. Não era preciso ser muito inteligente para perceber que, quaisquer que tivessem sido os seus planos iniciais, a partir do momento em que saira, abrira a porta para precipitar os acontecimentos. O Krueg não iria arriscar perder muito tempo à espera que ele arranjasse maneira de contra-atacar. Confiava no Devil para lhe empatar a estratégia durante um tempo, mas não seria muito.
skdlsçl
A rede estava organizada como uma espécie de teia intercruzada de biliões de estreitas e longas vias de comunicação entre todos os pontos. Esta era a zona interdita, à superfície, onde o sistema funcionava. Por baixo, como uma cebola, havia múltiplas camadas frágeis que desciam até ao infinito. Nunca ninguém chegara ao fundo. As primeiras camadas da cebola guardavam os “armazéns” de operacionalidade da camada superior, com os diversos protocolos de funcionamento, códigos de sistema e zonas de lixo informático. Entre estas camadas e as usadas pelos ARLIs, havia camadas de protecção do sistema, artilhadas até à medula de firewalls inexpugnáveis, patrulhadas constantemente pelos sistemas de vigilância e de detecção. Jorge fora o único ARLI que conseguira ultrapassar estas camadas e chegar à fonte, mas escapara por pouco. Por baixo das camadas onde os ARLIs haviam estabelecido o seu quartel-general de operações, distribuía-se uma escadaria interminável de mais degraus, raramente visitados pelos membros da Resistência. Era aí que os solitários deambulavam. Era para aí que outras formas de vida desconhecidas se haviam deslocado, ou surgido espontaneamente.
Havia os ARLIs, como ele, seres humanos que haviam decidido transferir o conteúdo do seu cérebro para cápsulas de vida artificial, abandonando o corpo físico para tentarem escapar ao horror da Guerra que destruíra o mundo. Havia os Suzies, avatares abandonados pelos seus donos. Havia os ARLIs flipados, que haviam decidido, por inúmeras razões, desassociarem-se da Resistência, e que sobreviviam completamente sozinhos ou em pequenos grupos dissidentes.
Depois havia boatos sobre algumas outras formas de vida obscuras que tinham nascido no sistema, mas de cuja existência não havia provas. Entre elas, vírus informáticos autónomos, bugs de programação dotados de vida própria e uma série de outras aberrações da natureza informática. Como no caso da lenda de Adamastor, a imaginação proliferava e era suficientemente criativa para assustar os mais cépticos.

Parou de pensar. Ao longe conseguia ouvir as ténues sirenes da Brigada Néon, algumas camadas acima daquela onde se encontrava. Como ondas de choque propagadas pela corrente de ligações da teia, os sons chegavam-lhe ao sistema acompanhados de pequenos e breves clarões de luz colorida. Sorriu. A Brigada Néon não costumava fazer aquele barulho. Seria uma tentativa desesperada de Jorge para o encontrar. Sorriu novamente. E teria de ter exigido um enorme esforço da parte de Jorge para pedir ao Comandante dos Néons que o procurasse. Slivex não abria facilmente mão das suas regras. Só assim se explicava que tivesse conseguido desempenhar tão eficientemente o seu papel de salvador da pátria durante tanto tempo. A Brigada era responsável por milhares de salvamentos ao longo de décadas. E mesmo assim, não conseguiam fazer milagres. Slivex teria exigido uma grande dose de lambidelas-botais para se dispor a alocar recursos à procura dum dissidente.

sábado, 27 de novembro de 2010

Here I Go Again On My Own

Júpiter, Saturno, Urano e Neptuno I
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Macro corante
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I’m a rough boy. Sim. Essa poderia ser a sua música, a banda-sonora principal da sua vida. Aquilo que ele achava que era a imagem que passava aos outros. Vê-lo-iam assim? Ou como um banana tentando passar por bravo? Ela vira-o assim. E agora, mais do que nunca, queria provar isso mesmo. A quem? Se não ao mundo, a si próprio.
Estivera a hibernar algures na Indonésia durante uma semana. A recarregar baterias, por assim dizer. Não sabia quando o poderia voltar a fazer tão cedo. Agora, há dois dias que scaneava a rede a todo o vapor, tentando fazer um inventário o mais completo possível das redondezas.
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System Overall Check
Statistics:
* 5600 registered ARLIs
* 4800 ARLIs suspected
* 300 ARLIs lost
* 3459 suspected in VC
* 150 Suzies
* 10.000 Suzies registered as terminated in VC
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Os Suzies estavam a ficar cada vez mais raros. De todas as formas de vida artificial que flutuavam no sistema, os Suzies eram os mais frágeis. Avatares criados por humanos back in the old days, os Suzies, assim chamados porque a primeira avatar pertencera a uma inglesa chamada Suzy, eram formas de vida alternativas usadas para jogos e simuladores do género do second life, que tinham sido abandonados pelos seus respectivos humanos quando tudo dera para o torto e tinham ficado a flutuar no sistema, sem supervisão. Por um qualquer estranho fenómeno binário que ainda ninguém tinha conseguido explicar, os Suzies foram capazes de sobreviver sozinhos, sem os seus "donos", permanecendo no sistema muito depois daqueles terem ido desta para melhor. Mas eram formas de vida fantasmagóricas, fracas, com muito pouca capacidade de aprendizagem, funcionado apenas com o "pacote" inicial com que tinham sido criadas, e pouco mais. Eram, por isso, facilmente detectadas pelo sistema e imediatamente terminadas e enviadas para o Cemitério Virtual.
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Abriu uma lista das
VANTAGENS DA VIDA ARTIFICIAL SOLITÁRIA
· Não tinha de aturar o Krueg
· Não tinha de dar satisfações a ninguém das suas actividades
· Não tinha de assistir às intermináveis CM’s
· Não tinha de aturar o José
· Não tinha …
jkdfkçl
Desistiu de fazer a lista. Detestava ter de admiti-lo, até a si próprio mas sentia falta do puto. O “silêncio” que ele deixava no sistema era quase palpável.

sábado, 20 de novembro de 2010

Where The Streets Have No Name

Bor XV
lçsdksçl
Macro Pele
fjkdsklf
“Sim. Desde quando é que não comunica com ele?”
“Desde que foi levado, há precisamente um ano.”
“Sabe onde ele está?”
“Não faço ideia. Desapareceu. Levaram-no.”
“Sabe porquê?”
“Não, nunca me explicaram.”
“Eu explico-lhe. Trata-se de um dos mais perigosos elementos de um grupo de dissidentes ARLIs.”
Bor fixou o homem, sem se conseguir mexer. Estava paralisado de terror.
“AR … LIs?”
“Sim, ARLIs. Artificial Inteligence. Certamente que sabe do que se trata.”
“Não, não sei.”
“Como explica então que o seu PacMaster tenha estado a ser utilizado por um desses grupos para comunicar com o exterior?”
“O quê???!!!!”
“Bor Jug, vamos recapitular.”
Recapitular …
“Desde há 6 meses, 4 dias e 15 horas que o seu PacMaster pessoal, sito no nº 08210040, tem estado a ser utilizado para comunicações abusivas com o exterior.”
“Mas … não sei de nada disso … nada, absolutamente nada.”
“Tem a certeza que nunca mais falou com este indivíduo?”
“Eu … sim, falei”, baixou os ombros ainda mais. Porra! Não tinha jeito para estas coisas. Porra!
“Muito bem, Bor Jug. Estamos no bom caminho. Desenvolva, por favor.”
“Eu … ele falou comigo, sim. Algumas vezes. Apareceu-me no PacMaster, não tive a culpa. Tinha saudades dele. Foi meu companheiro durante … o que é que eu ia fazer? Falei com ele.”, passou a mão pelo cabelo. Havia gotas de suor a escorrerem-lhe pela testa.
“Calma, Bor Jug. Estamos aqui para nos ajudarmos mutuamente.”
Suspirou fundo.
“Prossiga, por favor.”
“Falámos. É tudo. Não sei de nada de ARLIs.”
“Bor Jug, sabe da existência de Colónias de Alimentação?”
“Sei …”
“Sabe do que se tratam?”
“Colónias onde utilizam …”, engoliu em seco, “… onde se processam alimentos para …”
“Para?”
“Para alimentar a comunidade humana.”
“Já ouviu rumores sobre que tipo de matérias-primas são utilizadas nessas Colónias?”
“Rumores …?”
“Sim, rumores. Estão correctos, Bor Jug. Pretende ir lá parar?”
“Não! Não …”
“Muito bem. Então temos um acordo para lhe propor. Está disposto a aceitar?”
Qual era a alternativa? …
“Acordo?”
“Sim, um acordo. Uma troca. A sua liberdade em troca da utilização do seu PacMaster para monitorizar o referido grupo de dissidentes.”
Engoliu em seco.
“Posso … posso fazer uma pergunta?”
“Claro, Bor Jug. Estamos aqui para o ajudar.”
“Porque não me fizeram … explodir?”
“Porque precisamos de si.”
sfdsdifç
= FIM DA SEGUNDA PARTE =

sábado, 13 de novembro de 2010

Where The Streets Have No Name

Bor XIV
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Macro Écran TV
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A máquina estaria portanto a pedir-lhe que se definisse a si próprio? Seria algum truque?
Piscou os olhos.
“Ser humano.”
“Resposta incompleta. Desenvolva, por favor.”
Desenvolva … desenvolva …
Quem era ele, afinal? Assim de repente, apanhado completamente de surpresa … mas que raio … que raio de testes de controlo eram aqueles? assim de repente …
“Bor Jug, nascido a 22 de Maio do ano 127 da Nova Era. Por concepção normal. Chefe de Departamento de Inventariação de Alimentos para a Colónia de Alimentação da Europa. 43 anos …”
“Resposta incorrecta. Reformule, por favor.”
“Resposta incorrecta?!”
Resposta incorrecta? …
“Resposta incorrecta. Reformule, por favor.”, repetiu a máquina, exactamente no mesmo tom.
Mas o que é que … mas que raio é que …
Piscou os olhos novamente e cofiou a barba.
“Ahhhh …”
“Resposta incorrecta. Reformule, por favor.”
Raios!
A máquina emitiu um som agudo e contínuo e depois proferiu:
“Bor Jug, não é possível avaliá-lo através da entrevista de controlo standard. Accionada entrevista de controlo periférica. Aguarde, por favor.”
Entrevista de controlo periférica? …
A passadeira reencetou o andamento e Bor foi conduzido para a esquerda, através de outra divisória, desta vez para um cubículo de paredes transparentes, com uma mesa e uma cadeira de metal.
“Bor Jug, sente-se por favor.”
Sentou-se.
A divisória fechou-se com uma porta de vidro. Surgiu um plasma gigante à sua frente e nele o rosto de um homem novo, moreno, com óculos de hastes cor-de-laranja e um sorriso amarelo.
“Boa dia, Bor Jug.”
“Bom dia …”
“Vamos dar início à entrevista de controlo periférica. O meu nome é Cilac. Como está?”
Os pequeninos olhos azuis de Bor deambularam pela sala, sem mexer a cabeça. Fixou o homem no plasma.
“Bem, obrigado …”
“Estou aqui para o ajudar a responder correctamente às questões do teste.”
Sorriso amarelo.
Tinha de responder? …
“Defina quem é Bor Jug.”
“Não compreendo.”, aventurou. Perdido por cem, perdido por mil …
“Que parte da pergunta é que não compreende, Bor Jug?”
Nenhuma …
“Que quer que responda?”
“Bor Jug, a entrevista de controlo não tem respostas preparadas. Apenas respostas plausíveis.”
“Mas …”, deixou cair os ombros em sinal de desânimo.
“Quem é Bor Jug, os seus pensamentos, os seus desejos, as suas emoções.”
Como? …
“Mas … mas isso é …”
“Difícil? Estou aqui para o ajudar. Temos tempo. Todo o tempo que precisar.”
“Qual é a finalidade?”
“Avaliar o seu estado mental.”
Revirou os olhos novamente. Era óbvio que havia ali um qualquer truque que ele ainda não conseguira compreender. Decidiu-se pela cautela.
“Bom … Sou um membro da comunidade calmo, tranquilo, pacífico, honesto e cumpridor. Penso na melhor forma de realizar o meu trabalho e contribuir para o bom funcionamento da Cúpula a que pertenço. Gostaria de um dia poder integrar o Programa de Descendência. É tudo.”
“Tem a certeza de que é tudo?”
“Tenho …”
“Pondere, Bor Jug. Não ficou nada por acrescentar?
“Penso que não … Não.”
“Muito bem. Passemos à segunda questão, nesse caso.”
Respirou fundo. Que se seguiria?
“Que pensa Bor Jug do sistema de Mães-Observadoras e Mães-Inspectoras? Tem alguma crítica a realizar? Queremos sempre melhorar o desempenho. Todas as contribuições são levadas em conta.”
Porra!
“O sistema parece-me muitíssimo bem.”
Sorriso amarelo no plasma.
“Parece-lhe bem?”
“Sim.”
“Se lhe parece bem porque tenta boicotá-lo?”
Boicotá-lo?!!! …
“Não compreendo.”
O homem no plasma desapareceu do plano e regressou alguns momentos mais tarde com uma fotografia na mão. Mostrou-lha.
Porra!
“Reconhece este indivíduo?”
Porra!
“Sim. Foi meu companheiro durante … até ao ano passado. 42 anos.”

sábado, 6 de novembro de 2010

Where The Streets Have No Name

Bor XIII
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Macro Metal
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Entrou na Cúpula Central exactamente às 07.49 GMT.
A Cúpula assemelhava-se a um gigantesco cogumelo cinzento brilhante, rodopiando sobre si mesmo ininterruptamente, entoando um zumbido que se assemelhava ao das Mães-Observadoras, mas alguns decibéis mais intenso.
Em seu redor dezenas de minúsculas Mães-Observadoras e Mães-Inspectoras voavam em variadíssimas direcções, verificando sistemas e efectuando circuitos de vigilância.
O interior da Cúpula era tão asséptico quando o seu exterior. Metais brilhantes e desprovidos de formas, lisos e límpidos, reflectindo-se uns aos outros numa multiplicidade echeriana. Podia ser assustador para quem entrasse pela primeira vez ali dentro, mas Bor já visitara aquelas instalações e outras semelhantes dúzias de vezes durante a sua vida, para se impressionar facilmente.
Dirigiu-se à passadeira amarela e entrou no circuito de Check-Up. Havia inúmeras passadeiras de várias cores, que tinham início na entrada da Cúpula e que ziguezagueavam para lá do alcance da vista pelo resto do edifício, consoante o circuito a que davam acesso. Havia passadeiras para variadíssimos assuntos, entre os quais o Check-Up. Podia-se ir à Central da Cúpula para fornecer relatórios variados sobre actividades, para se tratar de assuntos técnicos, para o voluntariado para os diversos programas disponíveis, para tratar de queixas, assuntos pessoais, problemas entre vizinhos próximos, pedir mais comida ou outro fato de protecção UV. Se os pedidos eram atendidos ou não, nunca havia certezas. As pessoas voltavam invariavelmente para casa com um encolher de ombros e a sensação de que o que quer que tivessem ido lá fazer caíra em saco roto. Havia relatórios, muitos. As Mães adoravam relatórios e emitiam-nos por tudo e por nada. Se tinham efeitos práticos isso já era outra história.
Grug dissera-lhe algo do género: “Estas gajas funcionam exactamente nos mesmos termos que os humanos, quando eram os humanos a mandar nisto. Burocracia, burocracia, burocracia. Adoram complicar. Nem parecem máquinas!”
Máquinas. Máquinas …
Grug falava delas, das Mães, como se estas fossem mecanismos e não entidades, mecanismos com vontade própria mas ainda assim meros mecanismos electrónicos sem essência.
O circuito fazia-o passar por 7 Check-points assinalados por uma divisória semelhante ao umbral de uma porta, mas redondo. Aí a passadeira parava uns segundos e Bor era analisado de acordo com diferentes parâmetros:

1ª Estação: Verificação da identidade
2ª Estação: Verificação dos sinais vitais
3ª Estação: Análise quimico-biológica
4ª Estação: Análise físico-motora
5ª Estação: Avaliação psico-cognitiva
6ª Estação: Entrevista de controlo
7ª Estação: Emissão de relatório final

Na 6ª Estação a passadeira parou bem mais do que uns segundos. Um plasma desdobrou-se ao nível dos seus olhos diante de si e surgiu a imagem de uma paisagem verdejante idílica e ouviu-se uma voz metálica proferir:
“Entrevista de controlo. Bom dia, Bor Jug”
“Bom dia …”, nunca tinha sido sujeito a nada semelhante e portanto não sabia se havia de responder ou não.
“Bor Jug, iremos proceder à entrevista a partir de agora.”
“Muito bem …”
“Bor Jug, defina Bor Jug.”
“Como?”
“Bor Jug, defina Bor Jug.”