segunda-feira, 31 de março de 2008

EM MINHA CASA, NA PONTA DOS PÉS 38 (Cont.)

Capítulo 10. AMAR UMA FLOR
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“Andas metida com ele, é isso?”
Emily soltou uma gargalhada.
Nessa altura fechou de novo a janela e ficou a olhar o vazio à sua frente, uma mão ainda segurando um dos cortinados. Deixou-a descair lentamente até repousar no braço da cadeira. Permaneceu assim um bom bocado, congelado no tempo. Depois Wolf regressou finalmente ao seu colo e lambeu-lhe as mãos, como se pressentisse que algo estava menos bem.
Não fora tanto a presença do outro homem que o incomodara, mas sim aquela gargalhada final dela, que ecoou por muito tempo na sua cabeça. Foi ao mesmo tempo uma cascata e uma hecatombe. Nunca a ouvira rir-se daquela maneira. Aliás, até o resto do seu discurso fora proferido num tom muito diferente daquele que conhecia. Porque Emily estava completamente à vontade com aquele homem, fosse ele quem fosse, tendo John concluído rápida e logicamente que não podia ser o tal professor de literatura.
Portanto, havia um outro homem, provavelmente um namorado, na vida de Emily. Um namorado que desconhecia parte da sua aparente nova vida, possivelmente porque vivia longe dela e por isso a tinha vindo visitar. Um campónio, que nunca pegara num livro porque tinha de ganhar a vida e que desconfiava de livros como se se tratassem de artigos proibidos, em cujas páginas os seus utilizadores se viciavam irremediavelmente, como almas perdidas sem salvação possível.

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"Era um prazer queimar.
Era um prazer especial observar as coisas serem comidas, observar as coisas a enegrecerem e a modificarem-se. Com a mangueira de metal nos seus punhos, com essa enorme píton cuspindo o seu venenoso querosene sobre o mundo, o sangue pulsava-lhe na cabeça e as suas mãos eram as mãos de um qualquer maestro extraodinário que conduzia todas as sinfonias ardentes e abrasadoras para reduzir a cinzas as ruinas de farrapos e carvão da História. Com o seu capacete simbólico numerado 451 enfiado na sua sólida cabeça, e os seus olhos tornados chamas laranjas com a visão do que se seguiria, carregou no botão de ignição e a casa explodiu num fogo regurgitante que queimou o céu do crepúsculo em tons vermelhos e amarelos e negros. Deambulou numa tempestade de libélulas. Queria, acima de tudo, como a velha anedota, enfiar o marshmallow num pau na fornalha, enquanto os livros de páginas de asas de pombo esvoaçantes morriam no alpendre e relvado da casa."(48)
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A presença desse homem constituíra apenas a confirmação de algo que, desde que tomara conhecimento do professor, se fora solidificando renitente mas lentamente no seu interior – a vida de Emily. Cuja existência não tinha outra alternativa senão aceitar, apesar de isso contribuir para desmoronar o seu pequeno mundo criado dentro das quatro paredes da biblioteca. Claro que esse mundo privado podia continuar a existir, mas prosseguiria agora para sempre manchado por dados novos, estranhos, invasores. Nada poderia jamais ser igual, depois daquela famigerada frase que ela proferira um dia ...
"Sim … o professor …”
O professor ... o namorado ... a vida de Emily ...
E que diferente soava aquela Emily enfiada na sua vida de sempre ... Uma Emily solta, descontraída, apesar de tensa, com uma naturalidade na voz e de certeza que nos gestos também (John bem se apercebia do cuidado nervoso com que ela manejava a chávena do chá que a empregada lhes servia de vez em quando) que ele desconhecia e que nunca sequer considerara.
E a gargalhada fora a última gota que derramara tudo. Depois da gargalhada não conseguira ouvir mais nada. Se o grito prévio lhe tinha enchido o coração de uma sensação quase doce, aquela gargalhada cristalina derramara-se sobre ele simultaneamente como uma cascata que lhe causou um arrepio agradável e como um balde de água fria. Sabia que a gargalhada ecoaria na sua cabeça até ao dia em que escolhesse morrer, porque ela também acabara com quaisquer dúvidas que tinha sobre a sua morte.
Aquela cascata cristalina podia ter tantas interpretações, que nem sequer perdeu tempo a considerá-las, mesmo sabendo que podia enganar-se. Mas normalmente sabia que o instinto não costumava defraudá-lo. E a primeira sensação que tivera fora a de que a ideia exposta pelo seu interlocutor fora tão absurda, que Emily soltara aquela gargalhada instintivamente e não como uma qualquer estratégia de defesa feminina destinada a desviar as suas suspeitas, como também poderia parecer.
E depois ... foi novamente invadido por pensamentos idiotas como um desejo de lhe provocar uma gargalhada semelhante, noutras circunstâncias e o desejo de que ela se sentisse suficientemente à vontade na sua presença para se soltar daquela maneira …
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Sinto-me nu nu nu de raiva
Detesto-a desejo-a
Quero ouvir-te voltar quero ver-te quero tocar-te quero sentir-te
A voz deixa-me cair na tua voz
Não quero sofrer mais não posso ajuda-me por favor, ajuda-me
Não me puxes não quero a vida não quero!

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porque se sentia perdido e sozinho e cansado de viver daquela maneira.
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Quando nessa noite, Clara irrompeu pela biblioteca dentro no seu passo firme e bicudo, John não se surpreendeu. Já o esperava. Calculava que não tinha sido a única testemunha daquela conversa em surdina à porta de casa.
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(48) Fahrenheit – Ray Bradbury

domingo, 30 de março de 2008

MURMÚRIOS DE LISBOA LVIII

Estepes nos Teus Olhos – PósEpílogo
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Fundo do Poço Iniciático - Quinta da Regaleira - Sintra
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Vi-te no outro dia. Não contava ver-te mais, mas esperava, confesso.
Não dei por ti senão a meio da viagem. Andava em viagens, outras, mentais. E estava a observar um rapaz sentado ao teu lado, não porque o estivesse a avaliar como material de escrita (dito assim parece tão frio, mas é assim), mas porque ele me estava a observar a mim. gkjgkl
E ali estavas tu, sentado ao lado do rapaz. Apanhei um choque. Estavas muito vermelho. Pensei assim: “Olha, afinal foi de férias e apanhou um escaldão”. Mas logo a seguir pensei, que estranho, ir de férias para a Rússia Mãe e apanhar um escaldão, no pico do Inverno? Não pode ser. Também não te via a passares férias nas Bahamas. Ou a ires à sucapa a um qualquer solário.
Só quando saiste entendi.
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Consegui vislumbrar as tuas estepes apenas por alguns segundos. Estão completamente moribundas. Algo se passa, pensei, com este homem. Algo de muito grave.
É claro que o rapaz ao teu lado é o teu pupilo. Estás a passar-lhe todos os teus conhecimentos. Parte deles estavam guardados na mala preta rectangular e grande que o rapaz amparava entre as pernas. É suposto parecer a mala que carrega um teclado musical. Mas não. É obviamente um estratagema para esconder uma espingarda semi-automática com mira de longo alcance, possivelmente uma AK-74 porque a Remington 700 é demasiado kapitaliest para o teu gosto (não ligues, ando a incubar um sniper, depois dá-me para estas fantasias).
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E estava cansado. O rapaz. Mas também tu. O rapaz fechou os olhos e não mais os abriu até eu sair. Tu não fechaste as tuas estepes. Estão sempre quase fechadas, mas nunca.
Saiste duas paragens antes de mim. Era noite. Cambaleavas. Seguravas um saco de plástico verde nas mãos e lá dentro uma garrafa de vidro. Saiste para a rua e mal te aguentaste direito. O rapaz continuou a dormir.
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Para onde deixaste fugir as tuas estepes, Vladimir? Quem as apagou? Porque te procuras agora afogar dentro de uma garrafa? Acharás talvez que poderás reencontrar as tuas amadas estepes no fundo dessa garrafa?
Não, Vladimir. Olha. Elas estão aí, no fundo dos teus olhos. Não as percas. São tão preciosas.

sábado, 29 de março de 2008

GEOLÂNDIA 8

IDEIA BRILHANTE
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quinta-feira, 27 de março de 2008

PALAVRAS ESTÚPIDAS 10

Primeiro escreve-se, muito, demasiado, tudo. Depois corta-se.
Aprender a escrever é aprender a eliminar o supérfluo. É o mais difícil. Sobretudo porque amamos o nosso supérfluo. Apenas porque é nosso. Deitar fora o supérfluo produzido por nós, dói. A tendência natural é mantê-lo. Com a idade e os quilómetros de escrita, dói cada vez menos. Com a idade, cada vez se anseia mais por essa fase da escrita, a limagem, muito mais que pela primeira, a da diarreia mental. Com a experiência e a prática, também a diarreia vai sendo cada vez de melhor qualidade.
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Toda a gente sabe escrever. Vejam o lixo amontoado em casa de cada um. Poucos, no entanto, saberão ou desejarão livrar-se do lixo. Escrever é limpar a casa (não o sótão, esse vasculha-se frenetica e minuciosamente), limpar a cabeça, limpar os dedos, limpar a folha. Chegar ao essencial. O essencial de uma ideia. O essencial de uma frase. O essencial de um acto. Nem mais, nem menos.
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Já aprender a ser escritor, é aprender a parar. Outra operação difícil. Aprender a perceber o momento quando a partir do qual tudo se torna, mais uma vez, supérfluo. Porque nunca nada está perfeito e é preciso aceitar isto. E depois mostrar. Um candidato a escritor que não saiba ou não queira mostrar a merda que fez, morreu à partida. Nem começou, sequer. Porque escrever é morrer à frente de alguém. Ou se morre na praia, ou se avança e morre-se em combate. Porque para deixar de escrever merda, é preciso escrever muita merda.
Isto ensinou-me Marlon Brando, o único actor que morria diante da sua audiência em todos os segundos de vida que representou qualquer personagem. Um escritor também é, em certa medida, um actor. Por isso sempre achei que um candidato a escritor pode aprender muito não só dos escritores, como também dos actores. Porque um escritor, como o actor, tem que tentar pensar como os seus personagens, experimentar as mesmas sensações que eles experimentam, para poder torná-los Verdadeiros aos olhos de quem os lê.
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Quem diz escrever, diz todas as outras artes. Qualquer artista tem que estar preparado para morrer em combate. Morrer = correr o risco de se humilhar, de se tornar ridículo, de não ser compreendido. Porque a arte é uma morte pública, impiedosa, chocante. Se não for, nunca foi ou poderá ser arte, são traques mentais. A arte é sofrimento, ou não é nada. Porque para tocar alguém, é preciso que revolvamos as nossas entranhas e as espalhemos à sua frente - "Toma, olha, fui eu que fiz, sou eu, gostas?"
E depois ficamos ali, esventrados, ensanguentados, virados do avesso, em carne viva, à espera de um parecer. Quem olha não imagina, não tem de imaginar, as distâncias que percorremos dentro de nós, as feridas que esgravatámos, as memórias que revolvemos, os quilómetros de Infernos, Purgatórios e Paraísos que atravessámos.
E depois, se o outro diz, encolhendo os ombros "Tá porreiro", desfalecemos de felicidade, porque tudo aquilo que ele não imaginou, nem tem que imaginar, valeu a pena.
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Hoje, no Dia Mundial do Teatro, eu, que vi Marlon Brando esventrar-se tantas vezes à minha frente, quero dizer que não me esqueço do que ele me ensinou e continua a ensinar. Que é preciso não temer o ridículo, na busca do sublime.
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quarta-feira, 26 de março de 2008

EM MINHA CASA, NA PONTA DOS PÉS 37 (Cont.)

Capítulo 10. AMAR UMA FLOR
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“Não! Pára com isso. Isto é um trabalho extra.”
“Trabalho extra? A ler livros? Mas que raio de trabalho é esse?”, e finalmente, constatou John com um sorriso ácido, todo o polimento que até aí contivera a raiva do estranho, desvaneceu-se e a sua verdadeira voz escapou-se-lhe num tom acusador, recheado de ciúme, incompreensão e até uma certa brutalidade crua, como se nada mais importasse no mundo naquele momento que aquelas quatro paredes que encerravam esses livros e o seu suspeito proprietário.
“Um trabalho como outro qualquer. Nada que possas compreender, já que nunca na vida pegaste num livro.”
“Pois não. Se calhar porque tenho que ganhar a vida.”
“Isso é típico. Não vale a pena.”, a voz dela acalmara novamente.
“O que é que não vale a pena?”
“Explicar-te porque é que leio.”
“Tenta. A sério. Gostava de perceber.”, a voz do homem também regressou a um tom mais calmo, mas John percebia que era apenas uma máscara mal construída que tentava a todo o custo regressar àquele rosto e àquela voz para o proteger de uma explosão indesejada que, e ele compartilhava esse conhecimento com o estranho, só teria como efeito a fuga da sua presa para mais longe ainda do que já se encontrava.
“Podemos falar sobre isto em casa? Está frio e estou cansada.”, e a sua voz revelou um cansaço mais mental do que físico, como se tivesse desistido de qualquer espécie de argumentação mesmo antes de ter começado a prepará-la.
“O que é que ele tem?”, desta vez o que saiu foi apenas um sussurro desanimado.
“Steve, pára com isso. Este não é o sítio indicado para falarmos sobre isto. Daqui a nada alguém vai abrir aquela porta e pedir explicações.”, o registo fora alterado para um tom quase paternalista, como se a pessoa que estivesse ali à sua frente não passasse de uma criança a quem era preciso explicar pela milésima vez uma qualquer pergunta óbvia.
“E depois? Tens vergonha de mim, é isso?”, a voz dele regressara ao mesmo tom ácido e bruto, pleno de raiva contida e de ciúme ...
“Não, Steve! Queres fazer-me perder o emprego?”
“Não te chega o da biblioteca?”
“Não. Além do mais, eu gosto deste trabalho. É diferente.”
“Diferente como? Que tipo de livros é que ele te pôs a ler?”
“Mesmo que eu te dissesse, nunca irias compreender. Não os conheces!”
“Mas que espécie de livros são?”, insistiu como uma criança embirrenta a quem estivessem a recusar a desejada recompensa.
“Livros! Todo o género de livros. Romances. Científicos. Poesia. Sei lá! Muita coisa.”
“Poesia …”
John sorriu desdenhosamente com a repetição da palavra, naquele tom desconfiado. Sim, Emily, pensou, é típico ...
“Sim, poesia.”
“Mas que espécie de poesia?”
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“Para que ela tivesse um pescoço tão fino
Para que os seus pulsos tivessem um quebrar de caule
Para que os seus olhos fossem tão frontais e limpos
Para que a sua espinha fosse tão direita
E ela usasse a cabeça tão erguida
Com uma tão simples claridade sobre a testa
Foram necessárias sucessivas gerações de escravos
De corpo dobrado e grossas mãos pacientes
Servindo sucessivas gerações de príncipes
Ainda um pouco toscos e grosseiros
Ávidos cruéis e fraudulentos
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Foi um imenso desperdiçar de gente
Para que ela fosse aquela perfeição
Solitária exilada sem destino” (47)
dklçld
“Caramba! Onde é que queres chegar, exactamente?”
“Quero saber que tipo de livros lhe lês.”
“Já te disse!”
“Andas metida com ele, é isso?”
Emily soltou uma gargalhada e nesse instante pareceu-lhe ouvir um ruído, mas foi tão ténue que foi abafado pelo som do seu riso.
“Não, não ando metida com ninguém. Eu venho aqui para trabalhar.”
“Andas atrás da massa dele?”
“Chega! Ouviste? Vou para casa.”
E saiu disparada rua fora. Steve deixou-se ficar uns momentos a contemplar a porta da casa branca, depois um ligeiro movimento nos cortinados de uma das janelas do rés-do-chão pareceu despertá-lo e recuou uns quantos passos. Deu meia volta, hesitou mais uns tantos segundos, mas instintivamente concluiu que aquela casa, embora estivesse materializada em pedra diante do seu nariz, pairava num outro universo inacessível. Não conseguia encontrar em si qualquer força para se atrever a transpor a porta, por mais que a sua raiva o impelisse a tal. Limitou-se a seguir Emily, que já desaparecera na esquina lá ao fundo.
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(47) Retrato de uma Princesa Desconhecida – Sophia de Mello Breyner Andresen

terça-feira, 25 de março de 2008

MAGIC MOMENTS 30

Beijo #6 - O Beijo da Morte
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Padrinho II - Al Pacino prepara-se para matar o seu próprio irmão, na trilogia que é provavelmente das poucas verdadeiras tragédias "gregas" modernas.

segunda-feira, 24 de março de 2008

EM BUSCA DE PALAVRAS 16

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Haverá um polícia.
Eu não queria meter a polícia ao barulho, porque não percebo nada de polícia e é difícil perceber de polícia. Mas teve mesmo que ser.
Logo no início, logo a seguir ao sniper me ter assaltado o espírito, o polícia falou dentro de mim. Foi o primeiro de todos a falar, mesmo antes do sniper. Disse assim: “Ok, a situação é a seguinte ... bla bla bla (não estavam à espera que eu vos dissesse o que é que o polícia me disse, pois não? :) ) ... Agora, explica-me uma coisa – que merda é esta, pá? O que é que se passa aqui?” – dirigindo-se ao seu colega de investigação.
Depois calou-se. Mas continuou, como uma sombra, a rondar a história. É natural. Onde há criminosos, há sempre polícias a farejar. Normalmente bons polícias. Daqueles incansáveis, dos que não desistem, dos que viram a mobília toda de pernas para o ar para descobrirem todos os possíveis indícios. Dos que cheiram como pastores alemães.
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Portanto, estou frita, pensei. Porque haverá um polícia. E agora o que faço? Considerei seriamente a hipótese de telefonar para a Polícia Judiciária e perguntar assim de chofre “Estou a escrever um livro. Será possível acompanhar uma equipa de investigação a um local de homicídio?” Logo a seguir, uma voz dentro da minha cabeça berrou histérica “Mas tu tás cos copos???!!!!”
Comecei a matutar, por isso, dentro da minha cabecinha pensadora e depois de ter mandado a voz histérica ir tomar um banho de imerssão descompressor, como iria então deslindar este embróglio.
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Felizmente, um senhor chamado Paulo Pereira Cristóvão, ex-investigador da PJ e um dos principais protagonistas da investigação da morte de Joana Cipriano, decidiu escrever um livro chamado “A Estrela de Joana”, que relata pela primeira vez e por dentro, o decurso de uma investigação criminal levada a cabo pela discretíssima Judiciária.
Como se isso não bastasse, e como se tivesse ouvido as minhas preces, o mesmo senhor acaba de lançar um livro semelhante sobre o caso Maddie. Já o devorei também.
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Entretanto, o polícia, que era suposto ser apenas um personagem secundário, impôs-se como principal, para mal dos meus pecados. Quanto mais eu o empurrava para um canto, mais ele me assaltava o espírito. E o pior de tudo é que cada vez gosto mais dele. O que significa que tenho agora quatro personagens armados em chicos espertos que tomaram conta da história. Isto significa também que este livro ultrapassou a penosa e ansiosa etapa do "tens pernas para andar ou não tens, como é?". Agora não há como voltar atrás. Eles, os personagens, desenvolvem-se, sim, mas depois ficam à minha volta, tipo cãezinhos a dar a dar com o rabo e de língua de fora a pedirem: "Escreve-me! Tenho tantas coisas para dizer e fazer."
E a moura que escreva.
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Portanto, haverá um polícia, dos melhores. E haverá um criminoso, dos melhores. E encontrei alguma ajuda preciosa para proceder à “caça” como deve ser.

domingo, 23 de março de 2008

OS ANIMAIS DE ANDRÓMEDA

Veado
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Os veados encontram-se nas regiões nortenhas da América do Norte, Europa, Ásia e Gronelândia.
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De todas as espécies de veados, a rena é o mamífero terrestre que percorre as maiores distâncias migratórias.
Quando o Verão se aproxima, as manadas de renas ou caribous dirigem-se para o norte, numa das maiores migrações de mamíferos do mundo. Podem viajar mais de 965 quilómetros ao longo de rotas anuais conhecidas. No final da sua longa viagem, passam o Verão a alimentar-se das abundantes ervas e plantas da tundra. Nestes solos ricos, um veado adulto pode comer 5 quilos de alimento por dia.
Durante a migração, manadas de fêmeas partem algumas semanas antes dos machos, que as seguem com as crias jovens nascidas na estação prévia.
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As renas possuem longos chifres que constituem ferramentas úteis para sobreviverem nas condições agrestes das terras do norte. São suficientemente grandes para suportar o volume do animal na neve e para remar através da água. A parte inferior dos chifres é dobrada como uma concha e utilizada para cavar na neve em busca de alimento. As suas pontas aguçadas proporcionam ao animal um bom apoio em rochas e no gelo.
Os chifres também servem para as batalhas reprodutivas que ocorrem desde Setembro até meados de Novembro. Dois machos cruzam os seus chifres, tentando empurrar-se um ao outro. Os machos mais dominantes podem recolher até 15 ou 20 fêmeas com quem acasalam.
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As renas são o único tipo desta espécie em que tanto os machos como as fêmeas possuem armações de chifres – embora apenas algumas fêmeas as tenham. As fêmeas têm uma cria por ano, que consegue erguer-se sobre as próprias patas apenas alguns minutos após o nascimento e caminhar junto da mãe no dia seguinte.
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Quando as primeiras neves começam a cair, as renas regressam ao sul e completam a rota de migração que os leva a viajar cerca de 2.574 quilómetros todos os anos. Passam o Inverno em climas mais temperados e sobrevivem alimentando-se de líquenes.
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Nas lendas relacionadas com o Pai Natal, o seu trenó é tradicionalmente puxado por 9 renas voadoras chamadas Dasher, Dancer, Prancer, Vixen, Comet, Cupid, Dunder, Blixen e Rudolph - a única que possui um nariz vermelho e que conduz todas as outras.
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Sou sentinela dos misteriosos bosques
Guardião entre mundos arcanos
Separo os portões dos velhos deuses
Dos passos dos frágeis humanos
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Sou majestade do ténue intervalo
Que medeia carne e mágico orvalho
A minha coroa brota alta
A minha sombra espraia-se vasta
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Se me quiserdes conquistar
Para longe devereis olhar
Sou tímido, fugaz, cauteloso
Sou delicado, atlético, poderoso
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Não esperes que vos revele
Os segredos do meu domínio perigoso
Não desejes que vos guie
Pelos meandros do musgo sinuoso
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Outras majestades me cobiçaram
Mesmo algumas me subjugaram
Mas escreve o seguinte a tinta dourada
E certifica-te que permanece para todos os futuros gravada
Jamais conquistarão
A música secreta do meu coração

sábado, 22 de março de 2008

Passo os dedos pelo dicionário ao acaso e aterro em ...

SEDE

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A mulher algemada à cama, que tenta desesperadamente esgravatar o pulso com um pedaço de vidro, para conseguir livrar a mão da algema e assim conseguir alcançar o copo pousado em cima da mesa-de-cabeceira, que contém as únicas milagrosas gotas de água que lhe saciarão a sede. Do romance de terror “Gerald’s Game”, do fabuloso contador de histórias Stephen King.
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A primeira sede divertida da história da humanidade, quando Noé apanhou uma grande bebedeira de vinho e apareceu nu na sua tenda. De um tal de Antigo Testamento.
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O único alimento do jovem Bobby Sands, o lendário terrorista do IRA que fez greve de fome durante 66 dias na terrível prisão de Maze, desafiando a Dama de Ferro. Ela não cedeu. Ele também não. Até ao fim, quando morreu. Apenas com água e um espírito imbatível que o transformaram num mártir da Causa. Da sangrenta e infindável pedra no sapato do Império Britânico.
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A doença dos corpos mergulhados em ácido noite após noite, girando em contorções até à exaustão, que pedem água e apenas água. Das noites em muitas capitais de muitos países por esse mundo fora.
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A chávena de chá e a torrada diárias, único alimento de outro homem que desafiou o mesmo império sem nunca ter usado de violência. E venceu. Da vida de Mahatma Gandhi, a Grande Alma.
çlgºf
A insaciável sede de poder de Adolph, Mao, Josef e tantos outros, que a tantos mais roubou a vida gratuitamente. Do espírito de competição e de posse que todo o Homem tem dentro de si.
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A imensa sede questionadora de Albert, Stephen, Galileu, Leonardo e tantos outros, a quem tantos mais devem tanto. Do espírito incansável do Homem para descobrir, aprender, conhecer.
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A sede de ti, tanta, inesgotável, insaciável, incolmatável, insubstituível, indecifrável que me traz até aos braços teus ou me rouba os dias meus. Dos romances diários a acontecerem todos os segundos por todo o nosso mundo.
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Tanta, tanta, tanta sede tem este planeta. Porque é dela que provimos e para ela haveremos de regressar, é ela que corre nos nossos vasos, nos nossos interstícios, nas nossas células. Água.
gçlº~f
Tens sede?
E a água, terá sede? E de quê? De corpos que possa inundar, claro está.

sexta-feira, 21 de março de 2008

EM MINHA CASA, NA PONTA DOS PÉS 36 (cont.)

Capítulo 10. AMAR UMA FLOR
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Considerou mandar Takemis segui-la. Considerou essa hipótese seriamente durante alguns dias. Mas depois, algo ocorreu que tornou desnecessária qualquer aventura desse género.
Nesse dia ela entrou muda, leu o que tinha a ler e saiu calada, com o cheque para os medicamentos na mão. Como sempre fazia, ficou a ouvi-la abandonar a casa. Eram os cinco minutos mais incomodativos do dia. Nesses cinco minutos que ela demorava para sair da biblioteca, encostar a porta atrás de si, pegar no casaco, vesti-lo, despedir-se da empregada (Clara já não fazia questão de se certificar que ela realmente saía) e de Wolf (que a seguia sempre até ao vestíbulo da entrada como se não acreditasse que ela pudesse deixá-los mais uma vez), sair para a rua, descer os degraus e afastar-se no seu passo pesado e inseguro, John desfiava pela milésima vez uma série de considerações que já não conseguia controlar.
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Voltarei a vê-la? (ainda resvalava para esse malfadado verbo)
Quererei voltar a vê-la? Quero vê-la …
Poderei continuar a viver sem ouvir a sua voz? A voz dela assombra-me …
Na próxima sessão devo dizer-lhe … (mas dizer o quê?) dizer-lhe qualquer coisa para que ela não pense que eu … não a vejo? … para que não pense que eu …
Mas porque é que estou preocupado com o que ela pensa? Não passa de uma criatura desprezível a quem os genes presentearam com um talento inato e extraordinário
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Era sempre interrompido por Wolf, que regressava ao seu colo para receber mais uma admoestação carinhosa. Mas nesse dia Wolf não regressou logo após a partida de Emily. Permaneceu junto da porta a rosnar baixinho. John farejou o ar e abriu lenta e suavemente a janela.
A um par de metros de distância ouviu Emily sussurrar bruscamente:
“O que é que estás aqui a fazer?”
E uma voz masculina retorquiu, num tom tranquilo:
“Vim ver-te.”
“Aqui?”
“Fui esperar-te à biblioteca. Não estavas. Disseram-me que estavas aqui.”
“Mas porque é que vieste aqui? Porque é que não esperaste em casa?”
“Porque não sabia a que horas voltavas e porque queria ver com os meus próprios olhos.”, o tom de voz continuava tranquilo, mas sob essa tranquilidade havia um subtil tom de acidez que passaria perfeitamente despercebido a qualquer pessoa menos atenta.
“Ver o quê?”
“O que fazes aqui.”
“Leio. Vamos andando.”, conseguia perceber que a voz de Emily estava tensa, apesar de sussurrada, querendo nitidamente afastar-se da casa o mais depressa possível.
“Lês? Não vamos a lado nenhum. Estou muito bem aqui. Lês o quê?”
“Livros.”
“Que espécie de livros?”
“Mas tu enlouqueceste? Agora andas a seguir-me?”
John sorriu imperceptivelmente, porque já aguardava aquela súbita explosão.
“Já te expliquei que vim ter contigo. Não posso? A rua também é dele?”
“Dele?”
“Sim, desse milionário entrevado. Que espécie de livros?”
“Pára com isso! Vamos sair daqui, por favor. Vou para casa.”, o tom elevou-se automaticamente com a provocação e John sentiu-se atingido pelas palavras brutas e frias daquele desconhecido, ao mesmo tempo que um ténue calor reconfortante lhe invadiu o peito quando ela reagiu.
“Não! Vais-me explicar aqui e agora o que é que andas a fazer nesta casa.”, e como se finalmente despertado pelo tom da voz dela, o estranho também explodiu subitamente, revelando um nervosismo até aí dissimulado.
“Larga-me!”, Emily esquecera-se, aparentemente, de se preocupar com a possibilidade de incomodar os ocupantes da casa.
“O que é que andas a fazer aqui, Emily? Diz-me!”
“O que é que te parece?”
“Bom, se não me dizes se calhar é melhor tocar à porta e perguntar.”, ouviu-o aproximar-se ameaçadoramente.

quinta-feira, 20 de março de 2008

Receita Mágica Para Quebrar Um Enguiço
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1 Trevo de quatro folhas
verdes e brilhantes
2 gotas de orvalho
cintilantes e transparentes
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3 Pétalas de rosa
perfumadas e aveludadas
4 Pérolas de fada
brancas e nacaradas
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5 Asas de anjo
leves e rendilhadas
6 Brincos de princesa
Rubidescentes e filigranados
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7 Números poderosos
antigos e secretos
8 Palavras mágicas
achadas em livros selectos
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Todos os ingredientes
lançados no caldeirão borbulhante
Uma colher de ouro quente
E um salpico de suspiro de bruxa eficiente
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Deixa-se cozinhar
em lume brando faiscante
Para o enguiço esconjurar
dos dias de um cavaleiro andante
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klfjdkl
Espero que resulte, Merlin :)

terça-feira, 18 de março de 2008

GEOLÂNDIA 7

IRISH
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segunda-feira, 17 de março de 2008

PALAVRAS EMPRESTADAS 35


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"Did you ever think, Clarice, why the philistines don't understand you? It's because you're the answer to Samson's riddle: You're the honey in the lion."
Hannibal Lecter em "Hannibal" - Thomas Harris
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"(...) levas uma batata à boca, ouve-se daqui esse estralejar, e caso tivesses bateria no telefone, ligarias para o programa a explicar que és veterinária, que por vezes as cadelas ou as leoas ou as hienas comem algumas das suas próprias crias, e que do muito que se especula se diz que é porque pressentem que as crias vieram fracas, que andarão indefesas pelo mundo, e que assim as devoram para que nunca venham a sofrer."
"Canário" - Rodrigo Guedes de Carvalho
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"Annie, quando alguém nos atrai isso só quer dizer que o subconsciente dele atrai o teu subconsciente ... subconscientemente. O destino é apenas duas neuroses que sabem que encaixam na perfeição."
Sleepless in Seattle

domingo, 16 de março de 2008

EM MINHA CASA, NA PONTA DOS PÉS 35 (cont.)

Capítulo 9. À BEIRA DA ÁGUA DETEVE-SE

Para Emily, foi como se ele a tivesse esbofeteado. De repente, tudo encaixava na perfeição. Fixou-o demoradamente e fez um esforço sobre-humano para não se levantar e lhe arrancar os óculos da cara com uma bofetada. Depois a raiva passou inesperadamente e sentiu-se encolher na cadeira como um verme asqueroso.
Ele nunca simpatizara sequer com ela. Que estúpida! Mas que grandessíssima idiota.
Inesperadamente ouviu a sua própria voz soltar-se, mas era como se pertencesse a outra pessoa completamente diferente …
"Que marca quer? Quantas caixas?"
John levantou o pescoço e inclinou a cabeça para trás com a surpresa.
"Uma caixa de Valium, de vez em quando."
"Porque é que não me pede logo tudo duma vez? Não é para isso que eu aqui estou?"
Desta vez foi ele quem sentiu as suas palavras como uma estalada. A cabeça lançou-se subitamente para trás. Mas conseguiu ultrapassar a surpresa rapidamente.
"Emily …"
Emily soltou uma gargalhada que a voltou a surpreender e a John.
"Não me vai mandar embora assim que tiver o que quer? Estou simplesmente a abreviar o problema. Posso ir a vários médicos e aviar várias receitas em farmácias diferentes. E ficará com um carregamento suficiente para vários… meses …", depois aos poucos a voz foi-se tornando num murmúrio.
John manteve-se em silêncio por alguns momentos. O que ela dizia fazia sentido.
"Muito bem. Eu trato do cheque com o meu advogado e dou-lho amanhã."
Emily permaneceu em silêncio durante muito tempo, sem querer acreditar no que agora lhe parecia demasiado óbvio. Finalmente, disse:
"Quer que eu saia?"
"Sim. Acabamos por hoje."
Emily saiu.
Pela primeira vez teve uma vontade tão forte de correr atrás dela e abaná-la, que as lágrimas lhe caíram pelo rosto mesmo sem dar por isso.
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Ficou acordado toda a noite. Tinha medo de adormecer e de sonhar com ela. Mas quem é que aquela serigaita pensava que era? Não percebia se ela se apercebia do efeito que causava nele. Esquecera-se de que havia tantas emoções. Tinha medo. Medo da esperança que ela lhe trouxera. E, ao mesmo tempo, medo de se tornar ridículo aos seus olhos. Medo de ser alvo de troça entre ela e um qualquer professor de literatura novo, forte, vigoroso e inteligente.
Conseguia até imaginá-los. Os dois na cama, o sexo dele dentro dela, as pernas dela enroladas à volta das coxas dele num aperto primitivo, os dois a rirem-se enquanto ela o imitava e aquele pensamento tornou-se insuportável.
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Quando ele abordara o assunto, nunca lhe passara pela cabeça que poderia estar a pedir-lhe ajuda para acabar com a sua vida. Mas quando acabara de formular aquela frase, percebera imediatamente que era isso mesmo e não conseguira estar mais tempo na sala com ele.
Era como se, de súbito, toda a atmosfera daquela biblioteca que ela sempre interpretara como acolhedora, tivesse finalmente revelado a sua verdadeira essência – o odor a morte. De repente, toda a sala lhe pareceu impregnada desse odor e Emily percebeu que vivera iludida durante todos aqueles meses.
Não sabia o que fazer. O choque da constatação de que não fora mais que um instrumento durante todo aquele tempo, passara para segundo plano. Deveria dizer à Nº 5? E ela perde a compostura e ainda pensa que eu lhe ando a fornecer droga há semanas, ou qualquer coisa do género. Rapidamente percebeu que essa não era uma opção sequer a considerar. Tinha que resolver o assunto sozinha. Ponderou a possibilidade de abandonar a casa, simplesmente. Mas sabia que ficaria toda a vida com o peso na consciência de não ter feito nada. Porque era fácil para ele arranjar outra cobaia. E ela gostava dele. Apesar de todo o cinismo e sarcasmo. Ela gostava dele. Porque ele olhara para ela … Soltou um riso sarcástico.
Durante a viagem de metro, procurou concentrar a sua atenção nos outros passageiros da carruagem. Não era costume fazer isso. Mas sentia-se sozinha. Perdida. O seu olhar percorreu discretamente as caras que a acompanhavam. Vidas sem sentido, como a dela? Sem esperança, como a dele? Angustiadas. Tristes. Cabisbaixas. Pensativas. Depois reparou num homem que viajava de pé, junto à entrada. Era novo, alto, moreno. Podia ser o antigo John. Os seus olhares cruzaram-se e ele sorriu-lhe com os olhos. Foi estranho. Depois reparou que ele estava a olhar para ela, mas que não a estava a ver. Estava perdido nos seus próprios pensamentos.
"Ou pensa que só porque não vejo não a consigo 'ver'?"

sábado, 15 de março de 2008

EM BUSCA DE PALAVRAS 15

AVISO: Este post é de leitura interdita a menores de 18 anos ou a pessoas sem o mínimo de bom senso ou senso de humor dentro da tola
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A Melhor Amiga de Um Sniper – Parte XIII
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“Só os mortos vêem o fim da guerra.”
Platão
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Hoje em dia os snipers profissionais, isto é, do exército, funcionam em equipas de 2 elementos. Há uma razão prática e psicológica muito forte - um sniper não opera como qualquer outro soldado, uma vez que é enviado ou deixado no terreno por sua conta e risco, por vezes dias a fio. Ao contrário de todos os outros soldados, um sniper não tem como obedecer à linha de comando quando se trata de decidir o exacto momento para disparar. Ele segue coordenadas e timings, obviamente, mas a decisão final só pode ser sua. Por este motivo, chegou-se à conclusão que 2 homens juntos mais facilmente tomarão a decisão de matar alguém, do que se for apenas um, porque poderão partilhar a responsabilidade da morte.
Esta é, pois, a razão principal para a presença de 2 elementos.
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Existem ainda mais dois motivos, mais práticos e que surgiram ao longo do tempo de forma natural:
* O segundo elemento - o chamado "spotter" ou localizador - ajuda o sniper a localizar os seus alvos, fornecendo-lhe as coordenadas, as movimentações dos alvos no terreno, as condições atmosféricas do ambiente e os respectivos ajustes que deve realizar na mira, no momento do tiro
* O trabalho de um sniper é tão difícil e solitário, que 2 farão também companhia um ao outro, partilhando as agruras da sua missão
E se um grupo de soldados cria laços fortíssimos que perdurarão pela vida fora, percebe-se que um sniper e o seu spotter se tornem como 2 irmãos, sem necessidade de laços de sangue comum.
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Ao longo dos tempos, também as técnicas de controlo de tensão foram sendo cada vez mais desenvolvidas, sobretudo através da aprendizagem retirada da experiência de muitos snipers e caçadores no terreno.
No momento do tiro, o corpo tem que estar de tal forma relaxado para que a arma não trema nem um milímetro, que são desenvolvidas técnicas de controlo dos batimentos cardíacos.
Um sniper não pode beber café ou outras bebidas excitantes nem comer alimentos energizantes antes ou durante a sua missão. Deve estar tranquilo e ter descansado o suficiente e, se isto não for possível, deve saber educar o seu corpo para alcançar uma frequência cardíaca ideal para o disparo. Este treino demora muitos meses até que se consiga dominar o corpo desta forma.
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Chuck Mawhinney, sniper veterano da Guerra do Vietname, explica que demora algum tempo a aprender a controlar as emoções; começa-se a trabalhar e a aperfeiçoar os detalhes ínfimos da respiração até ao ponto em que se torna automático e instintivo e que até se contam as pulsações enquanto se dispara - o cérebro diz "Respira, 1, 2, expira, batimento, dispara"
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Não é difícil perceber porque motivo 1/3 dos candidatos a sniper que entram para a escola de snipering dos EUA, por exemplo, muitos deles soldados experientes vindos dos Marines, dos Army Rangers e dos Navy Seals, chumbem na primeira semana. Um dos principais motivos para a expulsão de um aluno nos primeiros dias é a falta de iniciativa - um sniper tem que querer ser líder. A diferença está entre matar .... ou morrer, se houver hesitação.
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Nos próximos episódios entraremos na escola de snipering dos EUA e espreitaremos os treinos rigorosos exigidos aos alunos.
Hasta la vista, baby.

sexta-feira, 14 de março de 2008

OS ANIMAIS DE ANDRÓMEDA

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Os ursos polares vagueiam pelos lençóis gelados do Ártico e nadam nas águas costeiras dessa região. São nadadores poderosos e as suas patas frontais, que utilizam para “pedalar” são ligeiramente palmadas (ou seja, com membrana natatória). Alguns ursos polares têm sido vistos a nadar a centenas de quilómetros da costa – embora provavelmente cubram a maior parte da distância, flutuando em placas de gelo.
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Os ursos polares habitam uma das regiões mais frias do planeta e dependem de uma grossa capa de pêlo insuflada, que cobre uma camada quente de gordura. O pêlo cresce inclusivamente na base das suas patas, protegendo-os de superfícies frias e proporcionando uma base firme sobre o gelo escorregadio. O pêlo branco dos ursos polares proporciona-lhes camuflagem no ambiente de neve e gelo. Mas por baixo do pêlo, os ursos polares têm pele negra – a cor mais propícia para absorver os raios quentes do sol.

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Estes predadores poderosos caçam habitualmente focas. Para isso, costumam frequentar zonas de gelo quebradiço e móvel, onde as focas vêem à superfície para respirar. Também rondam limites de gelo e buracos de respiração. Se a oportunidade se apresentar, os ursos polares também consomem carcassas de baleias mortas, por exemplo. Estes gigantes árticos são os senhores do seu ambiente, não possuindo quaisquer inimigos naturais.
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As fêmeas resguardam-se cavando abrigos profundos de neve, que lhes proporcionam protecção e insulação contra as condições austeras do Ártico. Dão à luz durante o Inverno, habitualmente um par de crias gémeas. Estas vivem com as suas mães durante cerca de 28 meses, aprendendo as técnicas de sobrevivência. As fêmeas protegem agressivamente as suas crias, mas não têm ajuda dos seus companheiros machos solitários. Com efeito, os machos podem até por vezes matar as suas próprias crias.
Os ursos polares têm um aspecto atraente e simpático até, mas são predadores poderosos que não costumam temer humanos, algo que os torna extremamente perigosos. Perto de zonas habitadas, costumam adquirir um interesse particular por lixo.

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E o urso dança
E a aurora avança
E a neve cai em mim
E há um esquimó que sorri
E o mundo gira assim
E o urso rodopia
E a neve está tão fria
E eu podia ser assim
Livre, negra e branca
Com um sorriso dentro de mim

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quinta-feira, 13 de março de 2008

GEOLÂNDIA 6

PASSINHA
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quarta-feira, 12 de março de 2008

EM MINHA CASA, NA PONTA DOS PÉS 34 (cont.)

Capítulo 9. À BEIRA DA ÁGUA DETEVE-SE
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“- Senhor Samsa! – exclamou o senhor do meio, e apontou, sem mais uma palavra, para Gregor, que se vinha aproximando lentamente.
O violino calou-se, o hóspede do meio começou por sorrir, abanando a cabeça, voltado para os seus amigos, e depois olhou outra vez para Gregor. Em vez de enxotar Gregor, o pai mostrou-se mais preocupado em começar por acalmar os hóspedes, embora estes não estivessem nada nervosos e Gregor parecesse diverti-los mais do que a música do violino. Precipitou-se para eles, de braços abertos, procurando fazê-los retroceder para o quarto, enquanto ao mesmo tempo se colocava na sua frente e tentava impedi-los de olharem para Gregor.” (45)

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ouviu-se dizer:
“Emily!”
Ela assustou-se e parou bruscamente, a meio de uma frase. Era pouco habitual ele interrompê-la daquela forma brusca, mesmo quando cometia algum erro e ficou a pensar se não teria saltado uma linha inteira, ou qualquer outra coisa mais grave.
“Emily …”
“Sim?”
“Emily …”, Hesse, Burgmeier, Kazan.
Ela piscou os olhos, sem compreender.
“Quer que eu repita?”
"Quero falar consigo."
Sentiu-a pousar o livro no colo e torcer as mãos nervosamente.
"Não vou mandá-la embora, fique descansada."
O facto de ele conseguir adivinhar-lhe os pensamentos daquela maneira, não cessava de a perturbar. Era como se ele tivesse conseguido desenvolver um sexto sentido com a perda da visão.
"Quero pedir-lhe uma coisa."
Ouviu-a respirar, mas depois pressentiu-lhe de novo o nervosismo e esboçou um sorriso.
"Não me diga que andou a falar com a Clara? Não acredite em nada do que ela lhe diz sobre mim."
"A Nº 5 não fala comigo." Trata-me como se eu fosse um verme asqueroso, mas não tem importância. Não é ela quem paga.
"A Nº 5?"
Caramba …. Meteste a pata na poça.
"Deixe-me ver se percebi. Você trata a Clara por Nº 5?"
Hesitou.
"Não é nada … é … é uma coisa minha."
"Emily … detesto não poder partilhar uma boa piada."
Pela enésima vez descobriu que era incapaz de resistir ao seu tom de voz, mistura de autoritarismo com mimo.
"Por causa da roupa. Chanel. O perfume."
John soltou uma gargalhada.
"Estou a ver.", fez uma pausa, "E eu? Sou o Nº 1?"
"Não. É o John."
"Hmmm. Muito bem.", pareceu notar-lhe desapontamento, "Quanto à Clara, pode não concordar, mas digo-lhe que é muito melhor que ela não fale consigo."
Concordo plenamente. E assino por baixo.
"É-me indiferente."
"O que lhe vou pedir é muito simples e não envolve tortura."
Emily remexeu-se na cadeira e John sorriu, mas habituada ao seu sarcasmo, manteve-se silenciosa.
"Eu não preciso de lhe explicar que esta situação é muito desconfortável."
Parou e procurou as melhores palavras. Não lhe queria pedir abertamente nada, mas queria deixar bem claro que era algo importante.
"Dolorosa até. Não parece, mas tenho dores. Nas costas. Às vezes são insuportáveis. Estou a ser medicado mas não chega."
John parou para ver se ela percebia. Emily continuou calada.
"A Clara é muito rigorosa com a porcaria dos comprimidos e … bem … chega até a racioná-los mais do que devia."
Pela primeira vez na vida sentiu uma sensação que nunca antes experimentara, o que o deixou perplexo e irritado - uma sensação de ridículo.
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"À beira da água deteve-se, de cabeça baixa, desenhando com a ponta do pé figuras na areia húmida; entrou então no baixio, que na sua área mais profunda ainda lhe não ultrapassava o joelho, e atravessou-o, avançando indolentemente até ao banco de areia. Aí parou um momento, o rosto voltado para as longuras, começando a percorrer lentamente a língua de areia longa e estreita que o mar descobria. Separado de terra por uma extensão longa de água, separado dos companheiros por um capricho de orgulho, deambulava, visão incomunicável, à parte de tudo e todos, de cabelos esvoaçantes, lá longe no mar, no vento, destacando-se dos horizontes infinitos de bruma. Uma vez mais parou e olhou em sua volta. E, de repente, como que movido por uma recordação, um impulso, girou o tronco e, pousando a mão na anca, numa graciosa inflexão da sua posição original, olhou por cima do ombro para a margem. O observador estava ali sentado, exactamente como naquele dia no hotel em que aquele olhar cinzento de madrugada se voltara na umbreira da porta e encontrara pela primeira vez o seu. A sua cabeça acompanhava lentamente, no recosto da cadeira, o movimento da figura deambulando lá longe; agora erguia-se, como que a receber aquele olhar, e acabou por se deixar cair sobre o peito, de modo que os olhos se levantavam para ver, enquanto o rosto tomava a expressão descontraída e pensativa de um sono profundo." (46)
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(45) A Metamorfose - Franz Kafka; (46) Morte em Veneza - Thomas Mann

terça-feira, 11 de março de 2008

MAGIC MOMENTS 29

Beijo #5 - O Beijo Roubado
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Um beijo do génio Brando, no papel de Terry Malone, a Eve-Marie Saint, num dos filmes mais perfeitos de sempre - Há Lodo no Cais.

segunda-feira, 10 de março de 2008

MURMÚRIOS DE LISBOA LVII

Amélie Poulain Precisa-se
(ou como a realidade ultrapassa sempre a mais imaginativa ficção)

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Candeeiro de rua na Praça do Teatro S. Carlos
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Há um prédio em Lisboa que precisa urgentemente da assistência da Amélie Poulain. Senão vejamos:
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No 5º andar mora um casal de lésbicas velhas que não dão cavaco a ninguém. A mais magra toca órgão, mas leva a mal quando se lhe pergunta se existe uma escola de música no prédio. As velhas também ficam escandalizadas sempre que a maníaco-depressiva chega de boleia num descapotável.
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No mesmo andar, mas do outro lado, tinha vivido uma senhora e seus gatos, que mal saía de casa. Foi encontrada morta três dias depois de se ter suicidado. Isto diz muito sobre as outras pessoas do prédio, mais do que sobre a senhora ... Não se sabe o que aconteceu aos gatos, mas talvez sejam os mesmos que se ouvem miar em noites de lua cheia.
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Na mesma casa onde a senhora se suicidou, mora a filha da senhoria com o marido. Ele sorri sempre e é muito educado para toda a gente, ela parece que enfiou um pau de vassoura pelo cu acima há muitos anos e nunca mais o conseguiu tirar de lá. É advogada ... isto poderá querer dizer algo. Também se desconfia que ela gosta mais do Lulu mudo com cara de penico, que leva a passear todos os dias, do que do marido. Apesar de tudo, os dois andam com trela curta. Não sabemos se o espírito da senhora suicida tem alguma coisa a ver com o pau de vassoura enfiado no cu dela. Mas sabemos que a maníaco-depressiva se lembra de vez em quando da senhora que se matou. Normalmente nas fases depressivas.
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No 4º andar vive uma família normal com 2 filhos. Aparentemente normal. Mas a esposa do casal, assim que a maníaco-depressiva se mudou para lá, deixou cair uma mola para o quintal. Foi muito simpática, mas desde então nunca mais apareceu. As molas, essas, continuam a cair todos os dias. As senhoras lésbicas também já deixaram cair um par de cuecas e tiveram vergonha de as ir lá buscar. Enviaram a porteira. Não sabemos se se tratava de alguma mensagem de código para seduzir a maníaco-depressiva para um ménage à trois. Mas a porteira regressou apenas com as cuecas.
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No terceiro andar mora outro advogado. Também tem um pau de vassoura enfiado pelo cu acima. Deve ser comum a todos os advogados. Tem a mania que é um presente de Deus para todas as mulheres. Parece um Mefistófeles alto, barbudo e bronzeado no solário. E há muitas mulheres que devem concordar com ele. A maníaco-depressiva não tem a mesma opinião. Ele olha-a com desdém, murmura uns bons dias e boas tardes muito a custo e ainda troca olhares sorridentes e marotos com o rapaz da garagem do lado, quando ela passa.
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Ao fim de 4 anos de a ver passar de cima para baixo e de baixo para cima, o rapaz da garagem do lado ganhou finalmente coragem e assobiou-lhe uma manhã. Isto fez com que ela sorrise. Ela estava na fase depressiva. Para fazer alguém sorrir na fase depressiva é preciso muito. O assobio foi muito baixinho, só para ela ouvir e parecia uma música, mas depois no fim tinha aquela voltinha típica dos assobios destinados a galar. Foi um assobio secreto e privado, um segredo. Apesar de achar que ele era um atrevido, a maníaco-depressiva achou o assobio muito sensual. O mais estranho de tudo foi que ela nunca tinha reparado no rapaz da garagem, apesar de passar todos os dias por ele. E mais estranho ainda do que isso foi que no fim-de-semana anterior ao assobio ela tinha pensado nele, sem saber porquê. Ela também passou a achar graça ao dono do assobio e agora pensa nele às vezes. Ele tem uns olhos sérios e uma barba por fazer que lhe agradam. Ele acha que ela é bonita, mas que deve ter um pau de vassoura enfiado pelo cu acima, porque nunca se dignou falar-lhe. Ele não sabe que ela é tímida, míope e distraída.
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O advogado do 3º andar também entra às vezes no prédio bêbedo e a cantar. O advogado também tem os seus fantasmas, mas finge que não. A maníaco-depressiva acha que as mulheres de saltos altos que ela ouve subirem e descerem as escadas, de vez em quando, podem ter algo a ver com estes fantasmas. Um dia o advogado berrou a plenos pulmões quando passou no elevador pelo andar da maníaco-depressiva, imitando uma mulher histérica a cantar. A maníaco-depressiva, que também tem a mania da perseguição, achou que ele estava a gozar com ela, porque ela às vezes, nas fases de mania, vai para a marquise com os auscultadores nos ouvidos e põe-se a cantar em altos berros. Por isso, naquele dia ela foi para a marquise e cantou o mais alto que lhe apeteceu. A verdade é que ele nunca mais voltou a fazer a mesma gracinha e ela iria até jurar que quando se encontraram outra vez à porta do prédio ele a olhou de um modo diferente. Com respeito. Mas isso não interessou nada à maníaco-depressiva, que nessa altura estava numa fase intermédia e cagou de alto para o assunto e para o advogado.
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No 2º andar mora agora um casalinho. Cumprem as estatísticas sexuais nacionais. Todos os Sábados e Domingos, sensivelmente entre as 11.30 da manhã e a 1 da tarde, a cama farta-se de ranger e o espaldar bate contra a parede. Ela geme sempre 3 vezes no final. Ele não pia. Ocasionalmente, durante a semana, ocorre a tradicional rapidinha por volta das 8 da noite. À parte isso, não incomodam ninguém. Devem ser felizes.
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No rés-do-chão está uma loja de produtos biológicos. O dono tem falinhas mansas, cabelos brancos prematuros e um ar de ecologista irritante e contribuiu para o aumento da poluição do planeta com um arsenal de máquinas ventiladoras instaladas nas traseiras do 1º andar, que enlouqueceram toda a vizinhança mais próxima durante alguns meses. A maníaco-depressiva teve ataques de choro incontroláveis durante alguns dias por causa das máquinas. Mas foi a única que teve coragem de se ir lá queixar. Os outros acobardaram-se. O problema foi resolvido, talvez porque nessa altura a maníaco-depressiva estava na fase maníaca e ele ficou com medo que ela quisesse fazer Tofu da cara dele. De vez em quando, ele telefona à maníaco-depressiva por engano e diz “É a Sara do Tofu? Olhe, precisamos de mais umas caixas.” A maníaco-depressiva responde-lhe sempre “Não, é a sua vizinha.”, quer esteja na fase depressiva, maníaca ou intermédia. Ele desmembra-se em desculpas, mas ela fica sempre com a sensação que ele acha que é mesmo a Sara do Tofu a brincar com ele. A maníaco-depressiva já cismou várias vezes se o dono da loja e a Sara do Tofu não terão um caso extra-conjugal. Ela nunca comprou nada na loja, mas não é por suspeitar que ele tenha um caso extra-conjugal.
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No meio disto tudo, a porteira é a única que fala com toda a gente. Mas presume-se que seja por causa do dinheiro que recebe da recolha dos lixos. Apesar de tudo, a maníaco-depressiva deixa-lhe um cartão de Natal todos os anos na caixa de correio. Ela às vezes não retribui. Mas não é por causa disso que a maníaco-depressiva anda a tentar matar-se com cigarros.
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Portanto, Amélie, filha, acho que já percebeste a gravidade da situação. Acaba lá as arrumações em Paris e vem depressa para Lisboa – há um prédio a necessitar da tua ajuda urgente. Depois dou-te as coordenadas.

domingo, 9 de março de 2008

EM BUSCA DE PALAVRAS 14

AVISO: Este post é de leitura interdita a menores de 18 anos ou a pessoas sem o mínimo de bom senso ou senso de humor dentro da tola
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A Melhor Amiga de Um Sniper – Parte XII
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"A lentidão é eficácia. A eficácia é rapidez."
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A camuflagem de um sniper é imprescindível. Sem camuflagem, é o mesmo que o sniper ter uma tabuleta a dizer "Oi! Estou aqui!" A camuflagem evoluiu consideravelmente nas últimas décadas e é hoje em dia uma arte de trabalhos manuais que o própiro sniper deve dominar em qualquer ambiente. Apesar de haver fatos destes à venda, qualquer sniper normalmente confecciona o seu próprio, até porque é necessário utilizar elementos do ambiente onde se encontra.
Ao fato dá-se o nome de "ghillie suit", um termo que nasceu na Escócia, onde os caçadores costumavam atar sacos de tecido ao seu corpo para disfarçarem os seus contornos e iludirem a caça. "Ghillie" significa "rapaz" e referia-se aos servos que assistiam os senhores nas caçadas e que tinham como função perseguir a caça. "Ghillie dhu" é também um espírito das árvores no folclore gaélico, que costuma disfarçar-se no meio de folhas e vegetação.
Também se foram buscar as técnicas dos vietnamitas que utilizavam vegetação verdadeira para se disfarçarem no meio da selva.
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O essencial na camuflagem de um sniper é entender este princípio básico: na natureza não existem linhas perfeitas, nem totalmente curvas, nem totalmente direitas; as linhas são sempre irregulares, por isso, quando se vê uma linha perfeita, ou se trata dum capacete (no caso da linha curva), ou de uma antena de rádio, por ex. (no caso da linha direita) - a camuflagem serve para quebrar as linhas perfeitas, através da aplicação de muitos pequenos pedaços de tecido por todo o lado.
Os ghillie suits variam de cor consoante o ambiente em que o sniper se encontra, tal e qual a camuflagem natural de certos animais, como borboletas, camaleões, tigres, etc - no deserto será de tons castanhos, no meio do mato e da selva, tons verdes e castanhos, na neve, branco ou em ambientes nocturnos, preto.
O resultado é algo cómico quando o sniper não está no ambiente para o qual o fato se destina (parece uma esfregona enorme e ambulante), mas extremamente eficaz em acção - um bom ghillie suit pode esconder um homem num canteiro de flores, se for preciso.
Naturalmente, também se fazem ghillie suits para as próprias espingardas, ou então estas são pintadas com spray com as cores necessárias.
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Outros dois pormenores são de extrema importância:
* 1 boné de pala (ou em teatro de guerra um capacete adaptado), para que o campo de visão esteja totalmente desobstruído de qualquer possibilidade de encandeamento por luzes
* o local de posicionamento deve ser escolhido em função da iluminação, ou seja, deve-se escolher um local que permita ao sniper ter iluminação traseira, para que fique "em sombra"
Em ambientes citadinos, o ghillie suit deve ajustar-se às linhas rectas dos prédios, por exemplo, e neste caso dispensa-se o tal "espanador" de bocadinhos de tecido.
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Ah sim! E nenhum sniper coloca o cano da espingarda fora duma janela, quando dispara. Se o fizer, não é sniper, é atrasado mental.
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No próximo episódio, veremos como funcionam as equipas de snipers e o controlo da tensão física que todos os snipers têm que aprender - algo verdadeiramente fascinante e cuja dificuldade já tive oportunidade de experimentar em primeira mão :)
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Hasta la vista, baby.

sábado, 8 de março de 2008

EM MINHA CASA, NA PONTA DOS PÉS 33 (Cont.)

Capítulo 9. À BEIRA DA ÁGUA DETEVE-SE

Eram pensamentos que se soltavam, a cada dia mais complexos e elaborados, que progrediam desde formas intrincadamente misteriosas na sua mente para suspiros audíveis cada vez mais inteligíveis e claros, até os conseguir verbalizar totalmente em conjuntos de palavras com sentido.
Sem o saber, inconscientemente o trabalho de todos os autores que John a fazia ler refinava-lhe lentamente o seu próprio pensamento e o seu próprio discurso, contaminando-se um ao outro num ciclo vicioso potencialmente significativo. Emily estava em processo de aculturação, embora nem sequer suspeitasse.
À medida que os dias passavam, as palavras que ia soltando deixavam de ser apenas proteínas individuais numa sopa primordial de emoções e aglutinavam-se em cadeias cada vez mais extensas, trocavam de lugar, recombinavam-se originalmente e davam à luz organismos de frases completas que cada vez correspondiam mais e melhor às suas emoções, sentimentos, pensamentos e reflexões.
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as palavras dele são as palavras que parecem preencher tudo
a tua voz penetra-me o espírito e viaja dentro de mim, serpenteando no meu interior e alojando-se num determinado sítio onde me parece que sempre pertenceu
falas pouco, mas dizes tudo o que precisa ser dito
as tuas palavras são uma chave que abre as palavras que eu entendo de outros e as solta na sua forma certa, que corresponde exactamente ao conteúdo
Olha-me vê sente-me olha de novo
quero que me vejas
gosto que me vejas sem me veres
gosto que me vejas no escuro dá-me a tua escuridão

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E o seu rosto cada vez se tornava mais agradável, em comparação com o de Hesse, com o de qualquer outro, e a sua voz embalava-a antes de adormecer.
Sentia-se perdida e sozinha.
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E agora ali estava ele, pela primeira vez amaldiçoando-se por ter carregado no acelerador. Realizando um exame de consciência absurdo, um ano após a tragédia, como se isso fosse capaz de o ajudar em alguma coisa. Porque, na realidade, pensar dessa forma só iria conduzi-lo num exercício circular vicioso sem sentido nenhum. Se não tivesse tido o acidente, nunca teria conhecido Emily e não estaria a desejar poder observar as suas reacções. E depois começou a pensar em tolices ainda maiores, como a possibilidade de nunca a ter conhecido ou a hipótese de a poder ter conhecido de qualquer maneira, mesmo que estivesse em perfeitas condições de saúde. E, finalmente, claro, o mais absurdo de todos, e que podia ir fazer companhia ao do outro dia, quando pensara que ela fora enviada pelo espírito dos seus pais, pensou se não teria tido o acidente para poder conhecê-la. E nessa altura quase enlouquecia com o absurdo que aquela espécie de pensamento provocava na sua mente objectiva e científica.
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"Havia apenas um ardil e era o Artigo 22, o qual especificava que a preocupação de um homem pela sua própria segurança perante perigos reais e imediatos constituía o resultado do funcionamento de uma mente racional. Orr era louco e podia ser dado por incapaz. Bastava-lhe pedir, e a partir do momento em que o fizesse deixaria de ser louco e teria de participar em novas missões. Seria louco se participasse em novas missões e mentalmente são se não o fizesse, mas neste último caso teria de voltar a voar. Se o fizesse, seria louco e não teria de o fazer, mas se não quisesse, estaria em plena posse das faculdades mentais e deveria fazê-lo. Yossarian sentia-se profundamente impressionado com a notável simplicidade daquela cláusula do Artigo 22 e emitiu um silvo de respeito.
- É um bom ardil esse Artigo Vinte e Dois.
- Dos melhores que existem - admitiu o Dr. Daneeka." (44)
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Patético, repetia vezes e vezes sem conta, lembrando-se dos pobres coitados que tentam justificar todos os infortúnios das suas vidas com a desculpa de que tudo tem a sua razão de ser no intrincado desenrolar da roda do destino. E amaldiçoava-se, já não por ter carregado no acelerador, mas por se estar a deixar cair precisamente no mesmo tipo de mentalidade mesquinha que criticava nela e em todos os da sua classe.

E subitamente, convencido de que a rapariga estava realmente a fazer pouco dele e que provavelmente andava a dormir com a faculdade inteira, um dia, sem mais nem menos

(44) Catch 22 - Joseph Heller

sexta-feira, 7 de março de 2008

Passo os dedos pelo dicionário ao acaso e aterro em ...

MOSCA
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A man will rise
A man will fall
From the sheer face of love
Like a fly from a wall
It's no secret at all
The Fly - U2
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Em 1991, durante a produção do álbum Achtung Baby, Bono inventou um alter-ego que assumiu também durante a tournée mundial dos U2 - a Zoo TV Tour. O alter-ego chamava-se The Fly (A Mosca) e tinha como principal característica visual uns óculos escuros negros enormes, que cobriam quase totalmente o rosto do cantor. Não foi por acaso que ele adoptou esta personalidade - Bono diz que, cansado da perseguição das críticas dos media, que o apelidavam de megalomaníaco, The Fly permitia-lhe assumir precisamente essa personalidade - "Eles querem megalomaníaco, então vou dar-lhes isso mesmo." A Mosca inspirava-se nos "barflies" - "moscas de bares" de Dublin, aqueles tipos sempre bêbedos que praticamente vivem nos pubs e que dispõem de um manancial de frases feitas e filosóficas que Bono passou a utilizar. Esta personalidade também se adequava à mensagem do álbum e da tournée mais controversos da banda irlandesa.

Visão composta e múltipla. Como a visão das moscas, os écrans gigantescos da Zoo TV mostravam ao mundo uma orgia ininterrupta de imagens, sons e efeitos especiais, numa clara alusão ao caos visual e sonoro no qual o mundo começara a afogar-se desde a década de 80.
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As moscas dispõem assim de visão múltipla e simultânea. E são pequenas. E voam. O que nos leva, de quando em vez, a suspirar "Ah ... Quem me dera ser mosca ..." Porque se o fôssemos, adquiririamos o extraordinário poder de nos intrometermos discretamente naqueles episódios da vida que nos escapam, mas que connosco estão relacionados. Escutaríamos conversas onde somos o sumo principal, observaríamos reacções de que somos os causadores ou espiariamos comportamentos secretos daqueles que nos querem esconder algo.

Ahh.... Quem nos dera ser mosquinhas da fruta ... Seríamos os espiões perfeitos. Aliás, um dos sinónimos de mosca é precisamente a palavra "espião". Infelizmente, os cerca de 60% de ADN que difere da mosca da fruta, dotou-nos de cérebro evoluído, mas hélas! subtraiu-nos o tamanho e as asinhas, tão práticas para um dos nossos desportos favoritos - espreitar actividades alheias.
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Pequenas, voadoras e com uma visão incrivelmente rápida (vêem o mundo em câmara lenta), as moscas são simultaneamente alvo da inveja e do nojo dos humanos.
Sim, porque no reverso da medalha e num plano bem mais realista, onde há moscas há certamente putrefacção a acontecer. Onde há moscas há lixo, porcaria, podridão, algo ou alguém a decompor-se. E por isso fugimos das moscas como o Diabo da cruz, ou então transformamo-nos em assassinos em série, perseguindo-as de jornal na mão, espezinhando-as, esborrachando-as contra vidros e paredes. As moscas têm o estranho condão de nos transformar em Hulks enraivecidos e ridículos. As moscas têm também o condão de revelar a verdadeira selvajaria das nossas crianças - vejam-nas a arrancar asinhas e a metê-las em frascos de vidro para as observar em lenta agonia e a fronteira entre uma criança e Mengel, o nazi que fazia experiências com gémeos, torna-se subitamente muito ténue ...
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E que dizer daquelas mosquinhas mortas por quem ninguém dá nada e que, afinal, se revelam monstros surpreendentes de qualquer coisa para a qual nunca haveríamos de vislumbrar queda? Parecia uma mosquinha morta ... e afinal ...
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Estranho ser voador este, que ora invejamos, ora nos repugna, ora perseguimos com instinto homicida, ora nos fascina ...
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