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quinta-feira, 1 de julho de 2010

MORMORIOS DI FIRENZE XIX

Il Vero Mostro - Parte VI
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"A palavra italiana para 'mal' e 'doença' é a mesma - 'male'. E a palavra italiana para 'linguagem' e 'estudo' é também a mesma - 'discorso'.
A palavra 'Patologia' pode ser definida em italiano como 'discorso sul male' (estudo da doença ou do mal). Prefiro defini-la como 'male che parla' (mal ou doença que fala). O mesmo se passa com 'psicologia', que é definida como o 'estudo da psique'. Mas eu prefiro 'o estudo da psique lutando para falar através dos seus distúrbios neuróticos'.
Já não existe verdadeira comunicação entre nós, porque a nossa própria linguagem está doente, e a doença do nosso discurso conduz inevitavelmente à doença nos nossos corpos, à neurose, se não mesmo à doença mental.
Quando já não consigo comunicar através do discurso, falarei com a doença. Os meus sintomas serão trazidos à vida. Estes sintomas expressam a necessidade da minha alma em se fazer ouvir, sem o conseguir, porque eu não tenho as palavras para tal e porque aqueles que deveriam ouvir-me não conseguem ouvir para além do som das suas próprias vozes. A linguagem da doença é a mais difícil de interpretar. É uma forma extrema de chantagem que desafia todos os nossos esforços para a apagar e evitar. É uma tentativa derradeira de comunicação.
A doença mental reside no fim desta luta para se ser ouvido. É o último refúgio de uma alma desesperada que compreendeu finalmente que ninguém está a ouvir ou que alguma vez ouvirá. A loucura é a renúncia de todos os esforços para se ser compreendido. É um grito de dor e necessidade sem fim, através do absoluto silêncio e indiferença da sociedade. É um grito sem eco.
É esta a natureza do Monstro de Florença. E é esta a natureza do mal em todos e cada um de nós. Todos temos um Monstro no nosso interior; a diferença está no grau, não na natureza."
Irmão Galileo - monge franciscano e psicanalista a quem Mario Spezi, o jornalista mais proeminente do caso Monstro de Florença, recorreu quando os horrores do caso começaram a interferir com a sua estabilidade emocional
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Entre Agosto de 1968 e Setembro de 1985, o Monstro de Florença assassinou 16 pessoas, 8 casais nos arredores de Florença:
* 21 Agosto 1968 - O casal Antonio Lo Bianco (29) e Barbara Locci (32) foram assassinados com tiros de uma pistola Beretta .22 em Signa, uma pequena vila a oeste de Florença, enquanto o filho de Locci dormia no banco de trás do carro. Locci tinha vários amantes e o marido acabou por ser considerado suspeito do assassínio e preso durante 6 anos. Mas outros casais continuaram a ser mortos, enquanto ele estava na prisão.
* 15 Setembro 1974 - Pasquale Gentilcore (19) e Stefania Pettini (18), um casal de adolescentes, foram mortos a tiro perto de Borgo San Lorenzo, enquanto praticavam sexo no interior de um carro. O corpo de Pettini foi violado com um tronco de vinha e desfigurado com 97 facadas.
* 6 Junho 1981 - Giovanni Foggi (30) e Carmela Di Nuccio (21), noivos, foram mortos a tiro e esfaqueados perto de Scandicci. O corpo de Di Nuccio foi arrastado para fora do carro e o assassino cortou a sua zona púbica com uma faca.
* 23 Outubro 1981 - Stefano Baldi (26) e Susanna Cambi (24), noivos, foram mortos a tiro e esfaqueados num parque perto de Calenzano. A zona púbica de Cambi foi cortada da mesma forma que a de Carmela Di Nuccio.
* 19 Junho 1982 - Paolo Mainardi (22) e Antonella Migliorini (20), noivos, foram mortos a tiro num carro estacionado numa estrada rural em Montespertoli. Desta vez o assassino não mutilou a vítima feminina. Mainardi foi encontrado vivo, mas morreu poucas horas depois.
* 9 Setembro 1983 - Horst Wilhelm Meyer (24) e Jens Uwe Rüsch (24), dois turistas alemães, foram mortos a tiro dentro de um carro. Pensa-se que o cabelo loiro comprido de Jens e a sua pequena estatura possam ter levado o assassino a pensar que se tratava de uma mulher. A polícia supôs que se tratasse de um casal homossexual, mas isso nunca foi provado.
* 29 Julho 1984 - Claudio Stefanacci (21) e Pia gilda Rontini (18), casal de adolescentes, foram mortos a tiro e esfaqueados dentro de um carro estacionado no bosque perto de Vicchio di Mugello. O assassino voltou a cortar a zona púbica da rapariga e também o seu seio esquerdo.
* 7-8 Setembro 1985 - Jean Michel Kraveichvili (25) e Nadine Mauriot (36), turistas franceses e campistas. Nadine foi morta a tiro e esfaqueada enquanto dormia na tenda que tinham montado perto de San Casciano. Jean Michel foi morto perto da tenda, enquanto tentava fugir. O corpo de Nadine foi mutilado. O assassino enviou uma carta e um pedaço de um seio de Nadine à procuradora-geral, desafiando as autoridades a tentarem encontrar as vítimas, antes dos corpos terem sido descobertos.
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Várias pessoas foram acusadas ao longo dos anos de serem o Monstro de Florença, incluindo o jornalista Mario Spezi, co-autor de um livro sobre um dos casos de assassinato em série mais terríveis do mundo. Thomas Harris viajou até Itália e assistiu a diversas audiências dos julgamentos que decorriam, tirando inspiração para o personagem Hannibal Lecter.
O Monstro de Florença nunca foi encontrado.
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FIM

quinta-feira, 24 de junho de 2010

MORMORIOS DI FIRENZE XIX

Il Vero Mostro - Parte V
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Savonarola falava contra a decadência, os excessos e o espírito humanístico do Renascimento.
Alguns anos após a tomada de posse, instigou as famosas Fogueiras das Vaidades. Os seus enviados iam de porta em porta, recolhendo objectos que Savonarola achava pecaminosos - espelhos, livros pagãos, produtos de cosmética, música secular e instrumentos musicais, tabuleiros de xadrez, cartas de jogar, roupas e pinturas. Todos estes objectos eram amontoados na Piazza della Signoria e queimados em grandes fogueiras. O artista Botticelli, que caiu sob a influência de Savonarola, ofereceu muitas das suas obras voluntariamente a estas fogueiras e pensa-se que alguns dos trabalhos de Michelangelo possam também ter perecido no fogo de Savonarola, juntamente com outras obras-primas do Renascimento, de valor incalculável.
Sob o governo de Savonarola, Florença afundou-se no declínio económico. Os Últimos Dias de que ele falava constantemente, nunca chegaram. Em vez de abençoar a cidade pela sua religiosidade descoberta, Deus parecia tê-la abandonado. O povo, especialmente a juventude, começou a desafiar os éditos de Savonarola. Em 1497, uma multidão de jovens rapazes explodiu durante um dos sermões de Savonarola; o motim espalhou-se e tornou-se uma revolta generalizada, as tabernas reabriram, o jogo foi retomado e a dança e a música podiam mais uma vez ser ouvidas, ecoando pelas travessas esguias de Florença.
Vendo o seu controlo desaparecer, Savonarola tornou-se ainda mais fanático nos seus sermões e cometeu um erro fatal - virou as críticas contra a própria igreja. O papa excomungou-o e ordenou a sua prisão e execução. Uma multidão enfurecida invadiu o mosteiro de San Marco, deitou as portas abaixo, matou alguns dos monges e arrastou-o para fora. Foi acusado de um rol de crimes, entre os quais "erro religioso". Depois de ter sido torturado durante várias semanas, foi pendurado em correntes numa cruz na Piazza della Signoria, no mesmo local onde tinha erguido as suas Fogueiras das Vaidades, e queimado vivo. O fogo foi alimentado durante horas e os seus restos mortais foram recolhidos e remisturados nas cinzas, para que não sobrasse nenhum pedaço seu, passível de ser usado como relíquia de veneração. As suas cinzas foram atiradas para o Arno.
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O Renascimento foi retomado. O Sangue e a beleza de Florença continuaram. Mas nada dura para sempre, e ao longo dos séculos, Florença perdeu gradualmente o seu lugar entre as principais cidades da Europa. Recuou para os bastidores, famosa pelo seu passado, mas invisível no presente, enquanto outras cidades italianas se tornaram mais proeminentes, sobretudo Roma, Nápoles e Milão.
Os florentinos actualmente são conhecidos pela sua clausura, considerados pelos outros italianos como arrogantes e presumidos, excessivamente formais, saudosistas e fossilizados pela tradição. Eles são sóbrios, pontuais e trabalhadores. No fundo, os Florentinos sabem que são mais civilizados do que os outros italianos. Eles deram ao mundo tudo o que é de excepção e de belo e fizeram mais do que suficiente. Agora podem fechar as suas portas e virarem-se para o interior.
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Quando o Monstro de Florença chegou, os Florentinos encararam os assassínios com incredulidade, desespero, terror e uma espécie de fascínio doentio. Eles pura e simplesmente não podiam aceitar que a sua lindíssima cidade, a expressão física do Renascimento, o próprio berço da civilização ocidental, como é apelidada, pudesse albergar um tal monstro.
Mas mais do que isso, eles não conseguiam aceitar a ideia de que o assassino pudesse ser um deles.
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retirado de "The Monster of Florence" - Douglas Preston e Mario Spezi

terça-feira, 15 de junho de 2010

MORMORIOS DI FIRENZE XVIII

Il Vero Mostro - Parte IV
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Num calmo Domingo de Abril, um bando de assassinos Pazzi atacou Lorenzo, o Magnífico e o seu irmão, Giuliano, num momento vulnerável - durante a missa no Duomo. Mataram Giuliano, mas Lorenzo conseguiu escapar e fechou-se na sacristia. Os florentinos, enraivecidos com este ataque ao seu patrono, perseguiram os conspiradores. Um dos líderes, Jacopo de' Pazzi, foi enforcado numa janela do Palazzo Vecchio, o seu corpo desnudado e arrastado pelas ruas e atirado ao rio Arno. Apesar desta contrariedade, a família Pazzi sobreviveu, oferecendo ao mundo a famosa freira Maria Maddalena de' Pazzi que surpreendeu o mundo com os seus delírios arrebatadores durante as orações.
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Um Pazzi fictício foi criado no século XX, quando o escritor Thomas Harris fez um dos seus personagens principais no romance Hannibal, um descendente dos Pazzi, um detective da polícia florentino que ganha fama e notoriedade por resolver o caso do Monstro de Florença.
A morte de Lorenzo o Magnífico em 1492, no auge da Renascença, conduziu a um desses períodos sangrentos que marcaram a história florentina. Um monge dominicano de nome Savonarola, que vivia no Mosteiro de San Marco, consolou Lorenzo no seu leito de morte, para mais tarde se virar contra a família Medici. Savonarola era um homem estranho, escondido sob vestes castanhas de monge, magnético, vulgar, desajeitado e bruto, com um nariz adunco. Começou a pregar na igreja de San Marco contra a decadência da Renascença, proclamando que os Últimos Dias tinham chegado e contando as suas supostas visões e conversas directas com Deus.
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A sua mensagem ressoou por Florença, cujos cidadãos tinham assistido com desaprovação ao consumo desregrado e excessiva riqueza da Renascença e dos seus patronos, muita da qual lhes tinha sido negada. O seu descontentamento acentuou-se com uma epidemia de sífilis, proveniente do Novo Mundo, que assolou a cidade. Era uma doença desconhecida da Europa até então e surgiu numa forma muito mais virulenta do que aquela que existe actualmente - o corpo das vítimas ficava coberto de pústulas abertas, a pele caía, a mente enlouquecia antes da morte chegar. O ano de 1500 aproximava-se, data que parecia a alguns marcar a chegada dos Últimos Dias. Neste clima, Savonarola encontrou uma audiência receptiva às suas ameaças.
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Em 1494 Carlos VIII de França invadiu a Toscânia. Piero, o Desafortunado, que tinha herdado o governo de Florença do seu pai, Lorenzo, era um líder arrogante e ineficaz. Rendeu a cidade a Carlos sob condições desvantajosas, sem sequer opor uma luta digna desse nome, o que enfureceu os Florentinos de tal forma, que expulsaram os Médicis e ocuparam os seus palácios. Savonarola, que tinha entretanto angariado muitos seguidores, ocupou o lugar vago do poder e declarou Florença uma "República Cristã", assumindo-se como seu líder. Declarou imediatamente a sodomia, uma prática popular e mais ou menos socialmente aceitável entre os florentinos sofisticados, como actividade punida com a morte. Os transgressores e outros eram regularmente queimados na Piazza della Signoria ou enforcados fora dos portões da cidade.
O louco monge de San Marco tinha agora carta livre para acicatar o fervor religioso entre a população da cidade.
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retirado de "The Monster of Florence" - Douglas Preston e Mario Spezi

domingo, 6 de junho de 2010

MORMORIOS DI FIRENZE

Il Vero Mostro - Parte III
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Florença foi fundada por Júlio César no ano 59 a.C., como uma vila para soldados na reforma. Foi chamada Florentia, ou "a que floresce". Por volta do ano 250 d.C. um príncipe Arménio chamado Miniato, após uma peregrinação a Roma, instalou-se num monte nos arredores de Florença e viveu como um ermita numa gruta, da qual saía para pregar aos pagãos na vila. No tempo das perseguições aos Cristãos, durante o império de Decius, Miniato foi preso e decepado na praça principal da vila, onde (diz a lenda) ele pegou na sua cabeça cortada, colocou-a de novo nos ombros e caminhou de regresso ao seu monte para morrer com dignidade na sua gruta. Hoje em dia, uma das mais adoráveis igrejas do período Romano em toda a Itália ergue-se precisamente nesse local, San Miniato al Monte, com vista sobre a cidade e as suas colinas.
Em 1302, Florença expulsou Dante. Em troca, Dante populou o seu Inferno com florentinos proeminentes e reservou-lhes algumas das mais macabras torturas.
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Durante o século XIV, Florença enriqueceu com o comércio de lã e a banca e no final do século era uma das cinco maiores cidades da Europa. No início do século XV, Florença deu à luz um desses inexplicáveis florescimentos de génio que ocorreram menos de meia dúzia de vezes na história da humanidade. Mais tarde, este período seria apelidado de Renascença, após o longo período de trevas da Idade Média. Entre o nascimento de Masaccio em 1401 e a morte de Galileo Galilei em 1642, os Florentinos inventaram o mundo moderno. Revolucionaram a arte, a arquitectura, a música, a astronomia, a matemática e a navegação. Criaram o sistema bancário moderno com a invenção da nota de crédito. O florim de ouro, com o lírio florentino numa das faces e João Baptista na outra, tornou-se a moeda da Europa. Esta cidade, situada na margem de um rio que não era navegável, produziu brilhantes navegadores que exploraram e mapearam o Novo Mundo, e um deles chegou até a dar nome à América.
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Mais do que isso, Florença inventou a ideia de mundo moderno. Com o Renascimento, os florentinos deitaram fora o medievalismo, no qual Deus se encontrava no centro do universo e a existência humana na terra se reduzia a uma passagem negra e rápida para a outra vida gloriosa do além, e declararam que esta vida é que era o principal acontecimento. O curso da civilização ocidental mudaria para sempre.
O Renascimento florentino foi financiado em grande parte por uma única família, os Médicis. Subiram ao poder em 1434, sob a liderança de Giovanni di Bicci de' Medici, um banqueiro florentino que possuía uma enorme fortuna. Os Médicis gorvernaram a cidade nos bastidores, com um inteligente sistema de patronagem, alianças e influências. Embora fossem uma família de mercadores, desde muito cedo começaram a verter dinheiro para as artes. O bisneto de Giovanni, Lorenzo o Magnífico, foi o epítome do termo "homem do Renascimento". Em rapaz, Lorenzo tinha sido incrivelmente dotado e recebeu a melhor educação que o dinheiro podia comprar, tornando-se um exímio cavaleiro, falconeiro, caçador e criador de cavalos de corrida. Assumiu o governo da cidade em 1469, após a morte do seu pai, com apenas 20 anos. Reuniu à sua volta homens como Leonardo da Vinci, Sandro Botticelli, Filippino Lippi, Michelangelo e o filósofo Pico della Mirandola.
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Lorenzo conduziu Florença para uma Idade de Ouro. Mas até no auge do Renascimento, a beleza misturava-se com o sangue, a civilização com a selvajaria, nesta cidade de paradoxos e contradições. Em 1478 uma família de banqueiros rival dos Médicis, os Pazzis (que sinifica literalmente "homens loucos") tentaram um coup d'état contra os Médicis.
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retirado de "The Monster of Florence" - Douglas Preston e Mario Spezi

sábado, 29 de maio de 2010

MORMORIOS DI FIRENZE XVI

Il Vero Mostro - Parte II
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Muitos países têm um assassino em série que define a sua cultura através de um processo de negação, que exemplifica a sua era não pela exaltação dos seus valores, mas pela exposição dos seus horrores.
Inglaterra teve Jack the Ripper, nascido no nevoeiro opressivo da Londres Dickensiana, que perseguia a mais negligenciada das classes sociais, as prostitutas que tentavam sobreviver nos becos imundos de Whitechapel.
Boston teve o Estrangulador de Boston, o atraente e charmoso assassino que deambulava pelos bairros mais elegantes da cidade, violando e assassinando mulheres idosas e compondo os seus corpos em "quadros" de obscenidade inimaginável.
A Alemanha teve o Monstro de Düsseldorf, que pareceu prever a chegada de Hitler através da matança indiscriminada de homens, mulheres e crianças; a sua sede de sangue era tão grande que na véspera da sua execução, apelidou a sua própria decapitação como "o prazer que terminaria todos os prazeres".
Cada assassino foi, à sua maneira, uma personificação negra da sua época e da sua geografia.
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Itália teve o Monstro de Florença.
Florença sempre foi uma cidade de opostos. Numa tarde primaveril, com o ocaso a pincelar os palácios que emolduram as margens do rio, pode parecer uma das mais belas e graciosas cidades do mundo. Mas no final de Novembro, após dois meses de chuva ininterrupta, os seus palácios antigos tornam-se cinzentos e invadidos pela humidade; as estreitas ruas empedradas, cheirando a gás dos esgotos e a fezes caninas, tornam-se ainda mais estreitas pelas fachadas de pedra escura e telhados salientes que tornam a já escassa luz ainda mais ténue. As pontes que atravessam o Arno estão cobertas de guarda-chuvas negros. O rio, tão agradável no Verão, incha para se transformar numa corrente castanha e oleosa, carregando troncos de árvores e por vezes animais mortos, que se amontoam junto aos pilares desenhados por Ammanati.
Em Florença, o sublime e o terrível andam de mãos dadas: As Fogueiras das Vaidades de Savonarola e O Nascimento de Vénus de Botticelli; os livros de notas de Leonardo da Vinci e "O Príncipe" de Maquiavel; "O Inferno" de Dante e o "Decameron" de Boccaccio.
A Piazza della Signoria, a praça principal, contém uma exposição ao ar livre de esculturas Romanas e Renascentistas exibindo algumas das mais famosas estátuas de Florença. Na sua galeria de horrores é apresentada uma exibição pública de assassínios, violações e mutilações que não encontram paralelo em mais nenhuma cidade do mundo. A encabeçar o espectáculo está a famosa escultura de bronze de Cellini que representa Perseus triunfantemente empunhando a cabeça decapitada de Medusa, como um jihad num vídeo da internet, sangue a escorrer do seu pescoço, o seu corpo decapitado espalhado aos seus pés. Por trás de Perseus encontram-se outras estátuas representando lendas famosas de assassínios, violência e caos - entre elas O Rapto das Sabinas, de Giambolona.
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No interior das muralhas de Florença foram cometidos os mais refinados e selváticos crimes, desde envenenamentos delicados até brutais desmembramentos públicos, torturas e incêndios. Durante séculos, Florença projectou o seu poder sobre o resto da Toscânia à custa de massacres ferozes e guerras sangrentas.
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retirado de "The Monster of Florence" - Douglas Preston e Mario Spezi

quinta-feira, 20 de maio de 2010

MORMORIOS DI FIRENZE XVI

Il Vero Mostro - Parte I
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O verdadeiro Monstro de Florença começou a matar no Outono de 1974.
Entre esta data e o ano de 1985, sete casais foram assassinados enquanto faziam amor em carros estacionados nos bosques frondosos que rodeiam Florença. O caso tornou-se a mais longa e mais cara investigação criminal italiana. Perto de 100.000 homens foram investigados e mais de uma dúzia presos, muitos dos quais tiveram de ser libertados quando o Monstro atacou de novo.
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A geração de florentinos que atingiu a maioridade durante os assassínios afirma que estes mudaram a cidade e as suas vidas. Houve suicídios, exumação de corpos, alegados envenenamentos, partes corporais enviadas por correio, processos em tribunal, falsas evidências e vendettas judiciais. A investigação tem constituído uma espécie de malignidade, espalhando-se para trás no tempo e para fora no espaço, metastacizando para diferentes cidades e inchando em novas investigações, com novos juízes, polícias e promotores públicos, mais suspeitos, mais detenções e muitas mais vidas arruinadas.
Apesar da mais longa caça ao homem efectuada em Itália, o Monstro de Florença nunca foi descoberto.
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A investigação teve o condão de levantar o véu sobre os podres de Florença, nomeadamente sobre um submundo bizarro de cuja existência poucos florentinos tinham conhecimento - em Itália (como em outros países do Sul da Europa, incluindo Portugal), a maioria dos jovens vive em casa dos pais até casar e muitos casam tarde. Em consequência, ter relações sexuais em carros estacionados é um desporto nacional. Tem-se dito que 1 em cada 3 florentinos vivos foi concebido dentro de um carro. Em quase todas as noites de qualquer fim-de-semana, os bosques que rodeiam Florença estavam cheios de jovens casais estacionados por todo o lado. Durante a investigação do primeiro crime, a polícia descobriu que dezenas de voyeurs invadiam o campo para espiar estes casais. Localmente eram conhecidos como indiani, ou índios, porque se aproximavam sorrateiramente na escuridão da noite. Alguns chegavam até a carregar sofisticado equipamento electrónico, incluindo microfones, gravadores e câmaras de captação nocturna. Os indiani dividiam os bosques em zonas de operação, cada um gerido por um grupo ou "tribo" que controlava os melhores locais para o voyeurismo. Muitas vezes estes locais eram negociados ali mesmo, cedendo-se o posto a outro mediante o pagamento de dinheiro. Os indiani mais ricos chegavam até a contratar guias para minimizar os riscos. Depois havia ainda uma subcultura dentro desta subcultura - os que espiavam os próprios indiani para depois fazerem chantagem, ameaçando revelar as suas actividades nocturnas às mulheres, famílias e patrões.
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O Monstro de Florença teve o condão de, tal e qual como aconteceu noutros países com outros serial killers, revelar a verdadeira Florença aos próprios florentinos.
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retirado de "The Monster of Florence - A True Story" - Douglas Preston e Mario Spezi

terça-feira, 11 de maio de 2010

MORMORIOS DI FIRENZE XV

O Carabinieri - Parte II
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Sentado na esplanada do Café Rivoire, Rinaldo Pazzi deu um último golo na chávena de chocolate quente e limpou os beiços e o bigode, antes de acender um cigarro. O seu semblante encontrava-se carregado, mas não por ter pago 6 euros e 75 cêntimos pelo chocolate. A agente telefonara-lhe no dia anterior para o informar que estava em Florença e que tencionava ter uma reunião com o seu departamento para acertarem estratégias. Mas Rinaldo decidira logo durante a conversa telefónica brusca que não iria ajudá-la de maneira nenhuma.
O que é que ela andava aqui a farejar? Voltasse lá para a terra do Uncle Sam. Haviam-no deixado escapar mesmo debaixo das pencas gringas e agora queriam-no de volta a todo o custo, mas esqueciam-se dum pequeno pormenor - Florença não era o Tennessee e Florença continuava a ser o seu território. E ali mais ninguém punha a pata a não ser ele.
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No dia anterior consultara o site do FBI para verificar se não estava a ter visões. O Doutor tinha feito uma plástica, mas fora uma coisa leve. Lá estava ele, na página dos 10 Most Wanted Fugitives - Hannibal Lecter ou, como o Bureau carinhosamente o apelidava, Hannibal The Cannibal. A recompensa oferecida pelo milionário que Lecter havia desfigurado, para quem fornecesse informações sobre o paradeiro do psiquiatra, era de 3 milhões de dólares.
Com 3 milhões de dólares havia muita coisa que ele podia fazer. Muitos chocolates quentes que podia beber. Mas, sobretudo, muitas jóias que podia oferecer à sua lindíssima mulher, que escolhera ficar com ele sem que Pazzi entendesse até hoje tamanha sorte. E não era aquela pindérica do Kansas que lhe ia estragar os planos.
O Monstro era seu, pensou, enquanto batia ritmadamente com o segundo cigarro na mesa da esplanada, para concentrar bem as folhas de tabaco. Só precisava do raio das impressões digitais para fazer a prova.
Levantou-se e cruzou a praça com passo decidido. Na sua cabeça ainda ecoavam teimosamente as palavras da Agente Starling:
"You're trying to catch him yourself, aren't you? He killed three policemen while in custody. Turned the face of one of them and he will kill you too!"
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inspirado nos personagens Rinaldo Pazzi, Clarice Starling e Hannibal Lecter, criados por Thomas Harris

domingo, 2 de maio de 2010

MORMORIOS DI FIRENZE XIV

Perseus e a Medusa
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Perseus avançou no escuro da caverna, mal tocando o chão. As sandálias aladas que as ninfas lhe tinham oferecido eram muito úteis naquele antro escuro e fétido, onde cada passo em falso o denunciaria ao terrível monstro que lá habitava.
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Empunhou a espada forjada com lâmina de diamante, a única que podia atravessar como manteiga a pele rígida das górgonas.
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O capacete tornava-o invisível, mas apenas a sua identidade, não a sua presença. E as górgonas não entretinham companhia, muito menos humana. Abominavam tudo o que mexesse acima ou abaixo do Olimpo. Amaldiçoadas por Poseidon, cuja recusa de Medusa aos seus encantos lhe ferira o orgulho, as três irmãs haviam sido condenadas a viver como monstros, cujos olhos quem fixasse se tornava instantaneamente pedra.
Atena prevenira-o e oferecera-lhe o seu escudo límpido como um espelho.
Avançou cautelosamente e descobriu-as, dormindo junto a um lago interior de águas irizadas, iluminado por uma única clarabóia aberta no topo da caverna. Os reflexos coloridos da ténue luz pintalgavam os rostos e os corpos das irmãs. Duas eram monstruosas, hediondas. Medusa era a única que permanecera bela mas, talvez por isso mesmo, fosse ainda mais terrível do que as outras. A sua beleza irada, calejada de ódio e envolta por um repuxo de serpentes sinuosas e sibilantes, arrepiava o mais valoroso dos guerreiros até à medula.
Perseus aproximou-se lentamente de costas, empunhou o escudo e olhou para o rosto da górgona reflectido na superfície límpida de bronze. Depois desferiu o golpe fatal. A cabeça de Medusa rolou pelo chão. Perseus pegou nela vitorioso.
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Mas as duas irmãs sobreviventes acordaram e o semi-deus não foi suficientemente rápido. Distraiu-se e olhou-as. E assim ficou, petrificado para a eternidade.
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Hoje, reside na Piazza della Signoria, onde é admirado pelas centenas de humanos que por lá passam todos os dias.
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As górgonas, essas, talvez ainda vivam, algures para os lados da península grega.
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Baseado no mito de Perseus

sexta-feira, 23 de abril de 2010

MORMORIOS DI FIRENZE XIII

O Canibal - Parte V
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Do outro lado do rio, no miradouro Piazzale Michelangelo, o Monstro observa o Estorninho com um par de poderosos binóculos apertados entre as mãos grandes.
Há muitos turistas por ali, apreciando a vista de Florença do outro lado do rio. Para além dos turistas, um casamento asiático colectivo polvilha a paisagem de risos e conversas e roçares de sedas e rendas. São quatro as noivas vestidas de merengue branco e quatro os noivos de tronco nu, apesar do frio gélido. Alguma promessa de noivado ou costume asiático.
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Hannibal não larga os binóculos e segue-a até à Ponte Vecchio. Depois perde-a de vista por trás das habitações coloridas que, como peças de lego usadas, compõem a mais anciã das pontes da cidade.
Murmura:
"Clarice ... Não demoraste muito. Sempre a farejar onde não deves ..."
Observa as extremidades da ponte por uma boa meia hora, mas perdeu-a de vez.
Vira-se para o David, cópia do verdadeiro exposto na Galleria della Academia. Não gostava deste. Para além de ser esculpido naquele horrível bronze, as diferenças estruturais entre a cópia e o original eram, naturalmente, assombrosas. Não que a maioria das pessoas reparasse nesse pormenor. As máquinas poderosas disparavam a torto e a direito e ele tinha a certeza que a maioria dos seus donos não estaria sequer interessada em visitar o original. Infelizmente este não era permitido fotografar. Talvez isso desmotivasse muitos, sempre na ânsia de registar na máquina e não na mente. Não sabiam o que perdiam.
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Com uma altura de cinco metros e dezassete centímetros, o David esculpido por Michelangelo respirava humanidade. Ia lá olhá-lo pelo menos uma vez por semana. Gostava de o rodear numa volta completa de 360º, inspirando o génio que emanava da pedra polida. Depois quedava-se sempre uma boa meia hora a desenhá-lo. Todas as semanas encontrava um pormenor que lhe houvera escapado. Era extraordinário.
Como extraordinário era o animal de pele alva que se movia nesse preciso momento algures pelas ruas de Florença, farejando o seu encalço. Hannibal inspirou o ar e cheirou-lhe a mel.
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inspirado nos personagens Hannibal Lecter e Clarice Starling, criados por Thomas Harris

quinta-feira, 15 de abril de 2010

MORMORIOS DI FIRENZE XII

O Estorninho - Parte II
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O Estorninho ergueu a cabeça e aspirou o ar. Estava uma tarde cálida e doce. A atmosfera, como sempre, era temperada com o doce cheiro de bolos, indefinível, aquele aroma que buscamos sem sucesso porque é de massa acabada de cozer e nunca tem tradução no produto final. Mas ela não deu importância a este aspecto.
Atravessou a praça onde Hércules subjugava o leão e aproximou-se do rio.
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Caminhou apressadamente até desembocar numa esquina onde repousava uma botega de artigos de papel.
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Se o Monstro a tivesse observado, diria que o Estorninho não sabia abrandar. Que corria pela vida sempre numa ânsia de descobrir, de desarrumar, de levantar a poeira, de perseguir, como um perdigueiro inquieto e obcecado. Mas não sabia ela que não é essa a natureza dos estorninhos? Sobretudo a desse estorninho que ela é.
Clarice entrou na loja e fingiu, um pouco desajeitadamente, deambular pelos artigos expostos como se procurasse coisa nenhuma em particular. Finalmente dirigiu-se ao balcão.
"Bon Giorno!", a dona da loja sorriu abertamente, mas Clarice apenas lhe devolveu o cumprimento com um rápido sorriso mecânico.
"Good afternoon. I am looking for a jewellery shop called Il Oro"
"Ponte Vecchio. À destra é pui la ponte Vecchio.", a outra indicou-lhe a direcção com a mão.
"Thank you.", deixou os dedos passarem ao de leve pela capa de um bloco de folhas de papel de carta. Tinha um padrão intrincado, cheio de folhas e volteados coloridos e dourados, que brilhava mesmo ali na penúmbra recolhida da pequena loja. Era um padrão famoso, porque já o vira noutros sítios de Florença e mesmo em Roma.
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Saiu da loja, mas os seus dedos carregaram nas pontas a impressão de uma pergunta secreta: Apreciaria o Doutor Lecter este papel, para escrever as suas cartas?
Não saberia o Estorninho que essa simples interrogação a conduzia sem equívoco à sua verdadeira natureza? Ou não se dava conta que quando lia uma das suas cartas o sangue lhe corria vertiginosamente nas veias, enquanto o resto de si se quedava numa quietude ao mesmo tempo serena e frenética?
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baseado nos personagens Clarice Starling e Hannibal Lecter, criados por Thomas Harris

terça-feira, 6 de abril de 2010

MORMORIOS DI FIRENZE XI

O Americano e o Irlandês
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irlandês e o americano bebiam um whiskey no Guiubbe Rose quando o americano exclamou:
"Raios, James! Olha para isto!"
A sua voz tonitruante encheu o café, desde o fundo da última sala até à porta de entrada, fazendo estremecer os copos de cristal irizado nas prateleiras por trás do balcão.
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O irlandês ajustou os óculos de fundo de garrafa no nariz e, sem se intimidar com a omnipotência do gringo, pegou no jornal que o outro lhe estendia. Examinou-o atentamente, o nariz enfiado nas letras miúdas, e depois, com um gesto displicente, devolveu o jornal ao americano.
"Não dizes nada?", insistiu o outro, "Não te apraz dizeres nada, meu velho?"
James não retorquiu. Bebeu mais um golo acobreado do seu copo baixo e observou a mesa atentamente. Estava algo tocado, estado que parecia permanente desde que se haviam encontrado ali, por acaso, há coisa de um mês.
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Ernest, também ele já com uma boa dose de álcool a correr-lhe indolentemente nas artérias, levantou-se cambaleante e pegou no jornal com ambas as mãos, sacudindo-o e estendendo-o à distância dos braços grandes, enquanto balançava na direcção do balcão.
Guido levantou a cabeça da tarefa que o ocupava naquele momento - secar canecas de cerveja - e antecipou o comportamento do homem imponente que tonitruava pela sala como um grande urso à solta numa arena de circo.
"Vejam bem! Vejam bem isto! A Irlanda está de novo em fogo. E ele", girou a cabeça na direcção do irlandês e ergueu uma das sobrancelhas, "não quer saber."
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Guido pegou no jornal e examinou-o com interesse. A primeira página referia em letras garrafais que a violência regressara à Irlanda. Aparentemente, Liam Lynch, um dos maiores oponentes ao Tratado Anglo-Irlandês negociado por Michael Collins, repudiara a autoridade do governo do novo Estado Livre, que acusava de ter traído o ideal da República Irlandesa. A Guerra Civil estalara de novo, em resultado do apoio do antigo presidente da República Eamon de Valera, ao IRA anti-tratado.
Guido abanou a cabeça dum lado para o outro e fez um gesto tipicamente italiano, juntando os dedos da mão direita, com a palma virada para cima e balançando o braço num movimento cadenciado, como um pêndulo frenético.
"É a guerra, meus senhores. É a guerra!", vociferava Ernest, excitado, abrindo os braços e rugindo pelo café como um louco acicatado.
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Só então James se ergueu lentamente e disse:
"Meu caro Ernest, a Irlanda sempre esteve em guerra e sempre estará. E o irlandês está condenado a viver em estado de ira. Bebamos à boa vida, à arte e ao dolce fare niente, enquanto ainda podemos."
Ernest levantou o seu copo no ar e assentiu:
"You are quite right, my friend. A Florença! À boa vida! À bella Itália!"
E os dois amigos esqueceram por mais uns momentos o mundo e deixaram-se ficar mergulhados na doçura da Toscana.
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sábado, 27 de março de 2010

MORMORIOS DI FIRENZE X

O Duomo
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O Duomo ergue-se redondo no meio do casario. Redondo e orgulhoso. Redondo e baixo, mas em terra de cegos quem tem olho é rei.
O Duomo tem olho grande, abobadado. E por isso o Duomo é rei em Florença.
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Sobe-se ao Duomo por escadas estreitas, escuras e intermináveis - 463 degraus, para ser mais precisa.
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Uma vez lá em cima, é-se dono de Florença. Mas apenas por breves momentos. Recordemos - Florença não se entrega assim a ninguém. Apenas nos dá essa sensação.
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Lá em cima somos reis, com o Duomo. Imperadores dessa maré vaza renascentista que se espraia, cor de tijolo até ao abraço das montanhas.
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O Duomo guarda todos os segredos do Berço, escondidos no arco-íris dos seus vitrais,
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na geometria dos seus arcos ogivais,
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nas frestas dos seus frescos abobadados.
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No Duomo todos os florentinos sussurram, desde séculos passados, os seus desejos mais secretos, que se esvaem em fumo de velas na direcção do infinito.
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